Trump muda de tom e de opiniões em entrevista ao The New York Times

Presidente eleito volta atrás em declarações sobre Hillary, aquecimento global, Obama e outros temas polêmicos que usou na campanha; NYT, segundo ele, agora “é uma grande joia mundial”

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Depois de recusar entrevista pela manhã, Trump aceitou receber a reportagem do Times à tarde

Em longa entrevista concedida ao jornal The New York Times, nesta terça-feira (22), o presidente eleito Donald Trump esquivou-se das declarações mais polêmicas e votou atrás em pelo menos seis temas. O jornal endossou a candidatura de Hillary e sofreu ataques violentos de Trump durante a campanha.

A surpreendente ascensão de Trump à Casa Branca deveu-se em grande parte ao tom agressivo e intransigente de suas declarações e aos ataques impulsivos à mídia e à grande imprensa em geral, conquistando com esse tipo de atitude a simpatia dos eleitores mais conservadores, que gostam do estilo de quem “fala as coisas na cara”.

Mas pode ser difícil governar usando a mesma retórica. Depois de alguns adiamentos, Trump recebeu uma equipe do The New York Times, um dos seus maiores críticos, para uma entrevista. O tom que usou nas respostas foi muito mais ponderado que os rompantes da campanha.

Baseado nos relatos feitos através do Twitter pelos repórteres do Times, Maggie Haberman e Mike Grynbaum, Trump voltou atrás em várias declarações mais radicais de campanha e deixou de lado os insultos aos adversários. Redimiu-se até mesmo dos ataques feitos ao próprio Times.

Abaixo alguns exemplos da mudança drástica de posição do presidente eleito durante a entrevista de hoje.

Colégio Eleitoral

Durante a campanha de 2012, Trump disse que o Colégio Eleitoral era “um desastre para a democracia” e que “tornou-se uma piada para a nação.”

Mas, depois de vencer Hillary no Colégio Eleitoral e perder do voto popular, Trump afirmou que o Colégio “é na verdade genial” porque “traz todos os estados, inclusive os menores, para o jogo.”

Ao Times, retornou à declaração inicial. Disse ao jornal que gostaria mais de “ter ganhado no voto popular”, e que “nunca foi fã do Colégio Eleitoral”.

Presidente Obama

Em maio, o presidente Obama fez uma crítica velada ao então candidato Trump, dizendo que, “em política e na vida, ignorância não é uma virtude”. Trump pegou a deixa e disse que essa era a razão porque Obama era “o pior presidente da história americana!”

Mas agora ele disse ao Times que teve um ótimo encontro depois da eleição com Obama, quem não conhecia ainda, e que “gostou muito dele”.

Durante o segundo debate presidencial, Trump disse a Clinton que ela estaria “na cadeia” se ele fosse um agente da lei. Também disse que apontaria um promotor especial para processá-la. Nos comícios, proclamou que Clinton era “culpada como os infernos.”

Hoje, entretanto, disse ao Times que processar Clinton seria “muito, muito divisivo para o país.”

Pressionado para afirmar se teria definitivamente descartado o processo, respondeu que “não é uma coisa que me importa muito.”

“Não quero prejudicar os Clintons, de verdade não quero”, disse Trump. “Ela passou por muita coisa e sofreu bastante de várias formas.”

Clinton Foundation

No dia 22 de agosto, Trump divulgou uma nota sugerindo que a Clinton Foundation, uma organização sem fins lucrativos fundada pelo ex-presidente Bill Clinton em 1997, deveria ser fechada:

“Hillary Clinton é a defensora da corrupção e da fraude. Os Clintons levaram décadas forrando os próprios bolsos e cuidando dos doadores em vez do povo americano. Está claro que a Clinton Foundation é a iniciativa mais corrupta ha história política. O que eles fizeram durante o mandato de ‘Crooked’ Hillary como secretária de Estado foi errado, e é errado agora. Ela [Clinton Foundation] deve ser fechada imediatamente.”

Ele disse ao Times que há um argumento em favor da Clinton Foundation, de que “fez um bom trabalho”. Disse que pretende usar todo o poder que terá como presidente para que ela siga adiante.

Aquecimento Global

Trump considerou o aquecimento global como uma farsa custosa, e prometeu retirar os EUA do Acordo de Paris, assinado por mais de 200 países que se comprometeram a reduzir as emissões de carbono, num esforço para manter o aumento na temperatura do planeta abaixo de 2°C anuais.

No entanto, disse hoje ao Times que não descarta a possibilidade de que o aquecimento global possa ter causas humanas, o que é um esmagador consenso na comunidade científica.

“Acho que há algumas relações. Alguma, alguma coisa. Depende do quanto”, disse com relação à atividade humana e o aquecimento global.

Quando perguntado se revogaria os acordos climáticos assinados, Trump disse: “Estou estudando o caso com atenção. Tenho a mente aberta para o caso.”

The New York Times

Outra instituição que foi vítima dos ataques verbais de Trump foi o próprio The New York Times, que endossou Hillary Clinton na campanha. Foi taxado de “um jornal seriamente fracassado” que “tornou-se irrelevante”, com número de leitores “em queda”.

“O fracassado @nytimes está indo à loucura porque Crooked Hillary está indo mal. Eles estão dispostos a falar qualquer coisa, viraram piada!”, tuitou Trump.

Ao final da entrevista, entretanto, Trump chamou o Times de “uma grande joia nacional – uma joia mundial”.