Conexão UF | Sentir-se em casa: Como alunos estrangeiros podem lidar com o choque cultural

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Monica e Nicole na última noite, arrumando as malas
Monica e Nicole na última noite, arrumando as malas

Eu me mudei para os Estados Unidos quando tinha 15 anos, e apesar de ninguém perceber o choque cultural que eu senti naquele exato momento, posso garantir que não tinha ideia de como a vida funcionava neste país. Em 2012, eu gostaria que alguém tivesse me introduzido a esta nova cultura, mas o único aspecto que me ajudou foi meu inexplicável desejo de achar meu lugar aqui. Porém, para achar este espaço foi necessário entender e aceitar muitas diferenças culturais. Nesta coluna eu quero usar a minha experiência como imigrante colombiana nos Estados Unidos para oferecer uma perspectiva que possa ser útil aos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos e, mais especificamente, em Gainesville.  

Em primeiro lugar, para iniciar nossa conversa sobre as diferenças culturais, acho pertinente analisar um dos conceitos mais importantes na cultura latino-americana – a cordialidade. Existem certas normas sociais de gentileza na “cordialidade” que desde crianças guiaram nossas relações externas e familiares. Sempre que eu falo sobre isto com meus amigos brasileiros, temos opiniões e experiências muito similares- acho que há mais semelhanças culturais entre a Colômbia e o Brasil do que pensamos. Eu tive a oportunidade de fazer um intercâmbio no Rio de Janeiro no verão de 2018 e na Bahia este ano. Graças a esta experiência me dei conta que este conceito da cordialidade é extremamente semelhante na Colômbia e no Brasil; razão pela qual usarei o Brasil como ponto de comparação.  

Jantar em familia
Jantar em familia

A cordialidade existe na maioria das culturas do mundo, e as regras que governam cada tipo de cordialidade podem ser bem diferentes umas das outras- especialmente entre os Estados Unidos e América Latina. A característica da cordialidade que os brasileiros percebem primeiro na conversa sobre as diferenças culturais inclui a saudação das pessoas em contextos públicos e privados. No Brasil, sempre que uma pessoa chega a qualquer lugar; a um evento, reunião, a sala de aula, o escritório, até um elevador, é muito importante cumprimentar a cada uma das pessoas com um “Bom dia” ou “Boa tarde”. Nos Estados Unidos, talvez um “Good morning” em contextos profissionais é requerido, mas além disso ninguém fica aguardando por ele. Portanto, não fique ofendido ou pense que não está sendo bem recebido, já que cumprimentar a todo mundo não é uma prática muito comum nos Estados Unidos.

 Os cumprimentos são uma parte muito importante na cultura brasileira, assim como o tema da cordialidade. Porém este é um pouco mais complicado de analisar. No Brasil, é indispensável receber qualquer tipo de convidado da maneira mais formal e respeitosa possível, mas ao mesmo tempo fazer o convidado sentir-se em casa. Por exemplo, antes do convidado chegar, a casa precisa ficar impecável; nada de poeira no chão, nenhum prato sujo, as mesas brilhantes, e absolutamente todos os quartos da casa- onde o convidado provavelmente não vai entrar- tem que ficar perfeito e com as camas arrumadas. Quando tudo estiver pronto, não pode faltar o mais importante, o cafezinho. Isto não quer dizer que as casas estadunidenses não se preparam para receber convidados, mas a apresentação da casa não é a prioridade. Claro que se fosse um evento familiar os anfitriões estadunidenses são talentosos para limpar e decorar suas casas, mas no Brasil se mantém este protocolo para toda e qualquer visita, seja um estranho, um irmão ou um amigo. 

