Quase um ano após aprovação de ordens executivas, impasse continua em New Orleans

Em novembro de 2014, Obama lançou uma luz de esperança sobre quatro milhões de imigrantes; um juiz do Texas a apagou

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Desde o dia 20 de novembro de 2014, quando em rede nacional o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou uma série de medidas que beneficiariam cerca de quatro milhões de imigrantes indocumentados, a manicure Rose*, acompanhou todas as notícias relacionadas ao assunto em revistas, jornais ou pela televisão. Ela acreditou que sairia das “sombras” em que vivia desde que chegou aos EUA de Governador Valadares (MG) e se estabeleceu em Boston (MA) e hoje na Flórida, sem documentos. Rose é casada com brasileiro também sem documentos e o casal tem duas filhas nascidas nos Estados Unidos. “Quando Obama fez o anúncio, meu coração se encheu de esperança, comemorei muito. Hoje, o que nos resta é esperar. Não tenho mais esperança que essas ordens executivas saiam do papel”, disse.

Obama anunciou as ordens executivas alegando que a falta de ação por parte do Congresso o forçou a agir sozinho na imigração. No início deste ano, um juiz do Texas acolheu uma ação impetrada por uma coalizão de estados governados por Republicanos, liderados pelo Texas, questionando a constitucionalidade das medidas. O governo apelou com um pedido de urgência, que foi julgado e recusado por uma corte em New Orleans, a 5th Circuit Court of Appeals. Em julho passado, a mesma corte ouviu os argumentos das partes – governo federal e coalizão de estados – e desde então aguarda-se uma decisão.

No início de outubro, um grupo de imigrantes indocumentados liderados pelo brasileiro Gustavo Andrade, da ONG Casa de Washington DC, fizeram greve de fome de nove dias com objetivo de chamar a atenção da mídia para o caso. “As ordens executivas seriam um alívio para milhões de pessoas e os juízes estão enrolando para julgá-las. A questão já é política e não mais uma causa imigratória. Isso é injusto e imoral”, disse Andrade que trabalha com a mobilização de imigrantes indocumentados. Ele acrescenta que o intuito da greve foi também pressionar os juízes, mostrar para eles que da decisão deles depende o futuro de milhões de pessoas. “Nós imigrantes temos que nos conscientizar que as eleições do ano que vem são as mais importantes da história. Os Democratas estão conosco, os Republicanos querem a gente fora”.

A brasileira Andreza Moon mora em Massachusetts e viajou para New Orleans para integrar o movimento dos indocumentados. “Nós brasileiros temos que nos mobilizar. Acho que sobra vontade, mas falta mobilização. Não podemos deixar esse assunto morrer, é de interesse de todos nós”, disse Andreza.

O painel de três juízes que compõem a corte do 5th Circuit é considerado um dos mais conservadores do País, e é pouco provável que a medida passe por eles.

As ordens executivas priorizam o combate à imigração ilegal nas fronteiras, a deportação de criminosos e a proteção às famílias. As ordens permitiriam, também, aos imigrantes que não tenham antecedentes criminais a pagarem os impostos que estejam atrasados para que possam permanecer legalmente e temporariamente nos EUA sem temer a deportação. Para ser beneficiado, portanto, os candidatos devem viver nos EUA há pelo menos cinco anos, pagar impostos, não possuir antecedentes criminais e, mais importante, ser pai de um cidadão norte-americano ou residente legal permanente (green card). A ação permitiria que os beneficiados adquiram permissão de trabalho, carteira de motorista e que tenham o número do Seguro Social. Quanto à sonhada autorização para voltar ao país de origem e retornar aos EUA sem problemas, as novas regras não tratam especificamente desse privilégio de ir e vir.

Baiano de Salvador, Roberto Santos e sua esposa estão na América desde 2003. Entraram pelo aeroporto com objetivo de trabalhar por seis meses, juntar dinheiro e voltar para o Brasil, mas aqui estão até os dias de hoje. Nos Estados Unidos, eles tiveram três filhos e, por esse motivo, seriam beneficiados pelas novas medidas. “Não vejo a hora de ter a permissão de trabalho, a carteira de motorista e viver como uma pessoa normal na América. Sempre tive a preocupação de pagar meus impostos em dia e andar dentro da lei na medida do possível”, disse Roberto. “Mas a vida de quem está irregular não é fácil por aqui. Muita gente desistiu na crise de 2008 e voltou para o Brasil porque perderam tudo e eu fui um desses. Não desisti por causa dos meus filhos e agora vejo o que sempre esperei se concretizar, mesmo que não seja o green card ou a cidadania, já é um grande passo”, disse Roberto.