Viviane Senna: educação é a chave do progresso

Fundadora e presidente do Instituto Ayrton Senna esteve em Miami e explica como a educação pode reduzir a flagrante desigualdade social existente no Brasil

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Viviane Senna
Viviane Senna (Foto: Ronira Fruhstuck/BACCF)

DA REDAÇÃO – “Certa vez, um jornalista perguntou ao Ayrton Senna qual o segredo de seu sucesso. Ele pensou um pouco e respondeu: ‘Oportunidade’.  Ele estava certo”, contou Viviane Senna, fundadora e presidente do Instituto Ayrton Senna, em palestra realizada em Miami durante um evento promovido pelo Lide/USA, braço americano do Lide – Grupo de Líderes Empresariais, organização que tem como objetivo unir empresários em prol do bem comum a todos associados. Viviane Senna foi homenageada pela Câmara de Comércio de Brasil-Flórida (BACCF) em baile de gala na noite de sábado (7). 

Viviane começou a apresentação com uma foto emblemática. Trata-se de uma rua que divide o bairro da Gávea da favela da Rocinha no Rio de Janeiro. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Gávea é de 0.96, com renda média mensal de R$ 2.995, 2% de analfabetos e média de vida de 78 anos. São números similares ao do Canadá, um dos países mais desenvolvidos do mundo. Já o IDH da Rocinha é de 0.75, com renda média mensal de R$ 200, 12% de analfabetos e média de vida de 67 anos. São números similares ao da Argélia, que não figura na lista dos países mais desenvolvidos do planeta.

Ou seja, apenas uma rua separa os dois Brasis. “NO Brasil, poucas famílias têm acesso ao básico. Somos exceção”, disse Viviane, referindo-se aos presentes na sala do Mandarim Hotel na Brickell Key. Para alterar este panorama perverso, só mesmo investindo em educação. “Estrutura de varejo em larga escala não resolve. Sistema de bolsas não resolve. Eles funcionam como paliativos, mas o investimento em educação significa 50% de melhoria”.

Produtividade x Escolaridade

A fim de comprovar sua tese, ela comparou Produtividade x Escolaridade de cinco países entre os anos de 1980 e 2010. Durante este período de 30 anos, a Coreia do Sul saiu de uma posição inferior à do Brasil para se transformar em um tigre asiático e um dos países mais desenvolvidos do muno. A Malásia, que fica no sudeste asiático (não está, portanto, em uma região superdesenvolvida) também ultrapassou o Brasil, assim como o Chile e a China, que estava bem abaixo, já alcançou nosso país, que ficou estagnado neste quesito durante 30 anos.

Os dados ratificam a razão pela qual a produtividade é baixa no Brasil. Simplesmente ela reflete a má qualidade da educação oferecida aos estudantes brasileiros. De cada 10 crianças que entram no ensino fundamental – cerca de 50 milhões, uma população equivalente à da Espanha -, apenas cinco (5) chegam ao final do ensino médio. Só aí, 50% dos estudantes que iniciaram sua vida escolar ficam pelo meio do caminho. Do total daqueles que concluem o ensino médio, apenas 30% saem sabendo português e 10% entendendo matemática. 

Em função desse despreparo, as empresas não conseguem mão de obra qualificada para preencher as vagas disponíveis no mercado de trabalho. Aí, só resta à essas pessoas com baixa qualificação ir para os mercados paralelo e informal ou, ainda, aumentar a criminalidade. Dentro desse quadro desolador da Pirâmide Educacional Brasileira, uma criança leva em média 12 anos para ir da 1ª à 8ª série.

Realidade que pode ser mudada

A boa notícia é que, a exemplo dos outros países, esse panorama pode mudar. E nem sempre depende do governo. O Instituto Ayrton Senna fez um mapeamento do Brasil e concluiu que em Sobral, cidade do Ceará, o índice de analfabetismo era de 98%. Diante dessa terrível realidade, os gestores do Instituto decidiram desenvolver um projeto piloto naquela cidade. Conversaram com o prefeito, que deu sinal verde para o trabalho, e os educadores começaram um processo de alfabetização acelerado de forma a colocar as crianças nas séries correspondentes às suas idades. 

Paralelamente a isto, iniciaram a alfabetização com as crianças da primeira série, gestão para acompanhar a evolução das crianças e ainda formação de professores. O Instituto Ayrton Senna forma entre 60 e 70 mil de professores a cada ano, muito mais do que as Faculdades de Pedagogia do país, além de alfabetizar 1.5 milhão de crianças por ano. Para ajudar no financiamento desses programas, a família doa 100% da verba arrecada pelo Instituto Ayrton Senna e também 100% dos royalties obtidos com Senninha, personagem criado por Rogério Martins e Ridaut Dias Jr., baseado no piloto Ayrton Senna.

O programa começou em 2000 e os números apresentados são eloquentes. Tomando por base os alunos da 5ª série de Sobral, em 15 anos, o desempenho dos alunos de Sobral em português alcançou 96% – 46% acima da média nacional é bem à frente de São Paulo (62%), Rio de Janeiro (60%) e Ceará (57%). E o desempenho dos alunos de Sobral em matemática alcançou 95% – 55% acima da média nacional é bem à frente de São Paulo (51%), Rio de Janeiro (49%) e Ceará (42%).

Os números são realmente impressionantes e o custo do programa é irrisório, pois custa apenas R$ 180 por ano. No caso de fornecimento de material, cobra-se um pouco mais. É um custo irrisório diante do ganho em termos de educação.

E por que não se adota esse programa a nível nacional? Viviane admitiu que a questão é política, porque muitas vezes os políticos não querem educar a população para continuar controlando seus eleitores. Ela afirmou ainda que já iniciou tratativas com o governador João Dória, que quer adotar esses programas em São Paulo a fim de recuperar o primeiro lugar em termos de Ensino (atualmente está em 4º lugar). “Ele realmente que colocar São Paulo no século 21”, revelou a educadora.

Ora, por que não aproveitar a experiência e o carisma de Viviane Senna no governo? Ela revelou ter sido convidada por Jair Bolsonaro para ocupar o Ministério da Educação. Não aceitou, mas indicou Mozart Neves que trabalha no Instituto Ayrton Senna. Ele relutou, mas foi convencido de que seria bom se tornar ministro da Educação. Entretanto, sua indicação vazou e a bancada evangélica pressionou Bolsonaro a desistir da nomeação. Temeroso de perder apoio político, o presidente recuou e nomeou Ricardo Velez Rodriguez, colombiano indicado por Olavo de Carvalho. Ele durou pouco no cargo e foi substituído por Abraham Weintraub, um ministro que comete erros crassos de português. Em vez de avançarmos para o seculo 21, recuamos ao século 19. Assim, dica difícil faqzer a revolução educacional no Brasil.