Com restrições, restaurantes brasileiros nos EUA sofrem para manter portas abertas

Brasileiros relatam dificuldades para atravessar a pandemia sem encerrar as atividades

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Cuidados com a higiene são fundamentais principalmente em bufês, onde a comida fica mais exposta (Reprodução/AcheiUSAtv)

DA REDAÇÃO – Quando ele se mudou para os Estados Unidos, há cinco anos, e abriu o bar e restaurante Haluche Restaurant, em Deerfield Beach, Flórida, o curitibano Gabriel Greff Haluche Fava, 30, ainda não havia passado por uma grande crise econômica nos Estados Unidos. Mesmo se tivesse, nada o teria preparado para a dura realidade que tem enfrentado desde março.

Entre a paralisação total das atividades e o funcionamento parcial, foram quase três meses. Para manter as portas abertas, Gabriel se viu obrigado a fazer mudanças estruturais e de conceito do estabelecimento. Se antes o maior movimento ocorria após as 5 da tarde, para clientes que iam comer no restaurante e beber no bar, a proibição do consumo dentro do restaurante provocou uma redução de 80% nas vendas. “Durante 1 mês ficamos abertos apenas com takeout. Este foi o pior momento que tivemos, pois percebi que manter o restaurante aberto sem que as pessoas pudessem consumir no local, não compensava. Preferi fechar totalmente por um mês e meio até que pudéssemos voltar a receber clientes aqui dentro”, explica ele.

Assim como Gabriel, restaurantes por todo o país estão entre os negócios que mais tem sofrido. Quem não conseguiu reduzir custos, se adaptar às novas regras e ter capital de giro suficiente para atravessar a crise, não teve opção além de fechar as portas definitivamente.

Um relatório divulgado pelo site Yelp mostra números alarmantes. De acordo com ele, 60% dos restaurantes que fecharam durante a pandemia não voltarão a reabrir. Até 10 de julho, dos mais de 26 mil restaurantes que fecharam, quase 16 mil decidiram que não conseguirão voltar às atividades. Restaurantes representam o maior número de negócios que fecharam permanentemente, ultrapassando as lojas de varejo, de acordo com o relatório.

Entre os restaurantes que fecharam nos primeiros meses da pandemia, e que agora reabriram, grande parte, se não a maioria, não consegue ir além de pagar as contas. A incerteza, no entanto, acompanha os proprietários a cada dia. Não se sabe ao certo quando as atividades poderão voltar ao normal. Especialmente em estados como a Flórida, que estão lidando com um número ainda elevado de infectados pelo novo coronavírus..

O proprietário do restaurante Boteco, em Miami, está entre aqueles que se consideram de sorte por reabrir as portas depois de três meses fechado. Giuseppe Concepcion foi obrigado a dispensar os 28 funcionários durante o período em que ficou de portas fechadas. Ao reabrir, todos foram recontratados.

As mudanças no restaurante para adequar as novas regras de distanciamento social reduziram a clientela pela metade. Espaços antes preparados para receber até 250 pessoas sentadas, foram readaptados para 100 pessoas. “Nosso espaço externo, antes menos usado, agora é parte fundamental do restaurante”, explica.

“Estamos passando por um momento muito difícil. Tem dias que apenas conseguimos pagar as contas, em outros perdemos muito dinheiro. Porém, este é o preço que temos que pagar por ser o restaurante brasileiro mais antigo de Miami. Temos a obrigação de permanecer aberto”, afirma Guiseppe completando que uma das maiores perdas foram devido aos jogos de futebol, quando uma quantidade grande de brasileiros se reuniam para assistir aos jogos.

Restaurantes perderam mais receita e empregos do que qualquer outro setor de acordo com o U.S Census Bureau. Uma pesquisa feita em junho pela Associação Nacional de Restaurantes mostrou que o serviço de alimentação perdeu perto de US$120 bilhões em vendas durante os três primeiros meses da pandemia.

Ajuda do governo chega, pela metade

A ajuda do governo federal, em forma de financiamento especial a taxas reduzidas para pagar os funcionários, foi recebida como um divisor entre manter o negócio aberto ou fechar definitivamente. Sem ele, poucos teriam como manter os funcionários. Uma pesquisa feita pela SCORE mostrou que 55% dos pequenos negócios requisitaram o empréstimo para folha de pagamento e que destes, apenas 78% receberam o financiamento.

“Entre aluguel e funcionários, não teríamos como quitar as contas e manter o restaurante fechado sem este financiamento”, diz Gabriel que afirma ter também requisitado sem sucesso o estímulo de 10 mil dólares do governo federal destinado aos pequenos negócios.

A ajuda do governo não foi suficiente para evitar que Gabriel demitisse a cozinheira. Com a queda brusca nas vendas, a noiva e o cunhado passaram a cuidar da cozinha e a ajudar no bar. Duas garçonetes permanecem, apesar da redução da carga horária.

A realidade de grande parte dos brasileiros proprietários de restaurante e bares não difere. Por todo o país são frequentes as notícias de negócios fechando.

Refletindo sobre a possibilidade de ter que fechar o restaurante, caso a crise sanitária e as consequentes restrições se mantenham, Gabriel busca as palavras e diz com hesitação que seria uma decepção. “Não sei se é a palavra certa, talvez não. Toda mudança traz um aprendizado para uma próxima jornada. Temos que esperar para saber o próximo passo porque não podemos controlar o que está acontecendo”, diz.

Veja abaixo a reportagem de Suzanna Alcântara para a AcheiUSAtv.