A tecnologia desenvolvida pela pesquisadora Lívia Schiavinato Eberlin, a MasSpec Pen, é capaz de identificar, em poucos segundos, se um tecido é canceroso ou saudável durante uma operação. Recentemente, o trabalho recebeu a Biemann Medal, concedida pela American Society for Mass Spectrometry e considerada um dos principais prêmios da área. Formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a brasileira já havia sido reconhecida anteriormente pela Fundação MacArthur, conhecida como “bolsa dos gênios”.
A caneta já foi testada em centenas de amostras e apresenta altos índices de acerto, próximos de 97%, de acordo com estudos divulgados. A pesquisa avançou para testes clínicos com pacientes, incluindo casos de câncer de pulmão, mama e tireoide. Segundo especialistas, a principal vantagem da nova tecnologia é a possibilidade de verificar, em tempo real, se todo o tumor foi removido ou se ainda há células cancerosas na área operada. Isso reduz a necessidade de novas cirurgias e evita a retirada excessiva de tecido saudável.
Durante a cirurgia, o médico encosta a ponta da caneta no tecido do paciente. Uma pequena gota de água é liberada, capturando moléculas da região analisada. Esse material é então enviado a um espectrômetro de massa, equipamento capaz de identificar a composição química das células quase instantaneamente. Em poucos segundos, o sistema indica se há presença de câncer. Hoje, em muitos procedimentos, essa resposta pode levar até 40 minutos, dependendo da análise laboratorial. Nesse intervalo, o paciente permanece sob anestesia, e o cirurgião precisa tomar decisões com base em informações limitadas.
Sobre os desafios de desenvolver pesquisa fora do país de origem, Lívia ressaltou que construir uma carreira no exterior exige não apenas excelência técnica, mas também adaptação cultural, resiliência e capacidade de competir em um ambiente altamente exigente. Além de obstáculos tradicionais, como as barreiras iniciais de idioma e cultura, a pesquisadora também destacou a dificuldade de conquistar espaço em áreas historicamente dominadas por homens, bem como o preconceito por ser mulher e latino-americana.
Apesar das dificuldades, a brasileira ressaltou que o ambiente internacional oferece acesso a infraestrutura avançada, redes de pesquisa globais e oportunidades de acelerar o desenvolvimento científico — fatores que foram decisivos para viabilizar a criação da caneta. Além do impacto clínico, a invenção reforça o protagonismo de cientistas brasileiros no cenário internacional. Mesmo desenvolvida fora do país, a tecnologia já começa a ser testada também no Brasil, em centros de pesquisa e hospitais de referência.
