Jovem brasileira quer o lugar de Nancy Pelosi no Congresso

Pré-candidata Agatha Bacelar mora em San Francisco, na Califórnia, e quer sacudir a estrutura política americana

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Agatha Bacelar desafia Nancy Pelosi em seu distrito em San Francisco (Foto: Arquivo pessoal)
Agatha Bacelar desafia Nancy Pelosi em seu distrito em San Francisco (Foto: Arquivo pessoal)

Pois é, o mundo dá voltas e às vezes nos reencontramos em situações inusitadas. Esta entrevista com Agatha Bacelar, de 27 anos, é um bom exemplo disso. Conheci a menina ainda quando bebê em São Paulo, pois trabalhei na mesma empresa que sua mãe. Agora, depois de anos de profissão, este velho jornalista está entrevistando-a como uma possível integrante do Congresso americano, cargo que ela pretende disputar nas primárias de 2020 pelo Partido Democrata. Agatha quer nada menos que desbancar a poderosa Nancy Pelosi, atual Speaker of the House e líder do partido na Câmara Federal.

Sonho? Pode ser. Mas o que seria da humanidade se as pessoas não acreditassem em seus sonhos e, desse modo, mudarem o mundo. Após ter trocado Miami, onde foi criada, depois de vir para a Flórida com a mãe com apenas um ano de idade, por San Francisco, onde mora com o pai e completou seus estudos, Agatha demonstra firmeza em seus propósitos e determinação para ser uma ativa participante na mudança deste sistema anacrônico e viciado no qual o poderio econômico é fator determinante.

Mesmo que seus eleitores não estejam no Sul da Flórida, ela acha importante espalhar sua mensagem, sobretudo a todos os brasileiros e demais imigrantes. Porque, embora seja filha de um americano, sua mãe é brasileira e ela lamenta a maneira como o governo Trump vem tratando os imigrantes. 

Diante disto, sugerimos que leia a entrevista com esta jovem aguerrida e se una à sua campanha eleitoral. Go Agatha!

AcheiUSA – Sei que você nasceu em São Paulo e foi criada em Miami. Como foi parar na Califórnia? Há quanto tempo vive aí?

Agatha Bacelar – Sou filha de mãe brasileira e pai americano que reside em San Francisco há mais de 30 anos. Nasci em São Paulo e depois fui criada em Miami porque minha mãe arranjou uma oportunidade de emprego lá. Visitei San Francisco pela primeira vez quando tinha sete anos de idade e visitava todos os anos para ver meu pai. Quando completei 18 anos fui estudar na Universidade de Stanford e permaneci na Califórnia.

AU – Há quanto tempo você é filiada ao Partido Democrata? Por que você quer disputar justamente com Nancy Pelosi, a toda poderosa Speaker of the House?

AB – Desde menina me alinhava com o Partido Democrata. Mas, com mais idade, me tornei mais progressista e insatisfeita com o status quo. É hora de uma mudança geracional. 

Parece assustador e impossível vencer contra Nancy Pelosi, mas há um caminho para a vitória. Muitas pessoas aqui são gratas pela liderança e trabalho dela através dos anos, mas uma grande maioria não acredita que ela representa a demografia atual. San Francisco tem uma das populações mais jovens dos EUA e 41% dos eleitores registrados são da geração do milênio. E muitos jovens que vivem aqui nunca votaram em eleições passadas. Espero inspirar este grupo a se envolver e votar pela primeira vez. Em contrapartida, Nancy Pelosi tem 79 anos e a maioria dos líderes do Congresso tem entre 72 e 85 anos. 

San Francisco é a capital mundial da inovação tecnológica. Precisamos ter um representante com conhecimentos sofisticados sobre tecnologia e que nos possa levar a um futuro que não venha a ser devastado por automação, inteligência artificial e impérios de mídia social.

AU – Você pertence à ala mais radical do Partido Democrata e se alinha com o Bernie Sanders, Ocasio Cortez, Kamala Harris? Você acredita que um candidato com perfil muito esquerdista pode derrotar Trump na eleição do próximo ano? 

AB – Os candidatos mencionados não são tão radicais —eles propõem ideias que existem com bastante sucesso no mundo inteiro. A ideia de que o estado deve cuidar da educação e da saúde de seu povo não é uma ideia radical. O sistema que temos agora em que o capitalismo ou próximo sistema de gerar dinheiro é a maior preocupação. A coisa mais importante que nosso planeta tem é a humanidade. Isso, sim, é uma ideia perigosa. 

É muito importante ter um número amplo de candidatos: temos mais de 20 candidatos que estão postulando a presidência. Temos um problema nesse país onde só 30% da população votam nas eleições. Desse modo, os poderes ficam na mão dos mais poderosos. Então, acho que todos candidatos à presidência estão falando sobre ideias e esperando que boa parte da população se anime. 

AU – Indo além, há chance de algum candidato democrata vencer a eleição presidencial no ano que vem?

AB – Tenho muito medo que Trump possa ganhar outra vez. Não é garantido que um democrata ganhe. A campanha do Trump tem um investimento altíssimo no Facebook, maior que outros candidatos combinados, e as redes sociais são impérios de modificação de comportamento.

Qualquer candidato que ganha a nominação do partido Democrata deveria ser apoiado. A principal prioridade tem que ser derrotar o presidente Trump. Quatro anos mais com Trump seria insustentável.

AU – Por que você decidiu concorrer pelo distrito de Nancy Pelosi, talvez o mais difícil de todos? E por que continuar na Califórnia em vez de voltar para a Flórida onde possivelmente teria um apoio maior?

AB – Morei muitos anos na Flórida, mas onde considero “home” é San Francisco. Quando me candidatei oficialmente, recebi alguns telefonemas incentivando-me a concorrer em outros distritos. 

Existem pesquisas mostrando que mesmo que um candidato tenha recursos financeiros aparentemente infinitoss não pode ganhar se não considerar o distrito “home”.

Estudei em Stanford na Califórnia, passei toda minha vida adulta na Área da Baía de San Francisco, meu pai mora em São Francisco há quase 30 anos, e minha irmã mais nova também vive aqui e passou agora para o ensino médio. Minhas raízes e minha rede de conhecidos e amigos estão aqui.

Nancy Pelosi é nossa representante há mais tempo do que estou viva. Nos últimos 30 anos, San Francisco e o mundo mudaram muito.

Não estou interessada em substituir uma representante em um sistema fundamentalmente falido. O sistema político que temos hoje é defeituoso pois os dois partidos não cooperam, a maioria das pessoas não vota, e a influência do dinheiro é a coisa mais importante. Tudo isto tem de ser mudado. Para lutar contra o mecanismo, precisamos desafiar a cabeça, derrubar o dirigente.

AU – Aqui na Flórida, por sinal, há uma presença bem mais forte da comunidade brasileira que poderia abraçar sua candidatura ao Congresso? Você chegou a avaliar isto?

AB Sim, 15% dos moradores de San Francisco são latinos, há muito mais brasileiros na Flórida do que na Califórnia. Estou concorrendo para representar San Francisco. Mas como estou desafiando a liderança do Partido Democrata, seria a primeira brasileira no Congresso Nacional, e essa candidatura é inerentemente nacional. Adoraria receber o apoio de todos os brasileiros que vivem nos Estados Unidos. Por exemplo, qualquer cidadão americano ou portador de green card pode doar para nossa campanha. Basta acessar o site agathaforcongress.com.