Conexão UF | Espécies exóticas invasoras na Flórida e no Brasil

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Invasão de iguanas no Sul da Flórida preocupa moradores (Foto: SunSentinel)
Invasão de iguanas no Sul da Flórida preocupa moradores (Foto: SunSentinel)

Uma espécie invasora é um organismo que causa danos ecológicos ou econômicos em uma área onde não é nativo. É importante estabelecer que podem ser animais ou plantas, já que as plantas não recebem a mesma consideração. Desde o começo da mobilização dos seres humanos, as espécies invasoras têm causado estragos ao meio ambiente. Alguns cientistas argumentam que os seres humanos são uma espécie invasora. É uma ideia que me obrigou a parar e refletir. Apesar disso, existe o argumento que espécies invasoras precisam ser levadas para outra área e nós, humanos, nos movemos por conta própria. 

O prejuízo que as espécies invasoras podem causar é enorme. Tipicamente, o que torna estas espécies tão problemáticas é sua capacidade de dominar as espécies nativas em relação ao acesso de recursos naturais. Muitas vezes, essas espécies são maiores, mais fortes, ou mais rápidas do que as espécies nativas. É provável que a espécie invasora também não tenha um predador que possa controlar sua população no ecossistema. Em muitos casos, o invasor tem alguma característica que impede que os predadores nativos o consumam. Isso pode ser devido ao tamanho do invasor, à tendência de andar em grupo ou, até mesmo, devido ao veneno. Outra caraterística muito comum é a capacidade de se reproduzir rapidamente. Além de competir com espécies nativas, os invasores são conhecidos por comer uma variedade delas. É assim que as espécies invasoras podem destruir um ecossistema. Em muitos lugares do mundo, os invasores comem as espécies ameaçadas de extinção, o que não ajuda a sua situação. As espécies invasoras também podem causar muito dano às pessoas. Na realidade, o dano aos seres humanos é muitas vezes a razão pela qual agências ambientais começam a se preocupar com o problema. Economicamente, estratégias de mitigação podem custar milhões de dólares. Isso é devido ao processo de mitigar as espécies invasoras. Ou seja, é preciso implementar estratégias como a remoção da espécie frequentemente para ser útil. Espécies invasoras também causam bastante danos à indústria agrícola. Além disso, existe o perigo físico para as pessoas porque as espécies invasoras podem atacar e até matar. Elas podem se estabelecer em qualquer área do mundo, mas existe a maior chance de causar prejuízo nas áreas perto da região equatorial. Ou seja, áreas como Flórida, o Caribe, e claro, o Brasil. 

Quais são as espécies invasoras mais problemáticas na Flórida? 

O clima da Flórida não é apenas para as pessoas idosas. Espécies invasoras gostam muito do clima floridense porque é quente e chove bastante. Isso permite que muitas espécies nativas sejam alvos dos invasores. Existem essas espécies por todo o estado, mas a maioria delas estão localizadas no sul da Flórida. Faz sentido porque o clima do sul é mais quente ainda, e contém o parque nacional dos Everglades. Você pode ver várias espécies esquisitas no sul da Flórida como o camaleão, o teiú argentino (uma espécie de lagarto grande), e inclusive a capivara. Porém, as espécies que causam o maior prejuízo ao ecossistema e economia da Flórida incluem: a píton birmanesa, o javali, o peixe-leão, a iguana, o pinheiro australiano e o aguapé. 

A píton birmanesa mata por constrição. É uma das maiores cobras do mundo e pode medir até 8 metros de comprimento e pesar mais de 90 quilos. Esta cobra compete com outros animais como a pantera, o lince e o jacaré, e também chega a comê-los. Populações de guaxinins, gambás e linces caíram mais de 90% em algumas partes do Everglades. O ecossistema é bastante complexo, mas também pode ser frágil. Cada espécie tem seu propósito no sistema e quando uma delas é retirada, o sistema todo pode sofrer. Existem vários grupos nesta área (como os Swamp Apes) que se concentram na sua remoção. Outros animais que criam o mesmo problema são o peixe-leão e a iguana. O peixe-leão se reproduz rapidamente. Cada ano uma fêmea produz 2 milhões de ovos. O peixe é venenoso, então, animais maiores como o tubarão não se arriscam a comê-los. Existem torneios de captura para encorajar sua remoção. Agências ambientais dizem que a melhor coisa que o público pode fazer é comer esses peixes se estiverem no menu. Eu posso confirmar que é delicioso.  

Como já mencionei, as espécies invasoras podem se espalhar rapidamente e qualquer pessoa que mora no sul da Flórida com certeza sabe da proliferação de iguanas. Algo em comum entre pítons e javalis é o alto nível de agressão. Isso, combinado com seu tamanho (podem medir até dois metros de comprimento e pesar 100 quilos) e os danos que causam à indústria agrícola, os tornam uma espécie invasora muito problemática. Em termos de plantas, as invasoras mais nocivas são o pinheiro australiano e o aguapé. 

Como foram parar lá?

Cada um tem o seu caminho. As espécies invasoras podem ser levadas para novas áreas de diferentes maneiras e por diferentes razões. Algo muito comum é a transferência de espécies sem querer. Por exemplo, mexilhões invasores foram trazidos da Ásia e do Norte da África para as Américas por navios mercantes. Em muitos casos, sementes de plantas e árvores invasoras também foram levadas por navios acidentalmente. Outra maneira é a introdução com um propósito específico. Por exemplo, O pinheiro australiano foi introduzido à Flórida para fornecer sombra e servir como um quebra-vento ao longo das áreas costeiras. Isso faz sentido porque a Flórida é um estado quente com furacões frequentes. Algo que também é bastante comum é o tráfico e comércio de espécies exóticas e domésticas. A comercialização de espécies como pássaros existe há milhares de anos. A gente vê espécies como macacos e orquídeas na televisão e a primeira coisa que falamos é “Nossa, que fofinho! Eu quero um!”. Um caso famoso é o dos animais exóticos de Pablo Escobar na Colômbia. Ele tinha um zoológico, mas os animais mais conhecidos eram os hipopótamos que saíram da propriedade e começaram a reproduzir-se. No início, eram quatro, mas agora, cientistas calculam que sejam quase quarenta. Esse caso, mesmo sendo extremo, é uma boa representação de como as espécies exóticas podem terminar sendo invasoras.  

Os biólogos creem que as cobras pítons se tornaram invasoras porque as pessoas as soltaram. Talvez algumas tenham escapado, como os hipopótamos. É muito comum ter espécies exóticas na Flórida, já que milhares de plantas e animais chegam aos portos do estado a cada ano. A Florida Fish and Wildlife Conservation Commission (FWC) tem dias de anistia ao longo do ano para os proprietários entregarem seus animais exóticos indesejados.  

E o Brasil, também tem espécies invasoras? 

Infelizmente, tem. Tem muitas. Talvez a pior espécie invasora seja o Aedes aegypti, um tipo de mosquito africano. Esse mosquito é responsável por transmitir o vírus da dengue, zika, febre amarela e pela morte de milhões de pessoas.

Espécies como o javali e o peixe-leão também podem ser encontradas no Brasil e na Flórida. O peixe-leão não é tão comum como nas costas da Flórida, mas cientistas pensam que pode chegar a ser. No Brasil, o mexilhão dourado é muito problemático. A espécie se prolifera mais rapidamente que o molusco nativo, e obstrui tubos e filtros de usinas hidrelétricas e sistemas de drenagem. A Flórida tem um molusco invasor (mexilhão-zebra) similar que está custando muito dinheiro ao estado para mitigar. 

O sagui-de-tufos-pretos é outra espécie invasora no Brasil. A migração dentro do país pode contribuir ao crescimento destas espécies. O sagui-de-tufos-pretos é nativo do Norte e Nordeste do país, mas por causa da fragmentação, caça furtiva e tráfico ilegal, agora é invasor nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Como acontece muitas vezes com macacos, as pessoas gostam deles quando são filhotes. Porém, os macacos adultos podem ser agressivos e é por isso que as pessoas soltam os saguis no meio ambiente. Esses macacos são uma ameaça grande para os grupos nativos já que são capazes de comê-los. Existe um grupo de macacos na Flórida que vive na região de Ocala, chamados rhesus macaques. Foram trazidos como atração turística do Silver Springs State Park na década de 1930. Macacos contêm doenças, como herpes B, que podem ser transmitidas aos seres humanos. De fato, a interação entre as pessoas e animais exóticos provavelmente causou o recente surto de COVID-19. 

Texto produzido por Roberto Ferrer (University of Florida) –, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação.