Um artista plástico ‘raiz’

Um dos mais conceituados pintores brasileiros nos EUA, Pedro Lázaro revê sua carreira e continua inovando

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Pedro Lázaro A arte não é pão
Pedro Lázaro A arte não é pão

Um dos pontos em comum entre a apresentadora Xuxa, o piloto Helio Castroneves e o publisher do AcheiUSA, Jorge Nunes, é o fato de todos terem, em seus acervos particulares, telas do artista plástico Pedro Lázaro. Aliás, é enorme o número de admiradores da obra deste brasileiro radicado em Miami desde a década de 90. Não que este tenha sido seu principal norte na carreira – muito pelo contrário. “Sempre me preocupei demais com a arte em si, deixando de lado a parte comercial da profissão”, faz uma autocrítica o pintor “raiz”, como ele seria identificado pela sua essência artística, na gíria costumeira do seu Rio de Janeiro.

Mesmo isso não impede que, aos 69 anos e com a saúde inspirando alguns cuidados, Pedro continue a se reinventar. Ele tem, por exemplo, produzido telas lançando mão de texturas, como guimbas de cigarro e cascalhos. Quem está acostumado ao abstracionismo em seu trabalho, pode se surpreender com uma obra mais realista, de cunho social. “É interessante colocar nos quadros o meu ponto de vista sobre temas cotidianos”, sintetiza. Nesse sentido, um de seus quadros mais famosos está em exposição permanente no Consulado Brasileiro em Miami – ‘Passeata Pela Paz’ (244 cm x 102 cm) traz a palavra paz em 57 idiomas, inclusive latim, sânscrito e braile.

A tela ‘Refugees’, a mais recente pintada por Pedro Lázaro
A tela ‘Refugees’, a mais recente pintada por Pedro Lázaro

A saudade da terra natal também é presença constante, seja em forma das bandeiras estilizadas (expressão artística da qual ele foi um dos precursores), seja ao retratar aspectos do folclore brasileiro, como em uma série recente. Especialista em História da Arte e suas diferentes correntes, Pedro é considerado um autodidata, que se inspirou tanto em Van Gogh quanto em artistas de rua. Já foi professor universitário. Na Escola de Belas Artes, conheceu sua companheira de quase quatro décadas e absorveu a base teórica daquilo que sempre buscou e experimentava na prática, desde a infância. Incursionou pela fotografia e escultura (mármore e cerâmica), mas é na pintura que ele, até hoje, se realiza.

Se bem que uma outra ocupação tem proporcionado prazer igual ao artista: ser avô do Lucas, de sete anos, filho de Marcela, sua única filha. E o bate-papo para a coluna, em seu acanhado ateliê em Hallandale Beach, cercado de obras de arte por todos os lados e em meio a retoques no seu quadro mais recente, girou em torno principalmente da família, de perdas, reconhecimento e uma crítica sutil à indústria cultural, que teria transformado obras em mercadoria: “Arte não é pão e não pode ser enxergada apenas como algo decorativo”.

AcheiUSA: Fale um pouco sobre este quadro, que está recebendo os últimos retoques.

Pedro Lázaro: Trata-se de ‘Refugees’ (1,27 cm x 52 cm), um acrílico sobre tela que vai fazer parte do projeto ‘Arte Que Salva’, organizado pela amiga Eve Atman e cuja renda este ano será usada na construção de uma escola para crianças sírias na Jordânia. Na verdade, os artistas participantes criaram suas obras a partir dos desenhos feitos por algumas destas crianças. No meu caso, usei a ilustração do menino Azissa, que vive num acampamento de refugiados. O trabalho consolida um retorno meu ao realismo e é interessante colocar nos quadros o meu ponto de vista sobre temas cotidianos.

AU: O que motivou esta mudança?

PL: Eu considero o ano de 2011 um divisor de águas, não apenas em minha carreira, mas na vida de um modo geral. Foi um período difícil: perdi minha esposa para o câncer, após quase 40 anos de união – ela foi minha aluna na faculdade. Além disso, tive problemas médicos, e tudo isso me tirou um pouco a energia física e o ânimo naquela época. A partir dali, resolvi dar mais sentido às minhas obras, expressar mais meus sentimentos e emoções, para assim readquirir o prazer de pintar, o que acabou acontecendo.

AU: Quais são suas principais influências?

PL: Bem, costumo dizer que meu tio foi o primeiro a despertar em mim o interesse pela pintura… aos cinco anos de idade comecei a desenhar pequenos soldadinhos, bem básicos. Depois andava pelas calçadas admirando o trabalho de artistas de rua. Aos 17 anos, pintei o meu primeiro quadro, um tinta a óleo inspirado em Van Gogh. Mas posso mencionar também Picasso, que é pai de todo o artista, e meu mentor, Lydio Bandeira de Mello, que criou o trabalho de criação do mural na sede da Caixa Econômica Federal, no Rio de Janeiro, do qual fiz parte e muito me orgulha e foi aprendizado.

‘Passeata pela Paz’, um dos quadros mais famosos do artista
‘Passeata pela Paz’, um dos quadros mais famosos do artista

AU: E como se deu a vinda para os Estados Unidos?

PL: Vim como muitos brasileiros, desiludido com a crise econômica e abatido pelo Plano Collor. Aqui, tive que começar do zero. Trabalhei na recepção a brasileiros no auge das compras em Miami Downtown e aos poucos comecei a produzir telas para exposições na cidade, em especial para a Wentworth Gallery. Aí veio o prêmio principal do Latin American Museum, com a obra ‘The Bomber’, que motivou a realização de uma mostra individual no local. E com a ajuda de muitos amigos, passei a ficar mais conhecido. Mas pouca gente sabe que meu primeiro trabalho na área de pintura aqui na América foi um bico de pintor para cobrir uma cerca com tinta branca, o que eu até hoje acho muito emblemático.

AU: Aqui é mais fácil viver da arte?

PL: Não é fácil, pois para mim em particular a produção artística e o marketing sempre foram atividades distintas. Sempre me preocupei demais com a arte em si, deixando de lado a parte comercial da profissão, o que acabou dificultando a venda das minhas obras. Além do mais, sou muito exigente. Tenho telas antigas, que não estão disponíveis porque ainda hoje gosto de revisitá-las para mudar uma coisa ou outra. Costumo dizer que arte não é pão, cujo freguês volta diariamente para comprar. Arte é algo muito maior, mais pessoal e, portanto, não pode ser enxergada apenas como algo decorativo.

AU: Na sua família alguém herdou o talento para artes plásticas?

PL: De certa forma sim, pois minha filha Marcela é designer gráfica em Jacksonville. E o meu neto, Lucas, de sete anos, gostava muito de lambuzar as mãos de tinta, só isso. Mas, de qualquer forma, estar com eles é o meu programa predileto atualmente.

N. da R.: Para acompanhar a carreira de Pedro Lázaro, acesse a página do artista no Facebook – https://www.facebook.com/pedro.lazaro.54.