O perigo da segunda divisão

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Jorge Moreira Nunes

Antigamente era raro passar futebol ao vivo na TV. Ou você ia ao estádio ou se contentava em acompanhar o jogo pelo rádio. No Rio, Waldir Amaral, Jorge Cury, Doalcey Camargo, João Saldanha e Mário Vianna eram alguns dos nomes que dominavam os microfones esportivos durante os anos 70 e 80.

Quem já passou dos quarenta deve lembrar-se bem da emoção que era acompanhar um jogo narrado por aqueles caras. O slogan da Rádio Globo, líder de audiência, era “você vê o jogo ouvindo a Rádio Globo.” Que nada. Era muito mais que isso. A entonação empolgante das transmissões fazia com que qualquer pelada de várzea se transformasse numa verdadeira final de Copa do Mundo.

Aos domingos, no Rio, era preciso esperar até de madrugada para assistir pela TVE ao video tape do jogo principal da rodada, narrado sempre pela voz de Januário de Oliveira, autor do bordão “taí o que você queria!”, disparado logo após a bola rolar no começo do jogo. Um debate esportivo – a famosa Mesa Redonda – preparava o telespectador para as emoções do ‘replay’ da partida.

Hoje, a TV é fundamental para a própria sobrevivência do futebol, com as cotas de transmissão representando um aporte imprescindível de recursos para ajudar na sobrevivência dos clubes. Se por um lado essa mudança trouxe todos os jogos para a nossa sala, por outro tirou o torcedor dos estádios. A média de público presente nos jogos hoje é menor que a da MLS, a liga de futebol dos Estados Unidos.

O que sobreviveu daquele tempo foi a tal da mesa redonda na TV depois da rodada, onde locutores, comentaristas e atletas convidados comentam os jogos, numa conversa cheia de polêmicas, discussões e histórias pitorescas do futebol. Minha mesa redonda preferida hoje em dia é o “Troca de Passes” de domingo, no canal de TV por assinatura PFC.

Na programa da semana passada, comentava-se o empate do Flamengo com o Santos, quando Carlos Alberto Torres, capitão da Seleção campeã da Copa de 70, fez um comentário que esclareceu todas as minhas dúvidas sobre as diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu. Disse o ‘Capita’ que na Europa os jogadores, desde as escolinhas, são treinados para dar somente um toque na bola, passando a redonda para um companheiro melhor colocado assim que a recebem. A segunda opção para eles é o drible, e a última livrar-se da bola de qualquer jeito. Já o brasileiro, continuou o capitão, é condicionado desde criança a primeiro tentar o drible, depois reter a bola, e por último fazer o passe. Eu pego o mote do Capita e teorizo. O jogador brasileiro não pratica o futebol, ele brinca de futebol. Para ele, o jogo parece mais uma brincadeira que esporte, e essa percepção é estimulada pelos que vivem louvando o nosso ‘jeito moleque e peladeiro de jogar’, em detrimento da frieza técnica de outras escolas.

O futebol é de fato mais parte da nossa cultura do que um simples esporte. Ninguém escolhe ser jogador porque quer simplesmente praticar um esporte. Nossos jovens seguem por inércia o futebol praticado quando criança quando viram profissionais. Daí o vício pelo drible, pela firula desncessária, pelo toque a mais, sempre acompanhado por muita malandragem e catimba, em vez do espírito coletivo que exige a objetividade esportiva. Essa percepção lúdica aparece clara na forma pouco séria como os atletas encaram os treinos, a preparação física e a busca pelo aperfeiçoamento técnico e tático, e nas dificuldades que encontram quando se transferem para fora do país.

Até certo ponto, esse jeitinho brasileiro de praticar o esporte foi suficiente para nos render copas do mundo e prestígio internacional. Mas, enquanto nós continuávamos jogando as nossas peladas profissionais o mundo encarava o futebol como o esporte que é, que demanda treinamento, disciplina e aprendizado. O resultado da nossa displicência explodiu de repente na cara da gente com os 7 a 1 aplicados pela Alemanha na Seleção durante a Copa de 2014, no Mineirão.

A mesma coisa parece acontecer com a nossa organização social. Praticamos nossa cidadania da mesma forma que jogamos futebol, visando primeiro o drible, a farsa e a catimba em vez do toque de primeira coletivo. Talvez não por acaso, foi um jogador de futebol que imortalizou numa propaganda de cigarros a filosofia básica de vida do brasileiro – a de levar vantagem em tudo. O pobre Gerson, companheiro de Carlos Alberto na Seleção campeã de 70, acabou estigmatizado como autor da filosofia.

É hora de revermos essa filosofia antes que a História nos aplique uma goleada humilhante, como a que a Alemanha aplicou na nossa Seleção. Ela pode nos condenar para sempre à segunda divisão no quesito desenvolvimento entre as nações civilizadas do planeta. Não podemos cair, e só podemos subir para a primeira divisão se pararmos de tentar resolver tudo com viradas de mesa, como tem sido nosso hábito no futebol. O mundo não é brincadeira