Dos EUA ao Brasil de carro: a viagem dos sonhos de Moré e Rui (final)

Dupla brasileira prossegue sua aventura depois de cruzar o Canal do Panamá e continuar a viajem através da América do Sul

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O Equador guarda alguns mistérios que cativam o visitante. No Oceano Pacífico, próximo à sua costa fica a Ilha de Páscoa, um dos locais mais intrigantes do mundo. Lá, é possível encontrar os moai, enormes cabeças esculpidas em pedra. Algo que ninguém sabe nem mesmo que civilização realizou aquelas obras que atraem a curiosidade de leigos e de arqueólogos.

Este país fascinante foi a próxima etapa dos nossos aventureiros. A van chegou a Guayaquil, cidade do litoral equatoriano no Oceano Pacífico. Rui e Moré tiveram de ir até lá, de avião, pegar o carro e seguir viagem. Depois de embarcar na boa e velha companheira de viagem, a van, eles rumaram para Quito, a capital do Equador.

Moré admite que Quito é uma das cidades mais bonitas da América do Sul. Não é à toa que é uma das poucas cidades tombadas pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. “Suas dezenas de igrejas, casarões e construções seculars nos remete a séculos passados. Caminhar pelas ruas cheias de pedras é muito legal”, complementa.
Eles até mesmo assistiram ao jogo Brasil X Equador pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, no dia 17 de novembro. Não deram sorte: a Seleção Brasileira foi derrotada por 1 a 0, gol de Mendez. A comissão técnica jogou a culpa do mau futebol na altitude. E Moré concorda: “Realmente, para quem não está acostumado, a altitude incomoda bastante. A gente sente cansaço apenas caminhando”.

Além do mais, Quito é considerada o centro do mundo. E tem uma peculiaridade, conforme destaca Moré: “Há um local, na cidade, onde a pessoa pesa cinco quilos a menos, por causa deste fenômeno”. E trouxe com ele até mesmo um papelzinho para comprovar sua afirmação. É uma boa dica para quem está um pouco acima do peso…

Os dois aventureiros também se encantaram com a boa comida e com a hospitalidade do povo equatoriano. Partiram, mas deixaram para trás a vontade de voltar a visitar este país – um dos dois com os quais o Brasil não tem fronteiras na América do Sul (o outro é o Chile). Durante o trajeto entre Equador e Colômbia eles se encontraram com um grupo de gaúchos, amigos de Rui, que decidiram acompanhá-los num dos trechos da viagem.

Na Colômbia – Depois, seguiram para a Colômbia, onde conheceram um país muito bonito. Em Bogotá, por exemplo, eles visitaram uma catedral feita de sal – algo que Moré classifica como uma das coisas mais maravilhosas já vistas. A Colômbia é um país que vem saindo da crise após a posse do presidente Álvaro Uribe. De tipo linha dura, Uribe resolveu encarar de frente os guerrilheiros de esquerda e os paramilitares de direita para pôr um fim na violência no país. Além disto, também está jogando duro com os narcotraficantes para evitar que o país continuasse a ser estigmatizado como fornecedor de cocaína para o Primeiro Mundo.

E nossos viajantes testemunharam estas mudanças na Colômbia, um país de pessoas alegres, hospitaleiras e de mulheres bonitas. Eles mesmo ficaram hospedados na casa de um colombiano que conheceram durante a viagem, o qual estava seguindo para o México a fim de tentar a travessia para os Estados Unidos através da fronteira. Para demonstrar seu agradecimento a Rui e Moré, que o ajudaram quando encontraram-no na América Central, ele indicou sua casa como um local onde poderiam hospedar-se. Os dois adoraram ter sido bem recebidos, sobretudo por pessoas que conhecem muito bem a capital colombiana.

Susto no Chile – Os próximos países percorridos foram Peru e Chile. A entrada foi pelo Peru, onde há um deserto extenso. Eles desceram para o sul costeando o Oceano Pacífico durante quatro dias, percorrendo 3.300 quilômetros. “O visual da Cordilheira dos Andes é simplesmente lindíssimo”, garante Moré, mesmo com o contraste da pobreza em algumas regiões do país.

Ao cruzar a fronteira entre Peru e Chile, pela primeira vez durante a viagem tiveram o carro revistado. O motivo é que esta fronteira é tida como rota do tráfico internacional e também de mercadorias.

