Este ano vai ser diferente – um conto de Natal

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Por Marcela Yoneda

Papai Noel checa o aplicativo de logística de suas entregas. Este ano está mais travado que o daquele partido empacado nas prévias para eleger um candidato a candidato. Não funciona, ou funciona todo errado. 

Assim fica difícil entregar os presentes corretamente nas residências. Pelo aplicativo, alguns seriam entregues na Páscoa! Papai Noel não está a fim de criar encrenca com o Coelhinho! Então senta-se na carruagem para esperar que o aplicativo volte a funcionar. Talvez as torres de transmissão de sinais estejam falhando no Brasil, ocupadas que estão em disseminar muitas fake news – o que o faz lembrar de todos os percalços que já lhe ocorreram neste país.

Era sua primeira vez como papai Noel. Havia sido eleito em votação com larga vantagem de votos durante a festa de aposentadoria do Papai Noel anterior, juntamente com São Pedro que andava bagunçando muito o clima da Terra e São Jorge e seu dragão que só soltava fumaça branquinha. Hora de descansar para os quatro. 

 Ficara muito honrado com a escolha e prometeu ser dedicado e paciente como cabe a qualquer velhinho que quer ser o bom velhinho. 

Seguiram-se então os conselhos e orientações do  Ministério de Papai Noel e Duendes. Para a visita ao Brasil, por exemplo, sugeriram que ele se enfeitasse quase como Carmem Miranda. 

— Ó Noel, lá é um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas com uma gente com princípios diferentes.  Você terá que adaptar-se para as entregas dos presentes. 

Temendo o calor exagerado, o bom velhinho abandonou a tradicional roupa de Papai Noel feita de tecido grosso e mangas compridas. Vestiu uma sunga vermelha com barrado branco nas pernas e na cintura, confeccionada pela Mamãe Noel. Sentiu-se meio esquisito mas lembrou-se dos conselhos e do código de conduta de Papai Noel que dizia claramente para ser discreto na entrega dos presentes e adequado às tradições dos países que visitasse. 

Na carruagem trocou as lanternas, que poderiam gerar muito calor, por abacaxis, mangas, jacas, folhas de coqueiro e samambaias. Bem tropical, pensou. 

 Na primeira entrega, a primeira dificuldade. Cadê a chaminé?  Mas logo lembrou-se das instruções para o Brasil e foi forçar as portas e janelas da forma mais discreta possível. Sempre tem algum distraído nas famílias e o bom velhinho – meio Tarzã, meio Papai Noel – conseguiu entrar em várias casas. 

Mas na casa de Honório, além de não ter que forçar nada, encontrou Honório  sentado em frente ao fogão a lenha, tomando uma branquinha. Vendo o estranho maltrapilho que adentrava, Honório  gritou para a mulher: corre, traz uma comida e uns panos para cobrir um pobre coitado que chegou da estrada! Temos pouco mas podemos dividir, viu moço?! 

 E Papai Noel saiu com uns panos cobrindo o corpo, uma cabra, dois cocos e água. O velhinho não teve muita chance de se explicar, mas conseguiu entregar os sacos de presentes que foram ignorados e colocados de lado – a atenção do casal era para a penúria dele. 

Cinco casas, quatro cabras, dois sacos de macaxeira e vários comentários sobre sua pele pálida depois, Papai Noel achou melhor vestir a roupa tradicional para não ser mal interpretado novamente. Suava em bicas e questionava os costumes: Esse pessoal não dorme? Diferente mesmo esse país! Decidido a não provocar mais estranhezas, passou uma meleca escura no rosto para ficar mais moreninho e não parecer doente como disseram. 

A próxima entrega era em casa muito grande, com chaminé.  Achou que desta vez o trabalho seria mais fácil e foi escorregando suavemente até a lareira. Mas, para variar, tinha gente acordada na sala. Cumprimentou o menino que deu uns passos para trás e gritou: 

 — Mãe, traz o saco de dinheiro que o homem chegou. 

Noel não entendeu o comentário da mulher sobre ser mais discreto na roupa, que assim todo mundo perceberia a qual partido ele pertencia, sobre petróleo e escândalos. 

Ao voltar para a carruagem, não encontrou as frutas que a enfeitavam.  Paciência é uma virtude a ser usada por Papai Noel – talvez os animais da redondeza tenham comido as frutas, concluiu.  Nem percebeu os flanelinhas, que as renas deduraram, mas somente após muitas outras visitas.  É. Não foi fácil aquela vez! 

Este ano considera-se melhor preparado. Ignorará os terraplanistas e o índice de vacinação; usará máscara,  e estará pronto para apanhar ao ser confundido com um flamenguista. Tudo em ordem. Tudo pela magia do Natal! 

Mas o aplicativo continua travado.  Papai Noel começa,  então, a forçar as portas das casas escolhidas aleatoriamente para não atrasar as entregas. 

 A primeira casa é a de um cara que o recebe dizendo: aqui é proibido ficar de máscara! 

Papai Noel não faz distinção de pessoas, né gente?!  Os presentes é que podem ser específicos.  Esse sujeito ganhou uma urna eletrônica de brinquedo!