Carlos Martinez Turismo

Impressões sobre o Marrocos

Depois de percorrer mais de 1.650 quilômetros e visitar nove das principais do Marrocos, o colunista Carlos Martinez compartilha suas impressões sobre este maravilhoso país do Norte de África

Depois de percorrer 9 das suas cidades principais e viajar mais de 1.650 quilômetros, por suas estradas asfaltadas, poucas pedagiadas, em 12 dias, deixo aqui algumas impressões que podem contribuir para o conhecimento sobre este maravilhoso país.

A partir de Casablanca, passamos por Rabat, Chefchaouen, Meknes, Fez Erfoud, Ouarzazate e Marrakesh cada qual com suas características próprias, porém sem fazer a experiencia de estar no deserto do Saara. Percorremos em uma van com o Assam nosso motorista- guia de origem berbere, povo nômade originário. Em todo esse trajeto pode-se apreciar a paisagem de forma limpa, pois não aparecem os outdoors comerciais poluidores das nossas estradas.

Nos seus aspectos gerais resumidos o Marrocos é um país do Norte de África banhado pelo Oceano Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo, distingue-se pelas suas influências culturais berberes, árabes e europeias; é uma monarquia institucional, com parlamento eleito, mas onde o rei detém os maiores poderes políticos, religiosos e militares. Tem uma população de 37 milhões de habitantes (2021). Sua economia é baseada na exportação de fosfato, agricultura e turismo. A religião dominante (97%) é o islamismo.

Após a influência de povos pré-históricos e do colonialismo europeu, (português, espanhol e francês), que deixaram suas fortes marcas físicas e culturais, teve sua independência declarada em 1956.

Ficam claras essas influências nas cidades percorridas tanto no litoral norte, como Casablanca sua capital econômica quanto Rabat sua capital política, mais junto a Portugal e Espanha, como nas demais do centro e do sul.

Percorrendo o território a partir deste norte notamos nas grandes planícies cercadas da cadeia dos montes Atlas, alguns agora com neve, a imensa plantação de oliveiras, que o torna um dos maiores exportadores do mundo. Sua qualidade é comprovada no grande consumo fresco em todas as refeições. Nosso guia informou que o conhecido azeite Borges espanhol, compra toda a produção local, embala e no rotulo ignora a origem. Outras presenças são arvores de palmeiras de tâmaras, laranjas, tangerinas.

Em todas as cidades há presença dominante dos minaretes das mesquitas que chamam os fiéis para as 5 orações diárias; seu desenho urbano é meio anárquico, não geometrizado, acompanhando a topografia, onde também aparecem algumas tendas nômades, ainda habitadas pelos berberes. Tivemos a oportunidade de visitar o interior de uma delas, muito rústico de um casal jovem com filho. Possuíam energia captada por painel solar. Outra construção constante é a presença da escola de ensino fundamental, identificada sempre por muros bastante coloridos.

As joias das soluções de moradias eram as grandes residências, da classe alta, com pátio central com fontes, os chamados “riads”, ricamente decoradas, herdados dos espanhóis, que hoje foram transformados em charmosas pousadas. Elas correspondiam a prática da vida interior das famílias tradicionais. Daí também a rica solução dos “muxarabis” nas janelas, para proteção solar e garantir a privacidade. Em geral eram construções de barro, de paredes grossas tipo taipa.

As edificações atuais em geral são baixas, até 4 pavimentos sem elevadores, com comercio ou serviço no térreo, não tem maiores qualidades arquitetônicas, resumindo a meras construções funcionais, muito parecidas e simples em seus elementos construtivos.

A grande maioria com tetos planos, permitidos pelo regime de chuvas, os famosos terraços, pelos quais eles têm verdadeira obsessão. Só se alteram nas áreas sujeitas a neve.

AS MEDINAS  

Praticamente todas as cidades possuem sua parte central tomada pelas “medinas”, que são o coração das cidades, fortificadas por muros, construídas há vários séculos, verdadeiros labirintos de ruelas, ainda hoje ocupadas por residências, lojas comerciais, mesquitas e alguma infraestrutura e equipamentos.

Muitas dessas cidades são consideradas patrimônio da humanidade pela Unesco.

  • 1981 Medina de Fez
  • 1985 Medina de Marrakech
  • 1987 Ksar de Ait-Ben-Haddou em Ouarzazate
  • 1996 Cidade Histórica de Meknes
  • 1997 Volubilis Arqueológico perto de Meknes
  • 1997 Medina de Tetuão
  • 2001 Medina de Essaouira (antiga Mogador)
  • 2004 Cidade Portuguesa de Mazagão (El Jadida)

Porém ainda se utilizam de soluções arcaicas para a resolver os problemas como transporte movido a animais, lavar a roupa em rios ou tanques e fornos coletivos, tratamento de couro, tecelagem, etc. Ao percorrer os campos do interior vimos muitos pastoreiros de carneiros, cabras por meninos ou mulheres de forma rudimentar.

