Talento no palco, intolerância na plateia

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Caetano Veloso e Gilberto Gil
Caetano Veloso e Gilberto Gil. Foto: Divulgação

Dois ícones da música popular brasileira comemoram juntos 50 anos de carreira em 2016. Caetano Veloso e Gilberto Gil são talentos internacionalmente renomados e legítimos representantes do que há de melhor na nossa cultura, desde a Tropicália do final dos anos 1960, movimento que influenciou toda uma geração e mudou o ritmo da música brasileira nas décadas seguintes à Bossa Nova. Composições como “Alegria, Alegria”, “Sampa”, “Tropicália”, “Outras Palavras”, Qualquer Coisa”, “Samba, Suor e Cerveja”, Você Não Entende Nada”, de Caetano, e “Domingo no Parque”, “Aquele Abraço”, “Super-Homem”, “Se Eu Quiser Falar com Deus” e “Vamos Fugir”, de Gil, são clássicos da nossa música, reconhecidos imediatamente em qualquer lugar do planeta onde são tocadas.

Para comemorar a carreira brilhante, os dois baianos saíram pelo Brasil e pelo mundo em turnê, batizada de “Dois amigos, Um Século de Música”, acompanhados apenas pelos seus violões, complemento mais que suficiente para a voz dos dois monstros sagrados da MPB. Miami teve o privilégio de ser incluída nessa turnê histórica, que aterrissa no palco do Bayfront Park neste sábado (16), depois de percorrer a Europa e a América Latina, sempre com casa lotada.

A surpresa foi que os dois músicos, motivo de orgulho cultural para qualquer nação, foram recebidos com extrema hostilidade por boa parte dos brasileiros que moram em Miami e adjacências, que ao saberem da inclusão da cidade na turnê invadiram a seção de comentários das redes sociais pregando um boicote ao show por causa de supostas posições políticas tomadas pela dupla ultimamente. Ora, independentemente de qualquer posição política que seja, Gil e Caetano estão muito acima de qualquer julgamento rasteiro sobre suas preferências políticas, que aliás não têm absolutamente nenhuma interferência sobre sua relevância cultural. Essa importância, entretanto, não significa a soberba de omissão, tanto que eles foram obrigados, por causa de suas opiniões, a sair do Brasil durante os anos de chumbo da ditadura militar, quando a censura, a prisão, a tortura e a perseguição implacável aos opositores do regime os levaram ao exílio em Londres, há 40 anos.

Hoje, Gil e Caetano, como quaisquer cidadãos, recuperaram a liberdade de expressar suas convicções políticas, e exerceram essa liberdade no programa da Rede Globo “Altas Horas”, de Serginho Groissman, onde em entrevista disseram o que pensavam sobre a conturbada situação política porque hoje passa o Brasil. Nem vem ao caso quais sejam essas opiniões. Diga-se apenas que elas estão muito longe da reação de intolerância que geraram na parcela mais revoltada da população, ensandecida pelo bombardeio incessante de denúncias, algumas verdadeiras e outras mentirosas, umas justas e outras injustas, que a grande mídia brasileira despeja todos os dias nos noticiários.

A hostilidade aos artistas configura um caso, lamentável, onde a ignorância cultural sobre o que representam os dois para o Brasil se junta à ignorância política sobre o que significa em essência o debate democrático. Porque a cultura social implica o reconhecimento e a valorização de certas manifestações genuínas que nos representem como povo, e a cultura política pressupõe o reconhecimento da opinião alheia como parte do jogo democrático. É a dialética entre as diversas opiniões que permite o debate produtivo, que se torna improdutivo e acaba quando a intransigência e a intolerância contaminam as ideias. O que sobra é apenas o ódio cego ao que nos parece ser diferente de nós e o nosso desejo de destruí-lo a qualquer preço e sem reflexão. Exatamente o que fazem os que pregam o boicote despropositado ao show de Gil e Caetano em Miami.

Quero acreditar que essa triste epidemia de ódio irracional ainda não tenha contaminado de todo a comunidade brasileira de Miami e adjacências. Quero crer que haja cabeças mais sensatas que sabem separar as coisas, e que haja cabeças mais sensatas ainda que veem na manifestação política de Gil e Caetano um legítimo direito de opinião de quem não precisa provar mais nada a ninguém. Quero crer que ainda haja por aqui brasileiros que veem no discurso deles uma fonte de reflexão sobre o que acontece de verdade no Brasil, à luz do pensamento de duas das inteligências mais criativas do País. Quero crer, finalmente, que ainda haja gente por aqui que tem orgulho de ver dois grandes compatriotas representarem com tanto talento e brilho a nossa cultura pelo mundo.

Eu estarei na plateia.