‘Simonal’ surpreende no Festival do Cinema Brasileiro em Miami

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Fabrício Boliveira, que viveu Wilson Simonal no filme 'Simonal' ficou com a Lente de Melhor Ator (Foto de Demetrius Borges/BRAFF)

Por Tonia Elizabeth*

“Simonal” foi o grande vencedor do Vigésimo Terceiro Festival de Cinema Brasileiro de Miami (BRAFF), no último sábado, dia 21 de setembro. Em cerimônia no Colony Theatre, em  Miami Beach, o filme recebeu quatro troféus Lente de Cristal: melhor filme pelo voto popular; melhor filme, de acordo com o júri official; direção de fotografia; e prêmio de melhor ator para Fabrício Boliveira, que protagonizou a biografia do cantor carioca, de muito sucesso nos anos 60 e 70.

O troféu de melhor roteiro foi para o eclético Miguel Falabella e seu filme “Veneza, que emocionou grande parte da plateia durante sua exibição, com uma história poética sobre os sonhos, contada de forma surpreendente. Lorena Comparato levou o prêmio de melhor atriz, por sua interpretação no filme “Boca de Ouro”, do consagrado produtor e diretor Daniel Filho. O filme  é uma releitura da obra de Nelson Rodrigues, com roteiro de Euclydes Marinho. O prêmio de Direção foi para a diretora de “Todas as Canções de Amor”, Joana Mariani.

O evento de premiação foi comandado pelo ator Daniel Del Sarto, que cantou uma paródia da música “Despacito”, dedicada à atriz Dira Paes, homenageada da noite pelo conjunto da obra. A paraense recebeu o “Life Achievement Award” de 2019 das mãos das três criadoras e produtoras do festival, Adriana e Cláudia Dutra e Viviane Spinelli. Para encerrar o evento, houve a exibição do filme “Divino Amor”, protagonizado por Dira Paes.

Fabrício Oliveira dedicou seu prêmio de melhor ator à menina Ághata Vitória Sales Félix, baleada e morta na noite anterior, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, segundo os moradores, por policiais. Já a produtora do festival e cineasta Adriana Dutra, dedicou essa edição ao seu pai, José Ruy Dutra, um dos fundadores da Banda de Ipanema, e que faleceu este ano, aos 85 anos. O documentário de Adriana, “Quero Botar Meu Bloco na Rua”, que fala da história dos blocos de rua, foi o último filme exibido no festival, no dia 22.

A diversidade cultural brasileira e os rótulos impostos a produtores, atores e diretores também foi um tema discutido no festival. Miguel Falabella levou dez anos para conseguir fazer o “Veneza” e acredita que, em parte, esses rótulos dificultaram um pouco a realização da obra: “As pessoas querem à toda força nos colocar numa prateleira e não permitem que saiamos. Eu fui praticamente uma macaca a vida inteira e tenho o maior orgulho de ser um artista popular, mas quero poder fazer outras coisas.” Segundo ele, muitas vezes produtores e distribuidores no Brasil acabam empurrando os artistas e diretores para uma certa área, criando quase que uma tirania na arte, determinando o que pode ou não ser feito.” Ele agradeceu ao produtor executivo Júlio Uchôa a ajuda na concretização do projeto. O ator Bruno Garcia, do divertido filme “De Pernas Pro Ar 3”, acrescentou que o cinema brasileiro precisa parar de se impor limites e se assumir como grande produtor mundial. Falabella teve de bater em muitas portas e chegou a escutar que Veneza não parecia um filme brasileiro.  “Mas o que é um filme brasileiro? É um bom filme ou não é. Somos brasileiros e nossas manifestações são múltiplas, várias”_  comenta Falabella.

Atores, produtores e diretores falaram das dificuldades pelas quais passa a cultura brasileira no momento, especialmente na área de produção cinematográfica.  O diretor, ator e produtor Daniel Filho, por exemplo, informou que seu filme “Boca de Ouro” é o primeiro de uma série sendo produzida só para festivais, já que, segundo ele, as casas de exibição no Brasil vêm dando mais importância aos filmes estrangeiros e grandes produções de fácil consumo do que aos filmes nacionais ou relacionados à nossa cultura.

Mas, segundo Adriana Dutra, o festival já é um evento oficial das cidades de Miami e Miami Beach e conta com apoio municipal e estadual na Flórida. “Nós somos apaixonadas por esse trabalho. Não importa o que aconteça no Brasil, que partido esteja no poder… Sempre foi muito difícil realizar este festival… A gente não liga! Enquanto vocês continuarem a fazer filmes tão maravilhosos, a gente vai continuar a fazer esse festival.”- garantiu a produtora. Assista abaixo ao trailer de “Simonal” e confira algumas fotos com momentos marcantes do festival.

Fotos: Demetrius Borges/BRAFF 2019

*Jornalista