Desde maio, 41 estados notificaram um total mais de 11 mil casos de infecção por Cyclospora, um parasita microscópico que causa um quadro severo de diarreia debilitante, com duração de várias semanas. Trata-se de um número recorde que acendeu o sinal de alerta entre especialistas em saúde pública sobre a fragilidade dos mecanismos governamentais de fiscalização.
A Food and Drug Administration (FDA) aponta que o maior foco de contaminação da temporada teve origem em lotes de alface-americana importados do México. Os vegetais foram distribuídos em escala nacional pela Taylor Farms, gigante do setor que abastece milhares de redes de supermercados e restaurantes, e a contaminação já atingiu nove estados.
A transmissão do Cyclospora ocorre por meio de contaminação fecal humana. De acordo com Susan Mayne, professora adjunta da Escola de Saúde Pública de Yale, a presença do parasita nas lavouras decorre de falhas básicas de infraestrutura no campo.
“Pode ser devido à falta de instalações sanitárias adequadas ou de locais apropriados para a lavagem das mãos. De alguma forma, a água de irrigação está sendo contaminada por esgoto ou outra fonte”, explica.
O setor produtivo tem buscado soluções próprias para mitigar danos catastróficos à imagem e às finanças do agronegócio. Após uma crise de contaminação por espinafre, em 2006, agricultores da Costa Oeste criaram o Acordo de Marketing de Hortaliças Folhosas, uma coalizão privada de produtores com regras mais rígidas do que as exigidas pelo governo federal. Contudo, a autorregulamentação privada esbarra na necessidade de uma estrutura estatal sólida de vigilância, justamente a ponta do sistema que vem sendo desmantelada.
Durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, os cortes orçamentários afetaram os órgãos de controle, resultando na redução de 20% do quadro de funcionários da FDA. Já o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) perdeu 25% de seus colaboradores. Com isso, o grupo de cientistas encarregado exclusivamente de rastrear parasitas transmitidos por alimentos foi reduzido de 11 para apenas três profissionais.
“Tínhamos um comitê consultivo nacional que assessorava a FDA e o USDA sobre como prevenir a contaminação microbiana em alimentos. Esse comitê foi dissolvido. Reuniões bimestrais com colegas mexicanos para melhorar a segurança alimentar foram canceladas, e toda a equipe foi dispensada”, ressalta Mayne.
As reduções atingiram também o FoodNet, programa conjunto de vigilância mantido pela FDA, pelo CDC e pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Antes projetado para monitorar oito patógenos críticos, o sistema teve seu escopo reduzido para apenas dois e deixou de acompanhar o próprio Cyclospora.
Outro ponto crítico refere-se à aplicação da exigência legal aprovada pelo Congresso em 2011, que obrigava as empresas a registrarem detalhadamente o trajeto de alimentos considerados vulneráveis, do campo às prateleiras. A medida, que deveria entrar em vigor este ano, foi oficialmente adiada para 2028. Sem essa ferramenta, especialistas alertam que a identificação da origem de novos surtos continuará comprometida nos próximos anos.
Na última semana, o secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., negou o enfraquecimento institucional e classificou os questionamentos como “inválidos”.
“Não tivemos cortes em nosso programa de vigilância”, declarou Kennedy Jr. “Fizemos cortes no programa FoodNet, mas foram cortes em programas de vigilância redundantes”, rebateu.
Diante do cenário de incerteza na fiscalização e da ocorrência de surtos ativos, Mayne orienta os consumidores a evitarem saladas embaladas. Segundo ela, uma pequena contaminação pode se espalhar amplamente durante o processamento desses alimentos.
Com informações da CBS News.
