Cem anos de Jorge Milton, meu pai

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Jorge Milton Moreira Nunes (1917-1989)

Se estivesse vivo, meu pai, Jorge Milton, faria cem anos neste 23 de abril, dia de São Jorge.

Foi jornalista, publicitário, professor e tradutor. Falava inglês e francês e escrevia poemas. Amante de Chopin e Sílvio Caldas, arriscou o piano na juventude e arranhava o violão, mas não sabia fazer pestana. A sogra, Maria Pilar, achava que ele tinha uma “bela voz”. Já o sogro, meu avô Ângelo Raymundo, dizia secretamente que Jorge era o homem mais inteligente que ele conhecera na vida; o interessante é que meu pai dizia a mesma coisa dele, também secretamente.

Jorge Milton me ensinou a ler, jogar xadrez e dirigir, entre outras coisas. Tinha uma vasta biblioteca em casa, com os livros transbordando das estantes e se amontoando pelos cômodos, mas nunca me obrigou a ler nenhum. Apenas me sugeria um ou outro, caso reparasse em mim uma curiosidade qualquer. Amava Eça e Baudelaire. João da Ega era quase uma figura de carne e osso para nós, que ríamos com passagens de “Os Maias”, ao citá-las de memória. Arriscou uma nova tradução para “Fleurs du Mal”, que ficou para sempre na sua gaveta. Não dispensava um bom Jack London, um Mark Twain, um Maigret, ou mesmo um capa-e-espada de Michel Zevaco, mas não era muito fã de literaturas pretensiosas. Dizia não ter paciência também para as contemporâneas, mas divertia-se com ficção científica.

Não era muito fã de rock’n’roll, mas um dia colocou compenetrado na vitrola de casa um disco que ele disse ser do “maior guitarrista do mundo”, Jimi Hendrix, que eu, aos sete ou oito anos de idade, não fazia a menor ideia quem era. E também ficou acordado até tarde uma vez, assistindo pela TV ao show do Iron Maiden no Rock in Rio, que depois, impressionado, qualificou para mim como “extremamente energético”.

Com meu pai vim pela primeira vez aos Estados Unidos, em 1973, quando ele tinha exatamente a mesma idade que eu tenho hoje. Com ele, ia ao prédio da Agência Nacional, na Glória, apanhar material para ser enviado para meu tio Álvaro Raymundo, em Nova York, que editava um jornal em português por lá em 1969. Graças a ele, estudei e me formei na Universidade Gama Filho, uma das melhores do Rio de Janeiro na época, onde por pouco não fui seu aluno. Mas, dos seus três filhos sou o mais modestamente educado, academicamente falando. Minhas duas irmãs são pós-graduadas com mestrados e doutorados em suas áreas.

Nunca ergueu um dedo para me castigar, mas uma vez, quando eu era adolescente, cheguei em casa tarde da noite bem depois do prometido e ele me deixou um bilhete sobre a formação do caráter de um homem. Guardo o bilhete até hoje, como talvez a maior de todas as lições da minha educação.

Jorge Milton morreu praticamente afogado por um brutal enfisema pulmonar, aos 72 anos, causado pelo vício inveterado do cigarro. Como éramos rivais equilibrados no xadrez, eu sempre me perguntava quem ganharia a última partida que jogaríamos. Uma semana antes dele morrer, me chamou para jogar, e acabamos empatando uma das melhores partidas que jogamos na vida. E ficou assim.

Feliz centenário de nascimento, pai. Saudades imensas.