Aliás o uso artesanal na confecção dos produtos ainda é largamente empregado nas áreas de tapeçaria, cerâmica, marcenaria, serralheira, com resultado extraordinário em qualidade e beleza, em geral cooperativas bem produtivas e organizadas.

Em volta das “medinas” estendem-se as novas cidades com caráter mais moderno na sua estrutura e traçado, por contribuição francesa. Amplas avenidas, jardins e alguma arquitetura de qualidade.

Porém há poucos exemplares de arquitetura contemporânea que presenciei, tais como: A mesquita Hassan II em Casablanca, O Aeroporto Menara e o Museu Ives San Laurent em Marrakech, o auditório da Zarah Hadid e o edifício mais alto da Africa em Rabat em construção do arquiteto Rafael de la Hoz.

A influência do islã, a religião de 97% dos seus habitantes é determinante na sua fé e cultura, através da prática do Al Corão. Os homens, que podem se casar até 4 vezes sob condições, dominam as relações sociais, religiosas e econômicas. cabendo as mulheres as atividades domésticas e dos filhos. Elas se casam muito cedo, por falta de outras oportunidades. Não podemos esquecer que tradicionalmente elas viviam dentro de harèns aos cuidados do sultão. O marroquino é um tipo de pele morena escura, estatura mediana.

 As 5 orações são seguidas à risca, após as purificações do corpo, o álcool e o porco são proibidos, bem como violações ao corpo como tatuagens, guardando proteção e recado nas vestimentas utilizadas. As “djelabas” para os homens e as kaftans para as mulheres são frequentemente usadas par proteção tanto para o calor quanto para o frio. Os nômades habitantes do deserto usam os caraterísticos turbantes azuis de origem berbere. Onde estiverem se ajoelham em direção a meca e fazem suas orações. Nas mesquitas as mulheres rezam separadas dos homens.

Em várias cidades vê-se a presença tradicional, ainda que em número bastante reduzido, dos povos judeus com seu comercio, casas, sinagogas e cemitérios vivendo harmoniosamente ao lado dos árabes. Essa condição levou o Marrocos como mediador do conflito entre árabes e judeus em Israel e Palestina.

 Em nossa viagem observamos muita cordialidade, solidariedade e respeito entre seus moradores. Nenhum sinal de violência ou agressividade, que vivem em níveis de pobreza, de essencialidade, de dignidade bastante respeitáveis. A característica cultural do regateio ou da pechincha no comercio é um dos traços culturais dominantes entre esses povos árabes.

Ainda do ponto de vista cultural a passagem do conhecimento se faz pela pratica, pela oralidade e não por livros a não ser os religiosos, apesar de ter a biblioteca mais antiga do mundo em Fez. A música e o teatro se revelam importantes nesse processo.

PAÍS EMERGENTE

O Marrocos é considerado um país emergente, com um nível de vida com baixos salários e muita economia informal, onde a prática da propina complementar a todos os serviços é praticada com frequência. Eles convivem tanto com soluções artesanais de produção com baixos usos de tecnologia, como da falta de eletrodomésticos, celulares antiquados, chocantes para os nossos costumes ocidentais.

Como muita atividade é praticada em plena rua, fica difícil distinguir quem é o real morador de rua ou praticante do comercio ao ar livre.

Essa é uma diferença fundamental entre os nossos valores ocidentais, que estranhamos bastante.ao visitar o país.

Um aspecto importante é a questão da alimentação. Seus produtos são bastante saudáveis e frescos, talvez por falta de capacidade de armazenamento e refrigeração, que lhe emprestam um sabor inigualável, graças aos temperos utilizados, como açafrão, páprica, pimentas, etc.  Muitas frutas naturais ou secas, legumes, verduras, carnes são cultivados e oferecidos nos pratos, sucos e doces. Com essa dieta não se vê o fenômeno da obesidade, como se nota, por exemplo, nos EUA que tem a dieta pautada na gordura e nos refrigerantes de forma excessiva. Aliás, há poucos Mc Donalds no Marrocos.

A grande invenção do “tajine”, que é cozido numa cerâmica com tampa alta, bastante bonita, que pode preparar os ingredientes com várias e ricas composições, que agradam qualquer paladar.

Uma refeição completa tem entrada (sopa ou salada), prato principal (tajine) e sobremesa. Gira em torno de 25 ou 30dolares ou euros. O chá de menta faz parte dessa cultura, servido como recepção ou durante qualquer refeição. A questão do uso de bebida alcoólica é limitada a alguns estabelecimentos que possuem licença específica, o que onera o preço pela incidência dos tributos.

Um aspecto diferente da alimentação é na área de cosméticos onde aparece o ARGAN produto existente unicamente no Marrocos e destinado a produtos de beleza.

