CONEXÃO UF | Aprendendo um novo idioma: Desafios e dicas para todos os que desejam expandir seus horizontes

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Nicole Calderón no Rio de Janeiro
Nicole Calderón no Rio de Janeiro

A palavra é poderosa. Isto foi algo que meus pais sempre me diziam quando eu era criança. A primeira vez que eu ouvi esta frase pensei que significava algo fantástico; que eu poderia fazer coisas levitarem ou eventos acontecerem somente com as minhas palavras. Mas logo aprendi que não era algo tão simples. O que minha mãe quis dizer foi que a palavra controla nossas relações e até mesmo nossas vidas. Uma mera palavra pode simbolizar a diferença entre amigo e namorado, entre desconhecido e conhecido, e entre guerra e paz. Cada dia eu compreendia um pouco mais a frase dita pelos meus pais. Há dois anos, durante minha primeira viagem para o Rio de Janeiro, eu descobri um outro significado para essa frase. A palavra é poderosa não só devido a sua influência semântica, mas também é poderosa quando é falada no idioma do receptor. Quer dizer, eu posso falar um “Hello” para o brasileiro, mas não vai ter o mesmo efeito que um “Oi”. Quando pensei em escrever sobre este tema, pensei que seria algo simples para explicar, mas é bastante complexo. 

Nelson Mandela disse uma vez, “If you talk to a man in a language he understands, that goes to his head. If you talk to him in his language, that goes to his heart.” Em outras palavras, se você falar com um homem numa língua que ele compreende, alcançará sua mente. Se falar com ele em sua própria língua, alcançará seu coração. Na minha primeira viagem para o Brasil, eu comecei a compreender isto. Eu cresci na Colômbia, onde o idioma nacional é o espanhol. Quando me mudei para os Estados Unidos, em 2012, foi a primeira vez na minha vida que me senti incapaz de me comunicar com outras pessoas. Eu sou uma pessoa extremamente extrovertida, meu humor depende da quantidade de interação social que eu tenho num dia. Então, é fácil imaginar o que acontece comigo quando não consigo interagir com ninguém dia após dia. Este desespero me ensinou algo que mudou a minha vida para sempre. Eu finalmente descobri o que devia fazer para aprender o idioma. Nesta coluna eu quero compartilhar os passos que eu tomei para aprender o inglês, e logo o português, já que foram processos diferentes. 

No ano em que me mudei para os Estados Unidos, eu nunca me atrevi a conversar com ninguém em inglês. Eu ficava nervosa e com vergonha de falar alguma palavra errada. Mas um dia minha mãe me contou que a gente tinha que mudar de escola, por razões que eu agora desconheço. Eu passei 3 meses naquela primeira escola, mas me dei conta que eu sempre fugia de cada conversa; nem tentava entender o que as pessoas me diziam. Hoje, pensando naqueles meses, eu finalmente compreendo meu erro. Era meu próprio orgulho que não me deixava aprender–aquele medo de errar porque alguém faria pouco de mim e eu ficaria envergonhada. Com tudo isso aprendi que este medo era irracional e nocivo. Portanto, prometi a mim mesma que não teria medo de pagar mico ou fazer papel de ridícula. Depois desta decisão, cada vez que eu não entendia alguma coisa, eu perguntava “what?”, e quando a pessoa repetia (mas eu ainda não entendia), eu falava um outro “what?” e seguia assim até eu entender. Quando eu não sabia o que significava uma palavra, eu perguntava naquele exato momento, e não esperava até chegar em casa para buscar uma definição. Antes me preocupava por não incomodar as outras pessoas, mas logo também descobri que a maioria do tempo, as pessoas gostam de ajudar e não se importam com “erros”. Esta questão é relevante tanto para estudantes estrangeiros quanto para as suas famílias. Minha mãe sempre se queixa de não saber falar inglês, dizendo cada ano que vai fazer aulas de inglês. Porém, cada vez que a gente sai para almoçar, ela fala “Nicole, você fala para a moça o que eu vou pedir, tá?” Assim como nós nos esforçamos para aprender o idioma, temos que ajudar os nossos parentes a conseguir a mesma motivação e a buscar formas independentes de se comunicar em inglês (sem precisar que os filhos sejam intérpretes).

Após vencer o maior obstáculo, a vergonha, os outros passos foram muito mais fáceis. Para mim, treinar meu ouvido foi imperativo na aprendizagem. Cada dia que eu passava tentando conversar, eu tinha que me esforçar muito e me concentrar ativamente no que a outra pessoa falava. Tanta concentração todos os dias era muito cansativo para mim–Às vezes eu chegava em casa com dor de cabeça. A minha solução para isto foi treinar meu ouvido sem me estressar, e de forma divertida. Comecei assistindo séries de TV em inglês com legendas em espanhol (achei mais fácil assistir séries que eu já tinha assistido, já que fazer conexões entre áudio e legenda seria mais fácil assim). Depois, assisti a mesma série sem legendas, e ao mesmo tempo tentava imitar a pronúncia de frases e palavras. Se o personagem falava algo muito rápido e eu não conseguia pronunciá-lo, eu pausava, voltava até aquela cena, e repetia até conseguir. Eu fiz o mesmo com vários filmes até memorizar roteiros completos. Pouco depois comecei a fazer algo semelhante com a música. Eu olhava a letra de uma música e, antes de cantar, também olhava a tradução daquela letra. Gostava de estudar essas traduções, já que achava legal cantar algo que eu entendia. O último exercício que me ajudou bastante, especialmente a melhorar meu vocabulário, foi ler. De fato, as minhas aulas de literatura na escola me ajudaram muito, já que eu não tinha outra opção que não fosse ler para tirar uma boa nota na aula. Porém, em casa eu fazia minha própria leitura. Comecei com leituras ligeiras, como coletâneas de contos, e aí passei a leituras mais pesadas. E segui praticando assim durante 3 anos, de 2012 (o ano que cheguei) a 2014. 

