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Pedro Paulo: O Famoso Anônimo dos Bares da Flórida

Vanusa Ramos*

Ja é até lugar-comum falar que todo imigrante carrega um história de vida, no Brasil, bem diferente da que vive aqui. Quantos não mantêm nas suas gavetas diplomas e equipamentos profissionais, prontos para saltarem para a vida real e serem usados enquanto seus donos limpam casa, carregam tijolos, ou exercem outras tantas atividades? Quantos não se gabam de serem formados no Brasil, e por isso, algumas vezes, se esquivam do trabalho pesado sob a argumentação pedante de que não precisam depender da força bruta?

Outros até, mesmo sem background expressivo, posam de personalidade e evitam qualquer possibilidade de admitir seu passado. Ou recriam o passado que querem e o assumem publicamente. Assim é a vida de muitos imigrantes nos Estados Unidos. Alguns deles, porém – e uma minoria- têm muito mais do que um bela história para contar. Têm uma verdadeiramente rica história de vida e que ninguém conhece. Assim é o nosso artista da comunidade da quinzena, Pedro Paulo Carvalho, 60 anos (a idade foi revelada a contragosto. “A gente tem a idade da mulher que acaricia”, disse, tentando se esquivar da resposta que só deu já no fim da entrevista).

Quem o vê sentado – agora cantando no Café Mineiro-, com sua guitarra, cantando e tocando pelos bares da Flórida, desconhece que Pedrão – assim o chamam os amigos- é um famoso anônimo. Ele já gravou dez discos no tempo da Jovem Guarda, viu a Bossa Nova nascer, teve suas músicas tocadas nas rádios do Brasil, e creiam, conta no currículo com parcerias com Raul Seixas, Paulo Coelho, e outros.

Tragicomédia

A história musical de Pedro Paulo começou com uma tragicomédia. “Eu lembro do meu avô, coitado, sofrendo de câncer, mas nunca reclamava de dores. E eu, com 12 anos, ganhei do meu tio um violão e comecei a aprender. E eu só sabia uma música, que era um bolero, Boneca Cobiçada. Um dia meu avô me chamou e disse: ô, meu filho, será que não dava para você não tocar mais essa música?”, lembra Pedrão, rindo. “Ele não se queixava das dores mas se queixava da minha interpretação”, conta.

O avô morreu algum tempo depois mas o talento do músico carioca sobreviveu. Alguns anos depois, seria com uma gaita de 3cm, e não com um violão, que Pedrão daria os primeiros passos do que seria uma carreira vitoriosa. No programa de calouros de Ary Barroso ganhou a nota máxima com uma música do próprio Ary, Morena Boca de Ouro. Nessa época, fim dos anos 50, ele já pensava em se profissionalizar. “Depois desse dia todos me reconheciam. Eu era office boy e todo mundo me apontava na rua. Eu tive meus 15 minutos de glória”, relembra.

Nunca leve sua garota ao boliche

Mas glória mesmo viria das noites no boliche, onde conheceu Luís Fernando, dono da Rádio Nacional. De um fato corriqueiro compôs Nunca Leve Sua Garota ao Boliche. “Eu tinha visto um rapaz que levou a namorada ao boliche e veio um outro rapaz e tomou a namorada do garoto. Então eu resolvi fazer essa música”, revela.

E naquela época todos os pensamentos dos garotos alienados eram garotas. “A gente só pensava em meninas; fazia música para as meninas; trabalhava para as meninas. Tinha uns caras que entravam na luta política, mas eu era alienado mesmo. Não queria saber de nada disso”, diz Pedrão.

Medalhões

Da fixação por meninas veio a música que foi levada às rádio por Luís Fernando. A música estourou e o Luís Fernando levou o músico até a gravadora CBS, que imediatamente contratou Pedrão. Veio o primeiro compacto. “Aquela era a época dos compactos simples, com uma música só”, relembra. NA CBS gravaria ainda 6 discos – os outros 4 foram em outra gravadores-, alguns com músicas de destaque. Também fez parte, na década de 60, da banda Renato e Seus Blue Caps, onde substituiu Michael Sullivan. Com a banda gravou um dos seus maiores sucesso, Playboy. “Eu nunca fui do time dos medalhões mas tive meus sucessos… meus discos ainda são vendidos na internet”, afirma orgulhoso Pedro, que compôs ainda músicas como Guarde Seu Amor Para Mim, A Última Vez, O dia Em Que Você me Disse Adeus, e outras.

Em 1971 o artista resolveu mudar de rumo. Tinha presenciado o surgimento da Bossa Nova, cantando nos mesmos clubes que Roberto Carlos – quando o rei estava começando- e havia tocado nas rádios do Brasil inteiro enquanto viu a banda do Chico Buarque passar, o Geraldo Vandré falar das flores e feito parceria com Raul Seixas. Era hora de se desprender do estilo e acompanhar as mudanças do cenário musical nacional. Gravou então Domingo Tem Maracanã, em 71, já partindo para a MPB.

Boicote

A guinada não deu certo. Ele foi boicotado pela gravadora, segundo afirma, e o disco “não aconteceu”. Tentaria em 81 voltar ao mercado musical com uma parceria com Paulo Coelho – Um Alguém Chamado Suzana-, mas não teve sucesso. Continuou fazendo shows, depois montou um grupo de samba show, Pedrão e a Explosão do Samba, com mulatas e passistas.

Com esse grupo fez shows em vários países, principalmente em hotéis. Em um desses shows, em Miami, no ano de 1992, viu sua vida sofrer outra mudança. “Eu vim fazer um show no Intercontinental, em Miami. Foi exatamente nos dias que o furacão Andrews passou por lá. E lá no hotel, vendo tudo devastado, eu resolvi fazer um show no lobby do hotel para levantar o ânimo dos hóspedes”, lembra.
A idéia deu certo e o gerente do hotel gostou tanto que quis manter o brasileiro por aqui. “Eu disse que só tinha um jeito de ficar: se ele desse green card para mim e para minha filha”, afirma.

O pedido foi atendido e durante os quatro anos seguintes Pedro tocava diariamente no hotel. Em 1996, já com a crise financeira se avizinhando, o cantor foi dispensado do hotel. Resolveu então ir à luta e buscar outros lugares para cantar. Desde então tem mostrado seu trabalho em bares e restaurantes e Miami a Delray Beach. A facilidade com idiomas lhe permitiu trabalhar com o público brasileiro, hispânico e americano. “Eu saio do forró e vou ao bolero, à MPB, sem traumas. Tenho o ouvido aberto, sem preconceito “, destaca o cantor, que mantém no seu repertório desde Dire Straits a Só Pra Contrariar, e executa os dois com a mesma dignidade. “Eu sei escolher o repertório que vai atingir o público”, completa ele, que passou a gosta de salsa e merengue desde que veio morar em Miami, e também aprendeu a passear pelo repertório popular hispânico e italiano.

Assim é Pedro Paulo, que destila bom humor nas páginas do AcheiUSA esporadicamente, mas mantém a seriedade quando empunha um violão. “Mas eu brinco com o público também. De vez em quando faço uns trocadilhos”, conta rindo e lembrando do dia em que, para um público americano, cantou Desafinado. “Se você disser que desafino amor, vai tomar no … que eu nunca fui cantor”, revela rindo, como moleque que sabe que fez uma travessura mas não pensa em pedir desculpas. Porque o que é feito em nome da descontração do público vale a pena. E tudo vale a pena quando a alma não é pequena, como diria Fernando Pessoa.

*Jornalista

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