‘Quanto Tempo o Tempo Tem’ é sucesso de bilheteria nos cinemas brasileiros

Adriana Dutra, da Inffinito Foundation, produtora do Brazilian Film Festival of Miami, fala ao AcheiUSA sobre o sucesso de seu documentário, que entra na terceira semana em cartaz no Brasil com plateia lotada

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Adriana Dutra (a direita), com entrevistados do documentário “Quanto Tempo o Tempo Tem”
Adriana Dutra (a direita), com entrevistados do documentário “Quanto Tempo o Tempo Tem”

Por Caio Campos

Quem nunca teve a sensação de que o tempo dos dias atuais não basta para que façamos tudo o que gostaríamos? Foi um questionamento desses, corriqueiro a todos nós na rotina atribulada do dia a dia, que levou a cineasta brasileira Adriana Dutra a querer fazer um documentário sobre o tempo. Após bem-sucedidos lançamentos em festivais e mostras pelo mundo – um dos débuts foi na edição 2015 do Brazilian Film Festival, em Miami – “Quanto Tempo o Tempo Tem” chegou finalmente, na última semana de março, aos cinemas do Brasil. O documentário fala sobre o tempo – e a falta dele –  ouvindo filósofos, físicos, arquitetos, neurocientistas, transumanistas e até uma monja budista, para realizar uma profunda reflexão sobre a civilização e o futuro do tempo da existência humana.

Na entrevista a seguir, Adriana, que também é uma das manda-chuvas do BRAFF, comenta o sucesso da produção e detalha seus projetos vindouros.

AcheiUSA – Cada vez mais, ouvimos e nos queixamos de que temos menos tempo em nossas vidas. Você também sente isso? Foi essa a ideia que deu origem ao roteiro do documentário? 

Adriana DutraEu estou fazendo uma trilogia de filmes, de documentários, que começou com o primeiro documentário, “Fumando Espero”, que era sobre vicio em nicotina; esse segundo documentário que fiz, “Quanto Tempo o Tempo Tem”, que trata da questão do tempo; e o terceiro documentário, que se chama “Sociedade do Medo” e que é sobre essas corporações que manipulam nossas vidas e fazem com que a gente tenha medo para poder consumir os seus produtos. Esses 3 filmes, aliás, têm alguma coisa em comum: eu me empresto para eles e empresto a eles também as minhas agonias, que são agonias de todos nós nesse mundo contemporâneo. Então “Quanto Tempo o Tempo Tem” nasce exatamente da minha agonia com a falta de tempo na minha vida. Porque de um tempo para cá, quando resolvi começar a pesquisar sobre essa temática, eu não tinha tempo para nada, e comecei a observar também que todos à minha volta se queixavam dessa falta de tempo. E foi a partir dessa sensação que resolvi fazer uma pesquisa feroz sobre a temática do tempo e essa percepção de que o tempo havia se transformado, se acelerado, e a partir disso mergulhei nessa temática. Tudo surgiu pela minha sensação, pessoal, de falta de tempo.

AU – A sociedade americana é notória pelo dinamismo e pela exigência de estarmos fazendo mais de uma coisa ao mesmo, tendo muitas vezes mais de um emprego etc. Acha que a realidade brasileira é diferente ou estamos todos na mesma velocidade expressa dos tempos modernos? 

AD – Nós vivemos em uma era em que acreditamos que nosso tempo só é bem usado se estamos produzindo coisas. É o tempo no ritmo capitalista. Então esse tempo é medido pela nossa produção. E quando, há 20 anos, chegou a internet nas nossas vidas, e que ela corta espaços entre as pessoas, conecta a todos, diminui as distâncias, nós, na realidade, nos conectamos e ficamos simultâneos, fragmentados. Você pode estar aqui, falando comigo, ao mesmo tempo em que estou aqui na tela com outra pessoa conversando. Ou seja, a gente se faz presente em todos os lugares. Isso também modifica completamente a nossa percepção de tempo, porque hoje temos um acesso muito grande a informação, a redes sociais, e isso faz com que a gente também perca muito tempo nessas coisas, e o tempo da contemplação, da tranquilidade, da paz, ele fica cada vez mais escasso em nossas vidas, mudando toda a nossa percepção em relação ao tempo.