Quando me lembro daqueles anos, me dou conta do meu desespero para conseguir amigos e achar uma comunidade nos Estados Unidos. Eu tinha 15 anos quando comecei a aprender o idioma, e de acordo com a maioria das pesquisas, a melhor idade para aprender um novo idioma é entre 6 e 10 anos. Há pessoas que acham que após certa idade é impossível aprender um idioma. Porém, de acordo com um artigo do site Medium, cientistas da universidade MIT provaram que os adultos podem aprender e dominar um idioma quase tão bem quanto as crianças. 

Anos depois, quando estava no meu primeiro semestre na universidade, tomei uma aula de introdução à língua portuguesa para falantes de espanhol, originalmente como uma aula eletiva. Logo depois, aquela aula eletiva virou uma paixão, e por isso acabei declarando o Português como disciplina acadêmica, junto à Ciência Política. No verão do meu segundo ano eu tive a oportunidade de estudar a língua portuguesa no Rio de Janeiro. A minha experiência aprendendo português foi bastante diferente da minha experiência aprendendo inglês. Em primeiro lugar, o espanhol me ajudou bastante na aprendizagem do português, já que as duas línguas compartilham muitas das mesmas características. Graças a isto, treinar meu ouvido foi um processo um pouco mais fácil. Quando cheguei ao Rio, imediatamente me lembrei da Nicole de 5 anos atrás. Mas desta vez eu não estava sozinha. Cada manhã eu chegava à minha aula de gramática, depois tinha um descanso e voltava para outras aulas ou palestras. Durante as seis semanas no Rio, meus amigos e professores sempre estavam ao meu lado me apoiando. Acho que isto também me ajudou bastante, já que meus colegas estavam ali com o mesmo objetivo que eu. Naquele intercâmbio eu aprendi muito sobre a cultura brasileira, e me familiarizei ainda mais com o idioma. As minhas conversas com minha mãe brasileira, Mônica, me ensinaram muito sobre o jeito carioca e ser e também me ajudaram a treinar meu ouvido com aquele sotaque tão lindo.  

No verão seguinte, tive uma oportunidade de voltar para o Brasil, mas desta vez ir para Salvador, Bahia. O intercâmbio não tinha como base a aprendizagem do português, era um programa sobre a cultura afro-brasileira através da dança, e todas as aulas eram em inglês. Devido a isto, os meus companheiros eram estudantes de várias áreas diferentes- arquitetura, dança, antropologia, ciência política, teatro, entre outras. Eu fui uma de duas pessoas que falavam português nesse intercâmbio. Quer dizer, eu assumi o papel de tradutora/intérprete quase que automaticamente. Na minha vida eu sempre fui a intérprete dos meus pais quando precisava traduzir algo do inglês ao espanhol e vice-versa, mas nunca estive numa posição onde eu era responsável por interpretar para tantas pessoas. Às vezes eu me frustrava, e outras vezes eu mesma me voluntariava a interpretar. Foi muito esquisito ver meus colegas de programa na mesma posição que eu estive faz 6 anos – sem entender, sem poder se comunicar, frustrando-se com tudo aquilo. Acho que foi isso o que me deu paciência de interpretar sem parar, dia após dia, pois em 2012 (quando eu mal falava inglês) eu gostaria muito de ter tido um intérprete comigo. Um outro desafio foi interpretar para palestrantes durante os passeios a museus e outros lugares importantes. Muitas vezes eu não reconhecia termos específicos de uma área, termos musicais ou científicos. Com sorte, eu consegui empregar várias técnicas de interpretação que aprendi na minha aula de tradução e interpretação um ano antes, como tocar o braço das pessoas para controlar o ritmo da fala a ser interpretada simultaneamente. Aquele ambiente, onde minha mente estava obrigada a encontrar significados ou diferentes formas de dizer alguma coisa, foi o que mais me ajudou a aprender português. Penso que meu nível de português avançou muito desde então, o que eu acho bastante irônico já que aquele intercâmbio não tinha este objetivo. 

Hoje em dia, eu ainda estudo inglês, português e espanhol. Eu acredito que uma pessoa nunca termina de aprender um idioma. Por isso, preciso praticar de forma constante, inclusive a minha própria língua materna: o espanhol. Um idioma é como um músculo – para ele crescer a pessoa precisa treinar diariamente e fortalecê-lo. No futuro, eu gostaria de morar no Brasil por um tempo, já que esta é a melhor maneira de me obrigar a praticar o meu português após me formar da faculdade. Para quem quer aprender inglês (ou qualquer outro idioma), saiba que sua idade não vai impedir sua aprendizagem, e ninguém vai fazer pouco caso de você por tentar. Acredite em você mesmo porque se eu consegui aprender, você também pode conseguir. 

Texto produzido por Nicole Calderón (University of Florida) –, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação.