Medalhas brasileiras ficam aquém do previsto

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O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) estipulou como meta o Brasil colocar-se entre os dez principais países na conquista de medalhas olímpicas. Este objetivo é praticamente impossível de se conseguir, mesmo se o Brasil ganhar ouro no Vôlei de Praia e Vôlei de Quadra masculino e no Futebol masculino. Apenas duas vitórias em esportes individuais poderia superar essa meta inicial, algo difícil de ocorrer.

Admitindo-se que a coluna foi redigida antes do encerramento dos Jogos Olímpicos de Verão, a conclusão baseia-se nos resultados já conhecidos. Ou seja, o Brasil deve ser o país sede com pior desempenho em uma Olimpíada. Sei que é chover no molhado, no entanto, vale uma reflexão. Desde 2007, quando o Rio de Janeiro foi escolhida como cidade sede superando cidades como Chicago, Madri e Tóquio, falou-se muito em adotar-se um programa para revelar e desenvolver atletas que pudessem brilhar nos pódios da Rio 2016.

Bem, mais uma vez ficamos apenas na intenção. Estruturas deficientes, corrupção desenfreada, choques de egos e falta de foco foram alguns dos principais fatores que contribuíram para a decepcionante participação brasileira na mais importante competição esportiva do planeta. Após a festa de encerramento que, esperamos, seja tão bonita quanto foi a de abertura, será necessário fazer uma autocrítica para descobrir os motivos pelos quais os atletas olímpicos brasileiros tiveram uma participação tão insípida em um momento em que deveriam brilhar até porque tinham a seu favor a força da torcida.

Torcida brasileira: os prós e os contras

Por falar em torcida brasileira, é preciso que os torcedores brasileiros aprendam a torcer. Como a maioria desconhece as regras das várias modalidades disputadas, vaiam na hora errada, aplaudem erros cometidos e ainda hostilizam adversários. Logicamente, isto prejudica a concentração dos atletas, sobretudo os de ginástica olímpica, até porque os exercícios são praticados simultaneamente. Ou seja, enquanto Diego Hypolito ou Arthur Nory estavam apresentando-se no solo havia uma gritaria intensa, tirando a concentração de outros atletas que estavam apresentando-se em outros aparelhos. Nada disto, porém, comparou-se às críticas do atleta francês Renaud Lavillenie, que perdeu a compostura e chamou os torcedores locais de “público de merda”. Na verdade, ele ficou frustrado por ter sido superado pelo brasileiro Fabio Braz e culpou a torcida que, de fato, não teve mesmo um comportamento exemplar. Está circulando no Facebook um comentário de que os europeus não têm motivos para criticar o mau comportamento da torcida brasileira porque eles atiram bananas e imitam macacos para jogadores de futebol negros, muitos deles brasileiros. Em minha opinião, um erro não justifica o outro. As duas atitudes são condenáveis e devem ser reprovadas. Claro que a vibração vale muito nos esportes coletivos e, nesse caso, vaiar o adversário é perfeitamente compreensível.

As decepções coletivas

O Basquetebol pode ser considerado o maior fiasco entre os esportes coletivos brasileiros. Nem a equipe feminina nem a masculina, mais badalada e formada por jogadores que atuam na NBA, conseguiram sequer passar da fase de grupos e foram eliminadas. Claro que é necessário fazer uma avaliação e mudar o que estiver dando errado. O Handebol feminino também decepcionou em razão de seus mais recentes resultados, assim como o vôlei feminino, que buscava o tricampeonato olímpico. Dos outros esportes, pouco podia se esperar como Pólo Aquático masculino que até acabou fazendo boa figura.

Ausência de planejamento

Esportes coletivos precisam de incentivos, é claro, no entanto, o grande problema do Brasil é a falta de um programa específico para garimpar talentos em modalidades como Atletismo, Natação, Ginástica e Pugilismo, por exemplo. Olhando-se o quadro de medalhas, a quatro dias do encerramentos dos Jogos Olímpicos de Verão, vê-se que as onze primeiras colocações são ocupadas por países de primeiro mundo juntamente com China e Rússia, prejudicada ainda pela ausência de vários atletas envolvidos com acusações de doping. Entretanto, o Brasil está atrás de países reconhecidamente muito mais pobres economicamente falando e bem menos populosos como Quênia e Jamaica, que possui apenas dois milhões de habitantes. Ora, o Brasil deveria – e deve, ainda, para as próximas competições – efetivar programas de garimpagem de talentos para estes tipos de modalidades, que são relativamente baratas de se praticar e produzem bastante medalhas.

Para virar o jogo

E como se faz isto? Simples, importa-se técnicos dos países que mais se destacam, identifica-se crianças com potencial para esses esportes e implanta-se um programa similar àquele adotado em seus países. De certa forma, isto foi feito na Ginástica Olímpica, com a chegada de técnicos do Leste Europeu e os resultados já se fazem sentir, com as medalhas obtidas por Diego Hypolito, Arthur Nory e Arthur Zanetti, e o bom desempenho de Jade Barbosa. O técnico de Fabio Braz, por exemplo, é o mesmo sujeito que treinou o grande Sergey Bubka e a icônica Yelena Isinbayeva, astros do Salto com Vara. Então por que não contratar técnicos da Jamaica e do Quênia para formar atletas de primeira linha no Atletismo, tanto para competições de velocidade, onde os jamaicanos dominam, como nas de longa distância, onde os quenianos se destacam. Embora eu tenha uma teoria que cor de pele não seja sinônimo de diferença de capacidade intelectual e atlética, é inegável que os negros são predominantes no Atletismo enquanto os brancos dominam na Natação. Porém, vimos nesta Olimpíada a nadadora negra norte-americana Simone Manuel conquistar ouro nas piscinas e alguns atletas brancos rivalizarem-se com os negros. Como o Brasil possui uma enorme população negra, ficando atrás apenas da Nigéria, há uma excelente matéria prima para se produzir futuros campeões no Atletismo. Única dificuldade, admito, será convencer os técnicos de Natação a trocarem EUA ou Austrália pelo Brasil para formar nadadores campeões. Talvez, nesse caso, deve-se continuar com a fórmula de enviar os mais destacados para treinar com eles nos centros mais desenvolvidos.

