O Vasco é líder, Eliakim!

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Eliakim era apaixonado pelo Clube de Regatas Vasco da Gama
Eliakim era apaixonado pelo Clube de Regatas Vasco da Gama

Esta coluna será especial em homenagem a Eliakim Araújo, um amigo que partiu no último domingo. 17 de julho. Como faço a coluna de esportes, nada mais lógico do que exaltar o Clube de Regatas Vasco da Gama – verdadeira paixão de Eliakim. Pouco importava se o Alvinegro carioca não vinha entusiasmando seus torcedores ultimamente, tanto que o Gigante da Colina mais uma vez está na Série B.

Nada disso, porém, tirava o ânimo do torcedor-símbolo do Vascão. Acostumado a ver grandes times do seu clube, ele costumava lembrar os craques que fizeram a história deste grande clube brasileiro. Desde o Expresso da Vitória nas décadas de 40 e 50 – quando foi a base da Seleção Brasileira de 1950 -, o Vasco sempre montou grandes esquadrões contrapondo-se com equipes pífias. Isto, no entanto, nunca arrefeceu a torcida de Eliakim.

Sempre ligava para conversarmos sobre futebol e, claro, havia uma empatia entre nós. Por ser de São Paulo e palmeirense, é natural minha simpatia pelo Vasco. Afinal, ambos são clubes nascidos de colônias (Palmeiras tem sua forte influência na colônia italiana enquanto o Vasco representa a colônia portuguesa) e suas torcidas são amigas e unidas. Assim como Flamengo e Corinthians (clubes de massa), São Paulo e Fluminense (clubes tricolores considerados de elite) e Botafogo e Santos (alvinegros que tiveram craques superlativos como Garrincha e Pelé) que mantêm suas identidades.

Estava até pensando em ligar para ele no domingo para falar sobre a liderança do Vasco na Série B, que conta também com Nenê como artilheiro da competição. Mesmo pelo telefone era perceptível a alegria de Eliakim ao falar sobre sua paixão clubística.

– O Vasco é líder, Eliakim!

Ouvir isto seria um bálsamo para ele, sobretudo depois de um mau resultado do Flamengo, clube que ele odiava, como todo vascaíno legítimo.

Que fique claro. A rivalidade ficava, apenas, no terreno esportivo. Tanto que ele se dava muito bem com Jorge Nunes, flamenguista de quatro costados.

Todavia, se havia rivalidade futebolística entre Eliakim e Jorge, havia muita afinidade política entre eles. Comigo, esta afinidade não existia. Do ponto de vista politico-ideológico, estávamos em campos opostos.

Uma coisa, entretanto, é precisa ser ressaltada: o comportamento democrático de Eliakim Araújo. Após ter sido convidado por ele para integrar a equipe de colunistas do Direto da Redação, um site de opinião integrado basicamente por jornalistas que comentavam sobre política.

A maioria da equipe de colaboradores era formada por simpatizantes de políticos, governos e instituições de origem esquerda. Eu e Claudio Lessa éramos aqueles que nadavam contra a corrente, defendendo pontos de vista diferentes daqueles propagados pela maioria dos colunistas.

Mesmo discordando algumas vezes de cada linha do que eu escrevia, Eliakim mantinha sua postura democrática e não alterava uma palavra sequer. Melhor ainda, publicava o texto na íntegra. Eventualmente, conversávamos sobre alguma informação menos acurada, porém o mais importante era a publicação dos textos que muitas vezes provocavam reações iradas dos leitores. No fundo, ele até gostava das polêmicas e me incentivava a continuar escrevendo as opiniões discordantes porque isto servia para aumentar o número de leitores. Alguns mais exaltados chegaram a pedir minha saída da equipe de colunistas do Direto da Redação. Eliakim simplesmente ignorava os pedidos e mantinha os “rebeldes” na equipe a demonstrar a imparcialidade do site.

Assim era Eliakim no dia a dia. Um sujeito com convicções inabaláveis, fiel aos amigos e sobretudo com alto grau de profissionalismo. Profissionalismo que irradiava-se para todos que com ele trabalhavam e principalmente para Leila Cordeiro, sua fiel companheira – também uma excelente jornalista e que sabe transmitir com naturalidade as notícias. Algo que, acreditem, é mais difícil do que se imagina.

Em homenagem ao grande amigo Eliakim Araújo, faço questão de publicar a tabela da Série B para ele saber que era nº 1, assim como o Vasco é nº 1 por ser líder do campeonato.

A paixão americana

Após ter mudado para os Estados Unidos – onde viveu por 19 anos no sul da Flórida -, Eliakim Araújo adotou outra paixão esportiva: Miami Heat. Fã de basquete, assim como eu, vibrávamos com as vitórias da equipe local e sofríamos com as más campanhas. Ao partir na intertemporada, nosso amigo não teve tempo de ficar triste com as movimentações da NBA. Foram muitas e torna-se impossível comentar todas. Quatro delas, contudo, valem ser destacadas. Pau Gasol deixou o Chicago Bulls e vai integrar San Antonio Spurs, com a responsabilidade de substituir o craque Tim Duncan que anunciou sua aposentadoria; Kevin Durant trocou o OKC pelo Golden State Warriors, que provocou muitas queixas do outros donos de franquia; Derrick Rose, antes amado pelos torcedores do Chicago Bulls, estará jogando esta temporada pelo New York Knicks, e finalmente a notícia que acertou em cheio os torcedores locais. Dwayne Wade, jogador-símbolo do Miami Heat, estará vestindo a camisa do Chicago Bulls, clube da cidade onde nasceu, após recusar a oferta de Pat Riley para renovar seu contrato com o clube do sul da Flórida. Agora, as chances de voltarmos a ser campeões diminuíram consideravelmente. Pelo menos, esta decepção Eliakim não presenciará.

Adeus!

Embora ultimamente não vínhamos nos falando com frequência – tanto que nem sabia de sua doença -, confesso que fará falta nossas conversas sobre futebol e basquete, além de outros assuntos porque conversar com Eliakim Araújo era sempre uma fonte renovável de inteligência e bom senso.

Adeus amigo!