AU – Qual a importância de ter feito a estreia do documentário no Brazilian Film Festival em Miami no ano passado? Por que preferiu que a produção estreasse nos EUA antes de estrear no Brasil? 

AD – Na verdade, existe uma prática dentro do setor audiovisual e cinematográfico, de que o filme, antes de ser posto em circuito comercial, ele é lançado antes num festival de cinema. Assim, “Quanto Tempo o Tempo Tem” foi exibido antes no Brazilian Film Festival, em Miami, e foi exibido também em festivais em Montevidéu e Buenos Aires e foi também selecionado para a Mostra de Cinema de São Paulo e outras (Goiânia, Paris, Brasília). O filme rodou vários festivais no mundo e teve sua distribuição fechada justamente neles. Fechamos em Montevidéu a distribuição no Uruguai (onde o filme deve estrear agora em abril), fechei na mostra do Rio a distribuição para o Brasil todo, e em Miami o filme foi vendido para a Cisneros Media e vai rodar o mundo todo. Então faz parte passar por esse protocolo. O filme agora esta fazendo um super sucesso no Brasil, com criticas incríveis, e com um numero de espectadores surpreendente. Semana passada mesmo tentei comprar ingresso e não consegui. As Tudo isso acontece por ele ter sido lançado em festivais fortes, além de ter uma temática importante, que é o tempo.

AU – Você no momento filma algum novo documentário? 

AD – Nesse momento estou captando recursos para o terceiro documentário da trilogia -que eu chamo de “trilogia da catarse”. Então agora estou nessa etapa. Acabei de filmar uma série de TV, para o Canal Brasil, chamada “Opção Laje”, que são seis episódios de 28 minutos sobre as pessoas que, com o boom imobiliário no Rio de Janeiro foram obrigadas a se mudar de seus bairros para a comunidade, porque não tinham mais dinheiro para pagar seus alugueis. Essas pessoas se mudaram para a comunidade do Morro do Vidigal. Também estou fazendo uma outra serie de TV, também pelo Canal Brasil, chamada “Transgente”, sobre pessoas transgêneras, em seis episódios de 25 minutos cada. Estou fazendo também um telefilme para a TV Cultura chamado “Quero Botar Meu Bloco na Rua”. Enfim, estou fazendo muita coisa, ao mesmo tempo (risos). Além dos festivais de cinema. Chego aí nos EUA daqui a pouco. Completaremos 20 anos de Miami.

AU – Para quem deseja conhecer mais documentários produzidos no Brasil, quais títulos você indicaria como essenciais?

AD – Eu amo documentários. Sou apaixonada por documentários porque eles são muito interessantes. O gênero é uma investigação. Você tem um roteiro, tem as pessoas que você ira entrevistar, mas você vai descobrindo o documentário à medida que o vai realizando. O documentário é um documento vivo. Fala sobre a nossa vida, a nossa realidade. E eu gosto disso. Tem dois filmes que eu amo, como referência de documentários que marcaram muito a minha vida. Um é o “Edifício Master”, do Eduardo Coutinho, que é um grande presente sobre a vida de pessoas que vivem em Copacabana, em um prédio muito grande, com muitos apartamentos de quarto e sala no mesmo andar e a solidão dessas pessoas no meio de Copacabana. Coutinho é um gênio. E “Janela da Alma”, do Walter Carvalho, que é sobre a miopia, mas que na verdade fala sobre a vida. E Carvalho é o codiretor de “Quanto Tempo o Tempo Tem” e é um dos maiores fotógrafos do cinema brasileiro, uma pessoa com quem tive a honra de trabalhar. Enfim, esses dois títulos são boas referencias. Mas existem festivais de documentários pelo mundo inteiro, tem canais só de documentários na internet, um gênero muito valioso para o cinema mundial.