Quanto custa morrer nos EUA? Brasileiros sofrem com despreparo para pagar funerais de familiares

Muitos recorrem a vaquinhas virtuais para arcar com o alto custo dos serviços funerários e traslados de corpo para o Brasil

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Alto custo de enterro nos EUA deixam brasileiros à mercê de ajuda da comunidade. Pouco conhecido, seguro funerário é opção viável (Foto: Rhodi Lopez/Unsplash)
Alto custo de enterro nos EUA deixam brasileiros à mercê de ajuda da comunidade. Pouco conhecido, seguro funerário é opção viável (Foto: Rhodi Lopez/Unsplash)

Poucas pessoas gostam de pensar no assunto, mas a morte é sempre uma possibilidade na vida de todos. E quando ela acontece muitos brasileiros que residem nos EUA se encontram em uma difícil situação para arcar com os altos custos cobrados pelas casas funerárias e pelas empresas aéreas para enviar o corpo ou as cinzas para o Brasil.

Somente nas últimas semanas, várias campanhas foram criadas no site GoFundMe pedindo ajuda para pagar por despesas funerárias de brasileiros que morreram de forma inesperada.

Na Flórida, a brasileira Osdene Oliveira Costa, residente de Pompano Beach, ainda mantém ativa a campanha para custear a cremação do corpo da amiga Nadir Veríssimo, 52 anos, assassinada pelo lutador de jiu-jitsu Roberto Alves de Lira, 45, no dia 25 de novembro. Sem familiares nos EUA, restou para Osdene a iniciativa de pedir ajuda para a comunidade brasileira. A campanha no GoFundMe pede 10 mil dólares, porém até o momento foram arrecadados somente $3,373.00 dólares.

Em outro caso recente, familiares fazem campanha para cobrir as despesas do envio do corpo de Fernando Mateus Amaro de Morais, 20 anos, que cometeu suicídio no dia 12 de dezembro, em Massachusetts. A mãe, Elza Flores, trabalha como faxineira e diz não ter condições financeiras. O corpo deverá ser enviado para a cidade mineira de Mantena. Fernando morava nos EUA há cerca de quatro anos e sofria de depressão. 

Segundo o jornal Brazilian Times, a polícia encontrou o corpo de Fernando dentro do carro próximo à residência onde morava. Ainda segundo o jornal, Fernando teria piorado após o término do namoro.

Planejamento pode evitar gastos desnecessários

Os custos de enterrar, cremar ou enviar o corpo de um familiar para o Brasil não são baixos. Além de lidar com a dor da perda, muitas pessoas se veem debilitadas emocionalmente e despreparadas financeiramente para lidar com a burocracia e arcar com despesas que, não raramente, passam dos $15 mil dólares.

A brasileira Ana Paula Costa trabalha com seguros na Lincoln Heritage em New Jersey e explica que existe uma modalidade de seguro pouco conhecida dos brasileiros que moram nos EUA. Chamada de Despesas Finais, a modalidade cobre todas as despesas, desde a parte burocrática, custos da funerária até o envio do corpo ao Brasil. “O seguro é a diferença entre você ter que comparecer com 10, 15 mil dólares num prazo de poucos dias ou pagar um seguro de $40, $50 por mês e ter o dinheiro disponibilizado imediatamente. O seguro significa planejar com responsabilidade um evento que inevitavelmente irá acontecer com todos nós. Pode ser hoje ou daqui a 50 anos. A morte é a única certeza que temos”, diz Ana. 

Segundo ela, existem duas modalidades de seguro. O chamado Term e o Whole Life. “Eu vejo muitas pessoas sendo aconselhadas por agentes de seguro a fazer o Term, mas esta não é uma boa opção”, diz. Nesta modalidade de seguro, a pessoa paga um valor por um tempo determinado e, caso a pessoa segurada não faleça neste período, o seguro vence e uma nova apólice deve ser feita. No caso do Whole Life, não existe um prazo de validade do seguro e o valor pago acumula durante os anos. “Quando o valor atinge um patamar que já é suficiente para cobrir as despesas do enterro, a pessoa para de pagar e fica com este valor a sua disposição”, explica Ana.

Regulamentos

Os Estados Unidos possuem leis que regulamentam o setor funerário para evitar abusos. Chamada de Regras de Funeral de 1984, a lei requer que as casas funerárias forneçam à família uma lista de preços dos diversos serviços disponíveis antes que qualquer acerto seja feito, incluindo preços dos caixões. A lei também exige que a nota discrimine cada item contratado e o respectivo preço. Como cada estado tem leis próprias sobre embalsamento de corpo, as empresas são obrigadas a informar as pessoas se no estado onde o corpo será enterrado existe a obrigatoriedade ou não.

“Quando você tem um seguro, a seguradora faz uma pesquisa nas casas funerárias da cidade e negocia preços e condições, o que pode economizar centenas de dólares para a família”, diz Ana.

Custos podem variar

Como em qualquer outra indústria, os custos de enterro ou cremação nos EUA variam de acordo com a qualidade e as opções do serviço contratado. Na Flórida, os valores de enterro ficam entre $8 mil e $12,250. No caso de cremação os valores caem para $1,750 e $8,500. “Tudo vai depender das escolhas que a família faz. Se a intenção é enviar o corpo para o Brasil, somente o traslado pode chegar a mais de $13,500”, explica Ana.

Para determinar o valor a ser pago mensalmente de seguro, o profissional da seguradora faz uma avaliação que considera a idade do segurado, condições de saúde e a categoria de funeral que pretende ter. Para uma pessoa acima de 50 anos com boa saúde que pretende ser enterrado nos EUA, uma cobertura de $15 mil em caso de morte natural e $100 mil de acidente, o valor mensal gira em torno de $52. Se a cobertura for de $20 mil o valor fica em $73. “É importante ressaltar que a cobertura é mundial. Não importa se você está nos EUA ou de férias na Europa”, explica Ana, completando que a apólice pode incluir um valor acima dos custos do enterro para que a família tenha um dinheiro excedente para ser usado em outras despesas como aluguel e contas básicas da casa, por exemplo. 

“Quando a pessoa morre e a família aciona a seguradora, duas ações acontecem de imediato. O dinheiro é enviado para o beneficiário e um funcionário da seguradora é deslocado para cuidar de todo o processo burocrático e realizar todos os desejos da família. Principalmente para a comunidade brasileira, isso é muito importante porque nós não fazemos a menor ideia do trâmite necessário”, diz.