A fronteira surgiu exatamente quando Moré e Rui desciam a Cordilheira dos Andes, em Arica. Neste momento, os dois se separaram do grupo que haviam encontrado no Equador e passaram a acelerar um pouco mais, pois estavam há 75 dias na Estrada.

“Cheguei a dirigir cerca de 1.300 quilômetros em um só dia. Era puro deserto, guiei durante 18 horas”, contou Moré. Aliás, ele ficou mais com a incumbência de dirigir, enquanto Rui se incumbiu de filmar, fotografar e fazer as anotações.

A dupla entrou no deserto de Atacama, porque resolveu cortar caminho costeando a Bolívia. Foi aí que surgiu o maior problema enfrentado durante a viagem. “Para subir a Cordilheira, de 33 quilômetros, engatei a primeira marcha. Foram quatro horas de muita luta, o carro fervia”, lembrou Moré.

Aí, a coisa complicou. Um defeito no carro evitou que eles prosseguissem. A mangueira do motor se rompeu e ficaram sem óleo na transmissão, retidos em pleno deserto – um local onde quase não passa ninguém. O frio intenso provocou falta de ar, as narinas começaram a sangrar. Rui e Moré passaram um dia e meio presos naquele deserto inóspito. “Sentimos muito medo, chegamos a pensar que seria o fim, de repente, passou pela nossa cabeça que morreríamos lá, sem ninguém saber”, confessou Moré.

O carro quebrou às 5 horas da tarde de uma sexta-feira e eles foram socorridos por um caminhoneiro argentino às 3 horas das madrugada. Coincidentemente, ele entrou naquele deserto à procura de outro caminhoneiro que havia se perdido na região. Depois, os três conseguiram encontrar o companheiro do homem que os resgatou, o qual estava preso na cabine de caminhão que saiu da pista e ficou pendurada num penhasco. Os três salvaram o homem, que teve de se colocar junto ao paralamas do caminhão para se aquecer e se proteger dos ventos gelados. Só assim conseguiu sobreviver.

Desnecessário dizer que o homem chorava como uma criança. Moré tem apenas um arrependimento: “Infelizmente, não tenho o telefone do argentino que nos salvou. Gostaria de ligar para ele e agradecê-lo por nos ter salvado as vidas”.

Argentina e Brasil – Após este tremendo susto, Rui e Moré conseguiram consertar o carro e seguir viagem. Próxima parada: Argentina. Eles entraram no país vizinho e notaram algo diferente. Lá, foi o único lugar onde a camisa da Seleção Brasileira não fez muito sucesso. Compreensível, não?

A passagem pela Argentina foi rápida. E acabaram entrarando em território brasileiro através do Paraná. Chegaram finalmente à cidade de Francisco Beltrão, no Paraná, após 80 dias de viagem pela maior parte do continente americano. Conseguiram estabelecer um novo recorde, reconhecido pelo site www.rankbrasil.com.br. Ali, foi o ponto de chegada de Rui, que, embora gaúcho de nascimento, é paranaense de coração. Aliás, em termos de futebol, o homem não deu sorte em 2004. Depois de ter visto a derrota da Seleção Brasileira em Quito, amargou a queda do seu Grêmio para a Série B.

Já Moré ainda teve de dirigir um pouquinho mais até chegar a Ribeirão preto, sua cidade. Para relaxar após tanta aventura, só mesmo tomando um chopp gelado no Pinguim – um dos bares mais famosos do interior paulista por tirar um chopp delicioso que ganhou fama nacional. E a van? A van está exposta em Francisco Beltrão, numa revenda Dodge, como símbolo da aventura de dois sujeitos que se conheceram nos Estados Unidos e realizaram seus sonhos. By the way, ambos estão de volta aos EUA: Rui, em Orlando, e Moré, em Pompano Beach. Se eles resolverem reeditar esta aventura e chamar outros voluntários, você, leitor, se candidataria?

PISCA ALERTA:

Aventureiros: Darci Moré e Rui Machado

Tempo da Viagem: 80 dias (de 7 de setembro a 26 de novembro de 2004 – novo record brasileiro)

Trajeto: De Miami (EUA) a Curitiba (Brasil)

Quilometragem: 28 mil quilômetros rodados

Países visitados: 15 (14 fronteiras atravessadas)

Dinheiro gasto: 8.400 dólares