Na era pós-Trump, brasileiros nos EUA seguem com desinformação e acreditando em fake news

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Manifestantes protestam contra os apoiadores de Trump (Foto: Thomas Way/unsplash.com)
Manifestantes protestam contra os apoiadores de Trump (Foto: Thomas Way/unsplash.com)

DA REDAÇÃO – A corrida presidencial de 2020 nos EUA ficará marcada como uma das mais bizarras da história. Assim como 2016, as fake news tiveram papel dominante, especialmente entre os republicanos apoiadores do agora ex-presidente Donald Trump. A recusa em aceitar os resultados das urnas e a consequente invasão do Capitólio pelos seguidores das teorias da conspiração como a QAnon, deixou o mundo perplexo, colocando pela primeira vez em xeque a força da democracia norte-americana. 

Passada a posse no dia 20 de janeiro, as baterias das fake news agora se voltam exclusivamente para atacar e desmerecer o governo de Joe Biden e Kamala Harris. 

Grupos no Facebook, como Brasileiros em Connecticut e Brasileiros na Flórida, dedicam grande parte dos assuntos discutidos a publicação de notícias distorcidas sobre políticas do governo federal e estaduais liderados por democratas.

Muitos seguem acreditando que as eleições foram fraudadas e que Trump ainda voltará à Casa Branca para o seu segundo mandato assim que tudo “ficar provado”. Pelo menos é isso que pensa a brasileira Georgia Wool, residente de South Windsor, CT. Apoiadora ferrenha de Trump, Georgia se diz revoltada com o resultado das eleições afirmando, sem apresentar provas, que os democratas são ligados a toda espécie de fraude no país. “Não se prova uma fraude em um mês. Isso de votar pelo correio não existe. Ficou provado que pessoas ilegais e mortas votaram e quando tudo isso ficar provado Trump voltará a ser presidente”, diz ela. 

Para Georgia Wool Donald Trump ainda retornará à Casa Branca após as supostas fraudes nas eleições ficarem comprovadas (Foto: Arquivo pessoal)
Para Georgia Wool Donald Trump ainda retornará à Casa Branca após as supostas fraudes nas eleições ficarem comprovadas (Foto: Arquivo pessoal)

Ela também acredita que o julgamento de impeachment que Trump sofre no Senado não se justifica. “Não existe isso de fazer um impeachment porque ele não é mais o presidente e não fez nada de errado”, afirma Georgia. Os senadores, no entanto, consideraram constitucional que um ex-presidente possa sofrer impeachment em votação realizada no dia 10 de fevereiro.

Georgia não assiste às grandes redes de notícias nos EUA, que segundo ela são todas mentirosas. Para se informar, ela lança mão de páginas no Facebook e canais no Youtube, além de seguir de perto alguns legisladores republicanos. Segundo reportagem da CNN, somente em 2020 mais de 24 candidatos, sendo 22 republicanos, 1 do Partido Independente de Delaware e 1 candidato independente (sem partido) da Flórida eram seguidores ou simpatizantes de teorias da conspiração como a QAnon. A mais notória, que se elegeu deputada federal pela Geórgia, Marjorie Taylor Greene ganhou os noticiários devido à incitação de violência contra membros do partido democrata, como Nancy Pelosi. Greene foi retirada nesta semana do Comitê de Orçamento e do Comitê de Educação e Trabalho pelo seu apoio à invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro, quando cinco pessoas morreram.

Jeferson Zeferino acredita que as eleições foram fraudadas e que os democratas aprenderam com líderes comunistas da América Latina (Foto: Arquivo pessoal)
Jeferson Zeferino acredita que as eleições foram fraudadas e que os democratas aprenderam com líderes comunistas da América Latina (Foto: Arquivo pessoal)

Assim como Georgia, Jeferson Zeferino, 49, residente de Woburn, Massachusetts, acredita que os democratas foram os reais invasores do Capitólio. Tudo, diz ele, teria sido armado para colocar a culpa nos republicanos. “Isso foi armado pelo Black Lives Matter e pelo Antifa”, afirma, admitindo que não tem nenhuma evidência para provar suas afirmações. As eleições, para ele, foram fraudadas porque os democratas aprenderam com os políticos “comunistas” da América Latina. Assim como Georgia, ele também não acompanha os noticiários na televisão. “Eu vejo muito no Facebook”.

Jeferson, no entanto, não acredita na volta de Trump apesar de manter a afirmação que a fraude existiu, ele destoa de outros apoiadores ao dizer que o ex-presidente errou ao não intervir para evitar a invasão do Capitólio. “O erro dele foi ter deixado isso (a invasão) acontecer. Ele teria que ter ido lá pessoalmente e mandado prender os invasores. O resultado das eleições tem que ser respeitado”, diz.

Ataques a política imigratória

Biden prometeu reverter dezenas de políticas da era Trump, entre elas a que mais interessa a grande parte dos brasileiros que residem nos EUA. Imigração. O democrata promete mudanças quanto a deportações de não criminosos, aumento da cota de refugiados e expansão do Dream Act. Mas entre os apoiadores de Trump, nem mesmo isso tem agradado. Em uma postagem no grupo Brasileiros em Connecticut, a notícia afirmando que Biden irá aumentar a cota de refugiados para 125 mil causou revolta entre alguns brasileiros. 

Leonardo da Silva, residente de Newtown, CT, escreveu que “ele (Biden) vai abrir as portas para vários terroristas”. Priscilla Ferreira, de Orlando, FL, pensa que Biden “só quer destruir a América”. Muitos o acusam de ser comunista.

Debandada

As teorias propagadas pelo QAnon, ou por quem está por trás do perfil Q, ajudaram a arregimentar uma legião de extremistas apoiadores de Trump. 

Antes da posse de Biden. 

Agora que o presidente foi empossado e Trump se retirou para Mar-a-Lago, na Flórida, muitos se sentiram abandonados e decepcionados. A invasão do Capitólio provocou um efeito ainda mais inesperado. Milhares de eleitores republicanos simplesmente abandonaram o partido, mudando a filiação para independente ou deixando sem filiação. Uma fração pequena indo até para o partido Democrata.

Segundo reportagem da NPR, em estados como Colorado 4.600 pessoas deixaram o partido republicano nas semanas seguintes aos eventos do dia 6 de janeiro. Na Carolina do Norte foram 6.000, 10.000 na Pensilvânia e 5.000 no Arizona. O fenômeno foi observado em todo o país.