O número de suicídios em centros de detenção de imigrantes nos Estados Unidos atingiu o maior patamar em mais de duas décadas. Investigações conduzidas e publicadas por veículos da imprensa americana revelam que, desde janeiro de 2025, ao menos 10 pessoas tiraram a própria vida nessas unidades. Segundo o levantamento, eles representam quase 20% das 51 mortes registradas sob custódia do Immigration and Customs Enforcement (ICE) desde janeiro de 2025.
Apenas em outubro foram registrados sete casos, o maior número já contabilizado em um único ano fiscal desde a criação da agência, em 2003. O crescimento das mortes ocorre paralelamente à expansão da população detida. Atualmente, cerca de 60 mil imigrantes estão sob custódia da agência, aumento estimado em 50% desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump. O ritmo das ocorrências supera o crescimento da população detida pelo ICE.
A secretária-assistente interina do Departamento de Segurança Interna (DHS), Lauren Bis, afirmou que as mortes por suicídio sob custódia do ICE continuam sendo “extremamente raras”. Segundo ela, os funcionários dos centros seguem protocolos destinados a proteger detidos com sinais de comportamento autodestrutivo. Bis também declarou que os imigrantes recebem atendimento médico abrangente, incluindo serviços de saúde mental.
No entanto, a análise da Associated Press constatou que centros de detenção de imigrantes descumpriram repetidamente padrões estabelecidos pela própria agência. Funcionários ignoraram sinais de sofrimento psicológico, atrasaram tratamentos de saúde mental e falharam no monitoramento de detidos já considerados em situação de risco. Também permitiram que imigrantes tivessem acesso a materiais que poderiam ser utilizados para automutilação. Em alguns casos, detidos emocionalmente abalados foram colocados em isolamento, situação que, segundo especialistas, pode intensificar sentimentos de humilhação e impotência.
Três das unidades onde ocorreram suicídios enfrentavam dificuldades para cumprir a exigência do ICE de realizar avaliações médicas e psicológicas em até 12 horas após a chegada do detido, segundo relatórios de inspeção e registros das prisões. Cinco das mortes ocorreram em centros administrados por tradicionais parceiros do ICE: as empresas privadas CoreCivic e GEO Group. Um sexto detido morreu em uma unidade operada por uma empresa contratada sem experiência, posteriormente substituída pelo ICE. Outros três morreram em prisões administradas por xerifes locais, e um caso foi registrado em uma penitenciária federal.
O porta-voz do GEO Group, Christopher Ferreira, declarou que a empresa treina seus funcionários em prevenção ao suicídio e busca “manter um ambiente seguro em conformidade com os padrões e exigências estabelecidos pelo governo federal”. Autoridades responsáveis pelas cadeias administradas por condados se recusaram a comentar.
O médico Homer Venters, ex-diretor médico do sistema prisional da cidade de Nova York e especialista em mortes sob custódia migratória, classificou o cenário como “aterrorizante”. Segundo ele, as falhas começam já nos primeiros dias de detenção, quando os imigrantes não são avaliados adequadamente ao ingressarem no sistema.
As mortes revelaram falhas de tratamento e supervisão em toda a rede de detenção do ICE, cuja população cresceu cerca de 50%, alcançando 60 mil pessoas durante o atual mandato de Trump. Segundo críticos do sistema, o modelo cria incentivos financeiros incompatíveis com padrões humanitários mínimos, uma vez que as companhias recebem recursos proporcionais ao número de detidos e ao tempo de permanência nas unidades. Já organizações civis, o sistema migratório americano passou a operar em escala incompatível com sua capacidade de supervisão, reproduzindo condições semelhantes às do encarceramento penal. As empresas negam irregularidades.
Perfil das vítimas
Nove dos dez imigrantes que tiraram a própria vida sob custódia do ICE eram homens latino-americanos; o outro caso envolvia um cidadão chinês. A média de idade das vítimas era de apenas 32 anos, e sete delas não possuíam antecedentes relacionados a crimes violentos, segundo dados obtidos pela Associated Press. Entre os mortos estão um trabalhador mexicano de 19 anos, um pintor colombiano de 27 e um funcionário de restaurante nicaraguense de 36 anos — perfis que evidenciam a predominância de jovens imigrantes detidos por infrações migratórias ou delitos considerados de menor gravidade.
Especialistas afirmam que os primeiros dias de detenção representam o período de maior vulnerabilidade emocional dentro do sistema migratório. O choque da prisão, o medo da deportação, a separação familiar, as dificuldades de comunicação e a incerteza sobre o futuro jurídico criam um ambiente de forte pressão psicológica, frequentemente agravado pelo isolamento e pela ausência de acompanhamento adequado de saúde mental.
Com informações de Associated Press, Reuters e Washington Post.