A cordialidade existe nos Estados Unidos, mas é implementada de forma diferente no Brasil. Se você é um aluno estrangeiro, tente considerar estas diferenças, em vez de pensar que uma é mais correta que a outra. Por exemplo, no Brasil, quando uma pessoa é convidada e o anfitrião lhe oferece almoço ou jantar, nossas normas de cordialidade nos dizem que o respeitoso é aceitar a comida, especialmente se já está pronta. Se o anfitrião ainda não cozinhou, o certo é não incomodar e esclarecer que não é necessário, mas agradecer a oferta. Nos Estados Unidos esta interação é similar, mas tem uma pequena diferença que hoje em dia às vezes me surpreende. Aqui, se o anfitrião já cozinhou e oferece comida a seu convidado, o respeitoso neste caso não é aceitar a comida, mas é não incomodar o anfitrião já que o pensamento da pessoa é algo parecido a “talvez eles cozinharam para comer depois, por isso eu não deveria comer a sua comida”. Podemos conectar isto à cultura individualista dos Estados Unidos, onde ninguém tem problema compartilhando seus bens, mas todos tentam respeitar o individualismo dos outros. Quando eu me mudei a um apartamento perto da Universidade da Flórida, as minhas companheiras de quarto e eu sempre nos demos bem. Um belo dia, eu pensei em cozinhar para todas, era algo simples como arroz com frango e batatas. Esperei elas chegarem da universidade e perguntei, “Vocês estão com fome? Fiz arroz com frango e batatas!”. Para minha surpresa, já que eu esperava respostas de cordialidade colombiana (brasileira), elas responderam “não obrigada! vamos comer fora, mas tem um cheiro bom!”. Eu fiquei chocada, já que na Colômbia eu sempre aprendi que não é bom rejeitar a comida de ninguém, seja o que for. Para minhas companheiras de quarto, não comer significava não me incomodar, e essa foi sua forma cordial de lidar com a situação. Pequenas diferenças culturais como isto são coisas que eu gostaria de ter sabido então, em vez de pensar que minhas companheiras de quarto simplesmente não gostavam da minha comida. É muito mais fácil sentir-se parte de uma nova cultura quando a pessoa entende sobre diferentes elementos culturais, assim evitamos o sentimento de exclusão que às vezes enfrentamos quando não sabemos que existem estas diferenças.

Porém, existem ainda mais passos dentro da cordialidade após receber uma comida. No Brasil, a cordialidade do convidado significa comer o prato oferecido, e sempre aparentar gostar dele- mesmo que não seja gostoso. Não só isso, mas também quando terminar, levar o prato para a cozinha e tentar lavar o prato. Pode parecer um pouco teatral, mas um anfitrião brasileiro supõe que o convidado sempre vai (ou pelo menos deveria) levar os pratos e “tentar” lavá-los, mas aqui é quando os convidados escutam as palavras que esperavam na cena, “deixa aí, não se preocupe”. Na maioria dos casos, se o convidado é uma pessoa mais velha, a cena se interrompe mais cedo, e o anfitrião nem deixa eles se levantarem da mesa, pegando seu prato e levando-o para a cozinha. Pessoalmente tenho passado por muitas situações onde meu convidado estadunidense deixa seu prato na mesa, ou leva o prato para a cozinha e simplesmente o deixa na pia. Eu suspeito que no caso do estadunidense, deixar o prato na pia da cozinha não é uma questão de cordialidade principalmente porque nos Estados Unidos existem as máquinas de lavar louça (também existem na Colômbia e no Brasil, só que em nossos países nós não gostamos de desperdiçar água mais do necessário, então nunca foram invenções muito populares em casas da classe média), pelo que não qualifica como incomodar ao anfitrião. De acordo com a U.S. Energy Information Administration (Administração de Informação de Energia do EUA) a pesquisa Residential Energy Consumption Survey (RECS) mostrou que ao redor de 68% das casas estadunidenses tem lavadores de louça. Porém, de acordo a The Brazil Business, o número de lavadoras de louça no Brasil é tão baixo que nem é pesquisado pela IBGE. Além disso, muitas das famílias estrangeiras nos Estados Unidos, mesmo tendo lavador de louça, só utilizam ele para deixar os pratos limpos se secar devido a que o lavador de louça não é considerado indispensável nas casas brasileiras. De forma semelhante, quando eu sou a convidada numa casa estadunidense, o anfitrião quase nunca vai esperar que a gente comece a lavar os pratos. Muitas vezes eu me esqueço disso e pego o prato para lavá-lo, mas aqui o anfitrião estadunidense fala algo como “é só deixá-lo no lava-louça”. Penso que considerar este tipo de diferenças pode evitar momentos incômodos quando você visita a casa de alguém. 

Por fim, pode ser que o protocolo nas visitas não seja o primeiro pensamento do estrangeiro quando ele pensa sobre o choque cultural. Porém, graças a minha experiência como imigrante nos estados Unidos, eu descobri que este tema é um dos mais frequentes na vida do estudante de universidade. Chegar a um país novo e se acostumar à cultura já é muito difícil, mas como estudante a gente se expõe ao choque cultural com muita mais frequência. Além de ter aulas todos os dias com grandes grupos de estudantes, temos eventos estudantis, atividades extracurriculares, trabalhos de tempo parcial e muito mais. Adiciona a isso a aprendizagem da língua, todos os dias são uma luta com todas as mudanças. Por isso eu achei importante ajudar a alguém entender algumas dessas diferenças culturais para que o processo de assimilação seja um pouco mais fácil. 

Texto produzido por Nicole Calderón (University of Florida) –, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação.