Embaixador Rubens Barbosa analisa primeiros meses do governo Bolsonaro

Embora esteja entusiasmado com alguns aspectos, sobretudo na área econômica, ex-diplomata é crítico da postura do novo governo no âmbito internacional

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Embaixador João Mendes Pereira, consul geral do Brasil em Miami; palestrante e ex-embaixador Rubens Barbosa; Greta Trotman, partner Shutts, e Antonio Cássio Segura, presidente da BACCF (Foto: Mayra Souza)
Embaixador João Mendes Pereira, consul geral do Brasil em Miami; palestrante e ex-embaixador Rubens Barbosa; Greta Trotman, partner Shutts, e Antonio Cássio Segura, presidente da BACCF (Foto: Mayra Souza)

DA REDAÇÃO – “A eleição de outubro foi um divisor de águas”. Com esta frase o embaixador Rubens Barbosa abriu sua palestra, realizada na terça-feira (5) no escritório de advocacia Shutt, no centro de Miami, em mais um evento promovido pela BACCF (Brazilian Chamber of Commerce of Florida).

Antes, porém, ele foi apresentado por Antonio Cássio Segura, presidente da BACCF, e por João Mendes Pereira, atual cônsul geral do Brasil em Miami – que enfatizou o espírito de liderança, a capacidade de trabalho e a retidão de caráter do palestrante, visto que ele iniciou no Itamaraty atuando nas formulações do bloco comercial que mais tarde viria a ser conhecido com Mercosul.

Barbosa se disse admirado de que, pela primeira vez na história, 57 milhões de eleitores votaram em um candidato declaradamente de direita, apoiado por uma agenda social conservadora e em uma economia liberal, liderada pelo ministro da Economia Paulo Guedes.

Diante dessa nova realidade, três segmentos compõem o esteio da nova administração: Familiar (focado na defesa dos valores cristãos e conservadores), Militar (um grupo de oficiais aposentados das Forças Armadas) e Político (que precisa negociar com o Congresso as reformas necessárias para o Brasil voltar a crescer).

Prioridades internas e externas

O palestrante definiu as prioridades que o novo governo tem pela frente nos âmbitos interno e externo. Internamente, Rubens Barbosa – que atualmente é consultor da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) – aponta a necessidade da volta do crescimento e da geração de empregos para reduzir o número de desempregados no país. Dados comprovam que no último ano, sob o comando de Michel Temer, o país obteve crescimento de 1,8%. “Este ano é possível crescer ainda mais e atingirmos entre 2 e 3%, se aprovarmos a Previdência”, previu.

No entanto, para que o ciclo virtuoso retorne ao Brasil, é preciso fazer a lição de casa, conforme enfatizou o ex-diplomata que também ocupou o posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos no governo Fernanado Henrique Cardoso e em parte do governo Lula. E o que ele chama de “lição de casa” trata-se da aprovação das reformas previdenciária e tributária, além da recuperação da competitividade da indústria brasileira.

Barbosa revelou ser imperiosa a reforma do Estado e, sem dúvida, a Previdência deve ser a primeira delas. Conforme explicou, o inchaço da máquina pública impede o governo de fazer o que é necessário, uma vez que 85% do orçamento está comprometido para pagamento de salários, benefícios e obrigações. E isto se estende aos estados e municípios.

Além da Previdência – “não é uma questão ideológica, mas, sim atuarial, porque daqui a pouco não haverá dinheiro para pagar mais nenhum aposentado”-, o diplomata defende a reforma tributária, que possibilitará aliviar a carga tributária que incide sobre as empresas e inibe investimentos.

Outros aspectos destacados pelo palestrante são a recuperação da competitividade industrial do Brasil. “Hoje, o Brasil perdeu espaço no cenário mundial pela ausência de competitividade, ou seja, o conjunto de fatores que inclui tributos desnecessários, burocracia em excesso e má formação na educação formal e profissional fez com que perdêssemos relevância”, afirmou.

Desta forma, se faz necessário também desburocratizar os procedimentos para dar mais agilidade às empresas, investir em educação da maneira correta e trabalhar em conjunto com o Congresso Nacional para se aprovar a reforma previdenciária nos moldes desta enviada por Paulo Guedes. “Finalmente, foi elaborada uma reforma previdenciária que acaba com os benefícios, coloca todos no mesmo patamar e sobretudo acaba com a injustiça social, isto é, quem ganha mais pagará mais e quem ganha menos pagará menos”.

Apesar de concordar com o arcabouço da reforma da Previdência, Barbosa teme que as oposições e os lobbies dos privilegiados impeçam a aprovação da reforma com poucas modificações. “Isto é fundamental para demonstrar aos investidores internos e externos de que o Brasil decididamente está mudando para melhor. A partir daí, não tenho dúvida de que os investimentos virão para o Brasil”, afirmou.

Política externa

No âmbito internacional, Barbosa afirma com tristeza que o Brasil perdeu relevância. Isto vem desde os tempos do PT e agora se acentua com a indicação de Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores. “Para se ter uma ideia do isolamento do Brasil no contexto mundial, nos últimos 17 anos o Brasil assinou apenas três acordos comerciais: Israel, Egito e Autoridade Palestina. Os outros países assinaram 250! A crise da Venezuela mostrou que estamos a reboque na América Latina, onde deveríamos liderar o processo. Aceitamos atuar como satélite dos EUA, algo que fere nossa autonomia. Este novo nacionalismo é equivocado por pregar que globalismo e ecologia são pautas comunistas”.

Para piorar, há uma campanha contra o Brasil na imprensa internacional ao afirmar que a saída de Dilma Rousseff representou um golpe, de que Lula é um preso político e de que a eleição ganha por Bolsonaro foi fraudada. “Nada disto é verdade, mas estas versões são disseminadas e prejudicam a imagem do Brasil, que hoje é uma democracia plena. Afinal, temos imprensa livre, todas instituições funcionam e estamos no grupo das dez nações mais ricas do mundo”, enfatizou o palestrante.

Para manter esta posição ou galgar postos maiores, no entanto, é preciso adotar uma política internacional mais pragmática. Por ora, as prioridades do Brasil estão voltadas a bilateralizar as relações comerciais com Estados Unidos, Israel e Chile. Para contrabalançar esta visão estreita, o governo também está acenando com acordos comerciais com a União Europeia, Canadá, Leste Europeu e Japão.

Apesar de o governo Bolsonaro ser crítico do Mercosul, Barbosa vê o bloco como uma importante ferramenta comercial para os interesses dos países da América Latina. Ele condenou a maneira como o governo do PT usou o Mercosul ao dar mais ênfase a questões políticas e ideológicas do que aos acordos comerciais. “O Brasil se apequenou, permitindo até mesmo que Hugo Chavez desse as coordenadas no Mercosul. Agora, assumiu um governo com uma visão diametralmente oposta, na qual há um encantamento com os Estados Unidos. O que precisamos é retomar a tradição de dialogar com todos sem sermos subservientes a ninguém.”