Política anti-imigrante de Trump não afasta eleitores brasileiros nos EUA

Para o historiador e brasilianista James Green, apoio tem a ver com influência das igrejas evangélicas que são fortemente ligadas ao conservadorismo

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O brasileiro Nandinho Oliveira, que mantém o canal no Youtube “O Brazil de Fora do Brasil” declara seu apoio a Donald Trump
O brasileiro Nandinho Oliveira, que mantém o canal no YouTube, declara seu apoio a Donald Trump (Reprodução/Facebook)

DA REDAÇÃO – Ele se elegeu insultando os imigrantes e prometendo construir um muro na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Durante seus primeiros três anos de mandato, implantou políticas imigratórias que foram além do combate duro à imigração ilegal, estabelecendo normas que visavam reduzir até mesmo a entrada legal de imigrantes no país. Nada disso, porém, parece afastar uma parcela de brasileiros que veem em Donald Trump a melhor opção nas eleições de 3 de novembro deste ano.

As redes sociais são usadas como plataforma de campanha e debate político de conservadores brasileiros que vivem nos Estados Unidos. Grupos no Facebook como o Brazilians4Trump, administrado pelo capixaba Andrey Cunha, 47, residente de Boca Raton, na Flórida, leva muito mais do que apoio ao atual presidente. Assim como as táticas usadas nas eleições de 2016, a quantidade de notícias falsas ou distorcidas chama a atenção. Em um dos posts, uma página do Instagram afirma que o estado natal do ex-presidente Barack Obama é agora “todo Trump”. Entretanto, a mais recente pesquisa feita em agosto mostra que Joe Biden tem 56% das intenções de voto contra 29% de Trump.

Evangélico que se auto-intitula conservador, Cunha afirma que apoia Trump — mesmo ele não sendo elegível ao voto por não ser naturalizado cidadão norte-americano — entre outras razões porque Barack Obama “não fez nada para ajudar os imigrantes com exceção dos muçulmanos”, sem, no entanto, citar as fontes da afirmação. “Eu me decepcionei porque eu esperava que ele ajudasse os imigrantes como eu (a legalizar), coisa que ele poderia ter feito, mas não fez”, disse.

Para Márcio Ribeiro da Silva, 40, morador de Pompano Beach, Flórida e autor do livro “Then Again, I Failed – A trajetória de Denisio da Silva, um imigrante ilegal contra o fascismo”, o que explica em parte a visão de Cunha sobre a política imigratória de Obama e a esperança que Trump fará mais para os imigrantes, é o número recorde de deportados durante a administração do democrata.

“Há uma falácia para sustentar, até mesmo entre imigrantes indocumentados, geralmente evangélicos, o apoio a Trump: os números de deportações durante o governo de Obama. A falácia está no fato de que os números, que compreendem um período de 8 anos, não significou, de maneira nenhuma, política persecutória, como vemos na administração Trump. Obama foi eficaz, deportando criminosos e imigrantes com ordem final de remoção. Trump empenhou, desde os primeiros dias de governo, num esforço nunca visto para dificultar a vida dos imigrantes, incluindo até mesmo aqueles legais, com visto de trabalho”, diz Silva.

O peso do conservadorismo religioso e o medo comunista

Não raro, os debates que acontecem nas redes sociais mostram que, assim como no Brasil, a religião tem um peso grande quando se trata de escolher um candidato. Trump se apresenta como cristão, defende a Bíblia, a criminalização do aborto e ataca a esquerda na qual rotula de “abortista, socialista e extremista”. A retórica parece funcionar, principalmente entre os brasileiros religiosos e de menor escolaridade. A comunidade brasileira nos Estados Unidos está fortemente ligada às igrejas católicas e, principalmente, às evangélicas. “Os pastores brasileiros copiam um pouco os pastores americanos e, assim como no Brasil, estão cada vez mais à direita no espectro político, influenciando as pessoas que frequentam as igrejas”. Quem afirma é o historiador americano James Green, especialista em estudos latino-americanos e um dos mais importantes brasilianistas nos Estados Unidos. Green leciona História da América Latina na Brown University e falou por telefone ao AcheiUSA.

