Familiares de brasileiros presos em Londres contestam mídia internacional

“Eles erraram, mas não são esses monstros que a imprensa mostrou”, diz irmão de dois dos condenados

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Flavia, Renato, Raul e outras cinco pessoas foram condenados a penas que, somadas, chegam a 39 anos de prisão (Foto: Montagem Daily Mail/Metropolitan Police/mídias sociais)

A mídia internacional divulgou que pelo menos oito brasileiros foram condenados na Inglaterra, em decorrência de uma operação da Scotland Yard. Deste grupo, três pertencem a uma mesma família: Renato Dimitrov Sacchi, Flavia Xavier Sacchi (esposa), e Raul Sacchi (irmão), que receberam penas que variam de 8 anos e sete meses a 9 anos de dois meses em regime fechado. Um exame mais minucioso da sentença judicial mostra, no entanto, que eles não irão responder por crimes graves como tráfico de drogas, exploração sexual e escravidão moderna, conforme amplamente noticiado, mas por delitos como conspiração para ganhos com prostituição e posse de armas proibidas (taser e spray de pimenta).

“Eles erraram, mas não são estes monstros que a imprensa mostrou”, desabafou Luiz Antonio Sacchi, irmão de dois dos condenados (Renato e Raul), em uma entrevista por telefone ao AcheiUSA. De São Paulo, onde mora, Luiz Antonio tenta monitorar os acontecimentos com os familiares na capital inglesa e tem debatido com o advogado de defesa no caso, Sarj Patel, os próximos passos. “A pena que receberam foi muito alta, mas ao mesmo tempo recorrer da decisão pode causar um prejuízo ainda maior”, explica ele, que é assessor de varejo dos Postos Ipiranga.

De fato, Renato, Flavia e Raul estão presos desde fevereiro deste ano, quando a Scotland Year concluiu uma investigação de mais de um ano e meio sobre a possibilidade de tráfico de drogas e de pessoas. Eles foram detidos preventivamente sem fiança estipulada, até a realização do julgamento e júri popular, que acabou acontecendo entre setembro e outubro. Os brasileiros foram absolvidos dos crimes de escravidão moderna e tráfico de entorpecentes por falta de provas, mas a pena total dos oito envolvidos soma 39 anos de prisão.

Luiz Antonio conta que Renato, o irmão mais velho, sublocava os quartos de dois imóveis alugados para uso temporário por parte de garotas de programa e suas “visitas íntimas”, mediante pagamento de uma taxa por hora. “Eles não eram donos de um império de bordéis e nunca se envolveram com exploração sexual e prostituição, mas ganhavam dinheiro indiretamente com estas atividades”, explica o paulistano. Ele conta também que os irmãos não fizeram fortuna com este negócio, conforme anunciado pela Scotland Yard, tanto que acumulam dívidas no Brasil e no exterior. As fotos em carros de luxo são, segundo ele, uma imatura e falsa forma de ostentação para impressionar os outros – até porque os veículos nem eram deles.  

Renato se mudou para Londres há 15 anos e recentemente levou a esposa, Flavia, depois de conhecê-la numa viagem ao Brasil e do casamento relâmpago. Já Raul começou a tentar a vida na capital inglesa em 2017, depois de passar quatro anos tentando recolocar-se no mercado de trabalho em São Paulo. A esposa, Jane, havia se mudado este ano para a Europa com duas das quatro filhas do casal, semanas antes de o marido ser preso. Elas agora tentam o retorno voluntário ao Brasil. “É claro que a família está muito abalada com tudo isso, mas o pior é ver na mídia algumas inverdades. A minha mãe é uma pessoa de idade e está sofrendo demais”, afirmou Luiz Antonio, que criticou a atitude dos irmãos, mas atribui à falta de conhecimento das leis e à ganância tudo o que aconteceu.

A possibilidade de recorrer da sentença e requisitar um novo julgamento esbarra numa questão das leis inglesas: caso eles sejam condenados novamente, a pena começa a ser contada a partir do novo dia da decisão. “Eles são réus primários e terão direito a sair da prisão com metade da pena cumprida, usando as tornozeleiras eletrônicas. E eles já têm quase nove meses de detenção”, disse Luiz Antonio. Além dos três da mesma família, os outros brasileiros condenados são Maria Carvalho, Tony Simão, Henim Almeida, Anna Paula de Almeida Prudente e Antonio Teca Miranda. Um outro brasileiro, identificado como Marcelo, que seria a pessoa que mantém o negócio de prostituição, segundo a polícia, está foragido. O segurança dos imóveis, o inglês Keagan Boyd, contratado por Renato, também recebeu uma pena severa por portar um taser e spray de pimento. “As penas foram exageradas e em muitos outros casos os réus têm a punição transformada em serviço comunitário”  

A investigação começou em 2017, quando uma jovem brasileira denunciou que era explorada no local. A Scotland Yard começou a investigar as atividades dos brasileiros naquele endereço, inclusive com policiais à paisana. Vale lembrar que a prostituição não é uma atividade ilegal na Grã-Bretanha, mas sim a exploração do negócio. O AcheiUSA tentou contato com o advogado Sarj Patel, mas ele não respondeu à mensagem de e-mail.