Indocumentados ignoram os riscos para viver o ‘sonho americano’

Ativistas afirmam que imigrantes têm optado por rotas e maneiras mais perigosas para chegar aos EUA

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Doris Meissner: “Quanto mais fiscalização, maior a pressão para esses tipos de ações extremas” (Foto: Melissa Blackall/Wikimedia Commons)
Doris Meissner: “Quanto mais fiscalização, maior a pressão para esses tipos de ações extremas” (Foto: Melissa Blackall/Wikimedia Commons)

A morte de imigrantes dentro de um caminhão no Texas foi mais um capítulo da triste história da travessia ilegal para chegar aos Estados Unidos. Na verdade, em 2021, pelo menos 650 pessoas morreram tentando cruzar a fronteira sul do País, segundo a Organização Internacional para as Migrações, o maior número desde que a agência começou a rastrear essas estatísticas, há oito anos. E a julgar pelas notícias, 2022 baterá todos os recordes – e isso tem uma explicação que vai além do simples aumento de tentativas: os indocumentados têm sido forçados a seguir caminhos cada vez mais perigosos para alcançar o “sonho americano”.

“As mortes acontecem em rios, canais, desertos, montanhas e veículos destinados ao transporte de carga. Os traficantes de pessoas têm escolhido rotas mais distantes e longas e meios mais arriscados para escapar da fiscalização”, afirmou Fernando García, diretor executivo da Rede Fronteiriça de Direitos Humanos. Quem concorda com ele é uma ex-funcionária do Immigration and Naturalization Service e que hoje numa entidade apartidária em prol de políticas imigratórias. Doris Meissner acredita que o desespero dos indocumentados para chegar aos EUA tem feito com que muitos desprezem os riscos: “Quanto mais fiscalização, maior a pressão para esses tipos de ações extremas”, lamentou.

Ela acrescenta que os coiotes têm se beneficiado disso para aumentar seus ganhos, mesmo com estratégias muitas vezes suicidas. De fato, um recente relatório estimou que apenas os imigrantes de três países centro-americanos (Guatemala, Honduras e El Salvador) gastam US$ 2,2 bilhões por ano em pagamentos aos coiotes para chegar à América – e muitos não alcançam seus objetivos. Ativistas dos direitos dos imigrantes vêm alertando há tempos sobre essa situação.

Dylan Corbett é um deles e há poucos dias cobrou das autoridades ações para acabar ou pelo menos reduzir as mortes na fronteira. O maior problema é que os traficantes de pessoas estão ligados aos grandes cartéis mexicanos, e por isso os indocumentados são tratados como mercadorias. Os esforços do governo Biden para reverter as políticas consideradas prejudiciais aos indocumentados implementadas pelo ex-presidente Trump foram bloqueados na Justiça. Aos mesmo tempo, políticos como o governador do Texas, Greg Abbott, culpam as políticas da Casa Branca pelas repetidas mortes na fronteira. “As nossas autoridades precisam enfrentar e lidar com este problema, em vez de simplesmente usá-lo para atacar os adversários”, concluiu Doris.