Morte em tempo olímpico

Depois de ter visto seu sonho de assistir ao Brasil sediar outra Copa do Mundo de Futebol e uma Olimpíada, faleceu no Rio de Janeiro o ex-presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desporto), da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e da FIFA (Federação Internacional de Futebol) Jean Marie Godefroid D’Havelange, mais conhecido como João Havelange. Figura controversa, Havelange sempre foi esportista. Nadador do Fluminense, ele ganhou notoriedade internacional como president da FIFA. Apesar de usar métodos discutíveis e envolver-se em corrupção, Havelange teve como mérito conseguir transformar o futebol no esporte nº 1 do mundo. Sob seu comando, os continentes africano e asiático passaram a figurar nas competições internacionais, abrindo assim novos mercados, tanto para jogadores, como para empresas multinacionais que usaram – e ainda usam – o futebol como elemento de marketing, além de envolver o público feminino, pois antes o futebol era um esporte essencialmente masculino. Sou do tempo que quando havia um choque mais ríspido e um dos jogadores reclamava da entrada, ouvia como resposta: “Futebol é para homens”. Hoje, como vemos, não é mais. Havelange morreu no Rio de Janeiro, sua cidade natal e atual Cidade Olímpica, aos 100 anos de idade, vítima de falência múltipla de órgãos.

Futebol feminino, a frustração

Mais uma vez, a Seleção Olímpica Brasileira de Futebol Feminino morreu na praia. Apesar do apoio e do incentivo da torcida brasileira, a equipe de Marta, Formiga & Cia. não conseguiu abrir o ferrolho sueco e foi eliminada na disputa dos pênaltis. Agora, terá a missão de tentar conseguir a medalha de bronze, caso derrote o Canadá nesta sexta-feira (19). O futebol feminino já conquistou duas medalhas de prata nos Jogos Olímpicos, em 2004 e 2008. Com aposentadoria de Formiga e com Marta longe de seu auge fica difícil imaginar a modalidade vir a ter o mesmo protagonismo, até porque o Brasil não dá nenhum incentivo às suas atletas, a não ser druante as competições.

Destaque positivo

Isaquias Queiroz é um dos grandes destaques do Brasil. Ganhador das medalhas de prata e bronze na Canoagem, ele é o primeiro atleta brasileiro a conquistar duas medalhas em uma mesma Olimpíada. E ainda participa de outra prova ao lado de Erlon Souza.

Destaque negativo

Quatro nadadores americanos, entre eles o campeão Ryan Lochte, fizeram um papelão que deslustrou sua imagem perante opinião pública do Brasil e dos EUA. Lochte, que teve uma participação decepcionante nas piscinas do Parque Aquático Maria Lenk, protagonizou um teatro muito mal ensaiado. Depois de ter denunciado à toda imprensa ter sido vítima de um assalto à mão armada por ladrões disfarçados de policiais, todos se solidarizaram com as “vítimas”. No decorrer das investigações, porém, os depoimentos foram mudando e agora pouca gente duvida que eles tenham mesmo sido assaltados na “perigossíma cidade do Rio de Janeiro”. Na verdade, eles foram a uma festa, se embebedaram, destruíram um posto de gasolina e Lochte ainda se envolveu com uma brasileira durante a festa. Para driblar a vigilância da namorada que também estava no Rio, montou esta farsa e contou com o apoio dos outros três jovens nadadores. O Consulado dos EUA no Rio de Janeiro ressarciu o comerciante pelos prejuízos e Lochte covardemente fugiu para os Estados Unidos, deixando os menos famosos com a responsabilidade para explicar o ocorrido. O que causou estranheza foi o fato de eles terem sido abordados por assaltantes que se dirigiram a eles falando en inglês. Convenhamos, bandidos cariocas não são assim tão sofisticados. Além disso, os “ladrões” não levaram cartões de crédito nem credenciais, ou seja, só mesmo com boa vontade para acreditar nesta história.

Futebol masculino, a esperança

Como se esperava, o Futebol masculino está na final. Coincidentemente, o adversário será a Alemanha, de triste memória para a torcida brasileira, depois dos fatídicos 7 a 1 aplicados pela Seleção da Alemanha sobre a Seleção Brasileira em uma das semifinais da Copa do Mundo de 2014, no Estádio do Mineirão. Muita gente pede uma vitória brasileira como vingança para apagar um pouco o vexame de dois anos atrás. Vamos com calma. Em primeiro lugar, as seleções não são as principais. Torneio Olímpico nada tem a ver com Copa do Mundo. O Brasil, país que mais conquistou medalhas olímpicas na história dos Jogos Olímpicos – três de prata (1984, 1988, 2012) e duas de bronze (1996, 2008) -, ainda busca a inédita medalha de ouro olímpico. As chances são bem grandes, porque a nova geração futebolista do Brasil é bastante talentosa. Comandada por Neymar, o ataque da Seleção Olímpica Brasileira pode perfeitamente ser convocado pelo técnico Tite para a seleção principal. Aliás, Tite já enviou a lista de convocados da Seleção Brasileira à Fifa para a próxima rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 – quando jogará com Equador em Quito e com Colômbia em Manaus -, mas preferiu não revelar os nomes para não interferir no clima da Seleção Olímpica Brasileira.