Talvez pudéssemos fazer reparos quanto a questão de higiene na manipulação dos ingredientes alimentares e cuidados com o lixo urbano, são estranhos aos nossos modos e causador de possíveis estragos nas nossas defesas de saúde. Além disso parece que o discurso do aquecimento global e da sustentabilidade ainda não foi incorporado no país, apesar de ver iniciativas de aquecimento solar e eólica.

DESTAQUES DE ALGUMAS CIDADES

CASABLANCA – forte polo comercial e econômico, fundada em 1770, ao norte junto ao Oceano Atlântico. Grande parte foi construída pelos franceses entre 1912 e 1930. Pouco destaque turístico além do Palacio Real, da Mesquita de Hassan II com espaço interno para 25.000 pessoas e da praça Mohamed V.

RABAT – capital política e administrativa de 1.600.00 habitantes, junto a costa, onde se pode ver a Medina, o Palacio Real, a Mesquita e Torre e o mausoléu de Hassan II e o Kasbah (fortaleza) de Oudalas. Para nós arquitetos, destaque para as obras em andamento do auditório da arquiteta iraniana Zaha Hadid junto ao Bank of Africa Tower, edifício mais alto da África.

CHEFCHAOUEN a conhecida cidade azul, devido a essa cor ser a pintura de portas, janelas e a parte inferior das paredes das suas casas. Destaque para a Medina, o Deposito original da Agua.

VOLUBILIS – que se caracteriza pelas ruinas de uma cidade romana inteira, distante de tudo.

FEZ – cidade histórica, considerada a capital espiritual, intelectual e cultural do Marrocos, fundada em 789 d.C. com sua imensa Medina medieval, o famoso curtume da cidade (Chouara Tanerie), a parte externa do Palacio Real, Fonte Nejarine, Bab (Porta) Boujoloud. Nela e deu a conversão dos berberes originais ao islamismo. Aqui também está a Mesquita e a Universidade de Kairadne, considerada a mais antiga. do mundo, a espetacular Madraça Attarine (casa de ensino e fortaleza do sultão) Abu Said.

MEKNES – cidade histórica importante, em completa recuperação, infelizmente sem possibilidade de visitar atualmente.

ERFOUD – é considerada a porte de entrada das dunas de Merzouga no deserto do Saara, com seus oásis de tamareiras, de grande produção e a da extração de um mármore negro com fosseis marítimos. Atribui-se que o mar cercou a região em tempos pré-históricos.

QUARZAZATE – é a efetiva porta de entrada ao deserto do Saara, considerada a capital do cinema ou a Hollywood do deserto pelo número de filmes rodados nela ou próximos. Rodeada de oásis, montanhas do alto Atlas e palmeiras centenárias atrai multidões de turistas. Ver o Casbah de Taurirte ou Telouet (Glaoui). Por falar em deserto vale lembrar que o Marrocos não possui camelos, como no Oriente, mas sim dromedários, que tem uma única corcova só nas suas costas.

MARRAKESH – cidade única, pulsante e frenética de 1.000.000 de habitantes, que absorve uma gigantesca horda de turísticas de todo o mundo, que a transforma num caldeirão excepcional de gente e situações. E considerada a cidade vermelha fruto das suas construções. Possui o maior souq (mercado) ou Medina do país, com residências, lojas comerciais, água, energia elétrica, mesquitas, etc, num movimento enlouquecedor composto de pessoas, carroças, motos e demais veículos.

O espaço urbano é dominado, além da Medina claro, pela famosa e imensa praça Djemaa el Fna, cercada de edifícios públicos e restaurantes feericamente iluminados, que tem animação praticamente 24 horas. Há de tudo nesta praça: inúmeras barracas com comida de rua, de sucos, encantadores de serpentes, de macacos, vendedores de cigarro picado, de doces, de luminárias, de tapetes, músicos e tudo mais que você possa imaginar.

Para se ter uma ideia de tamanho, a Medina ´cercada por uma muralha de 19 km de extensão.

Outras atrações são a Mesquita de Koutoubia, os palácios Bahia, ElBadi, o Real, além do Museu de Ives Saint Laurent, os jardins de Majorelle, de Mamounia e o bonito e novo Aeroporto Menara.

PARTE FINAL

Concluindo posso dizer que visitar o Marrocos é uma experiencia extraordinária, em usufruir de um modo de vida sociocultural muito diferente do nosso, com uma explosão de cores, religiosidade, soluções ainda antiquadas de seu dia a dia, que nos faz refletir sobre os nossos modos de vida e valores ocidentais, de níveis de consumo, de tecnologia, de conforto, de individualismo, de superficialidade talvez exagerados.

Texto: Arquiteto Edison Eloy de Souza
Fotos: Carlos DI ROBERTO Martinez

Compartilhar Post:

Baixe nosso aplicativo