Green acredita que a nova tendência de muitos brasileiros que se identificam com as ideias da direita, tem origem no perfil do imigrante brasileiro dos últimos anos. Apesar de uma parcela ser composta por pessoas que atravessaram a fronteira ilegalmente, muitos chegaram nos Estados Unidos com visto de turista e não voltaram mais. Estas pessoas eram, principalmente, da classe média brasileira e que nos últimos anos foram expostos a uma campanha de demonização contra a esquerda. “Com a campanha da grande mídia, e de outros setores contra o PT e a esquerda, criou-se uma grande rejeição destas pessoas contra ideias mais progressistas no Brasil e uma maior identificação com Trump aqui nos EUA”, diz ele.

A análise de Green encontra suporte nas manifestações de brasileiros nas mídias sociais. Um dos vilões escolhidos por muitos para justificar o apoio a Trump não é novo: o socialismo/comunismo. Inimigo eleito pela direita, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, para justificar rejeição a candidatos de esquerda. O “medo comunista” foi no passado a razão porque o Brasil enfrentou mais de 20 anos de ditadura militar. Nos Estados Unidos serviu de justificativa para começar guerras como a do Vietnã e isolar comercialmente a ilha caribenha de Cuba. Pouco, no entanto, há de verdade nos milhares de compartilhamentos nas mídias sociais que ligam candidatos como Joe Biden, que está mais próximo à centro-esquerda, ao socialismo.

“42% dos americanos que votaram em Trump na última eleição, são pessoas que não tinham nenhum motivo para isso, são pessoas desinformadas e ignorantes e que foram influenciadas pelas mídias sociais onde você fica em uma bolha sem ter interação com outros setores”, afirma Green.

Jonh Green é historiador, brasilianista e professor na Broward University
James Green é historiador, brasilianista e professor na Brown University (Foto: Arquivo pessoal)

Green vê o saudosismo dos conservadores como outro fator de alinhamento com Trump. “O discurso de Trump é de volta a um passado dourado de um país onde os papéis de gênero eram tradicionais, onde as mulheres deveriam ficar dentro de casa. Tudo isso para negar e ignorar todas as mudanças que vieram das lutas populares. É uma nostalgia de um mundo que não existe mais”, afirma ele completando que a educação formal de muitos destes brasileiros foi deficitária, oferecendo pouca capacidade de pensamento crítico.

O fator latino

O voto latino para os republicanos não é nada novo. Historicamente, o partido Republicano obtém entre 25% e 30% dos votos dos latinos nas eleições presidenciais. Durante a campanha de George W. Bush em 2000, ele discursou em espanhol para uma audiência de latinos, colocando ênfase em valores como fé e educação. Mas o que explica o voto a Trump que tem uma coleção de insultos contra a comunidade latina? No livro “Disloyal: A Memoir”, do ex-advogado pessoal de Trump, Michael Cohen, ele relembra certa ocasião em que Trump teria dito que nunca teria os votos dos latinos dizendo que “assim como os negros, eles são muito estúpidos para votarem em Trump”.

Chama também atenção a quantidade de mulheres que apoiam Trump. Em 2016, 47% dos votos femininos foram para o republicano, a despeito do fato de que ele concorria contra uma mulher. Entre os imigrantes brasileiros a tendência entre as mulheres se repete. Assim como o seu colega do hemisfério sul, Trump também tem um histórico de insultos, agressões contra as mulheres e traição no casamento. Nada disso, porém, foi suficiente para afastar este eleitorado.

Green acredita que os brasileiros, em especial os que já se legalizaram, tendem a enfatizar exageradamente os valores americanos para se sentirem parte da nação que os acolheu. “Muito disso tem a ver com a necessidade destas pessoas de se sentirem bem na terra que os adotou, exagerando no patriotismo, no nacionalismo e no amor a bandeira americana. Tudo isso ajuda a se sentirem partes do país, auto-justificando a decisão de migrar para os EUA”, explica Green.