Carlos Wesley Esportes

Vini Jr. volta a ser alvo de racismo na Europa

Caso em Portugal reacende debate sobre impunidade no “melhor” futebol do mundo

Vini Jr. se emociona ao falar sobre os casos de racismo na Europa, em recente entrevista coletiva pela Seleção Brasileira (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)
Vini Jr. se emociona ao falar sobre os casos de racismo na Europa, em recente entrevista coletiva pela Seleção Brasileira (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Não há dúvidas: o futebol jogado na Europa é o melhor do mundo… e os números confirmam. As melhores ligas nacionais estão no Velho Continente; das últimas sete Copas da Fifa, as seleções europeias faturaram cinco delas; e já se vão 13 anos desde a última vitória de uma equipe sul-americana na final do Mundial de Clubes. Mas, quando o assunto é racismo, a Europa mantém aberta uma ferida que está longe de cicatrizar.

Esta semana, após mais um episódio contra uma vítima frequente, o mundo do futebol volta a debater, com indignação, o problema sofrido pelo jogador brasileiro Vini Jr. em uma partida da Champions League, no Estádio da Luz, em Portugal. Após anotar um golaço, o brasileiro do Real Madrid foi supostamente alvo de ofensas racistas por parte do adversário do Benfica, o argentino Gianlucca Prestianni, que alega ter proferido “apenas” um xingamento homofóbico.

Isso não é novidade para Vini Jr. Há quase oito anos no futebol europeu, o jogador já denunciou pelo menos 20 ocorrências de racismo em partidas ou mesmo por parte de torcedores nos estádios. Em 2023, provavelmente no caso mais emblemático da sua carreira, Vini – que nasceu e cresceu num bairro humilde de São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro, até ser descoberto pelo Flamengo – sofreu abusos racistas por parte da torcida do Valencia e a partida foi interrompida, antes de ganhar projeção mundial.

Como de costume, a Uefa (a entidade máxima do futebol europeu) anunciou que está investigando o caso desta semana e tomará as providências, já que o árbitro da partida acionou o protocolo antirracismo da Fifa ainda no decorrer da partida. E é justamente aí que está o problema, pois o desenrolar da história é previsível: multa em dinheiro, que certamente não afeta a estrutura milionária de qualquer um dos gigantes clubes europeus, e advertência ou suspensão branda a quem proferiu a injúria. Esqueça a possibilidade de interdição do estádio, mesmo com imagens claras de torcedores imitando “macacos” quando Vini Jr. foi comemorar o seu gol.

O clube português, por sua vez, saiu em defesa de seu atleta. “O Benfica reitera ainda que apoia e acredita plenamente na versão apresentada pelo jogador Gianluca Prestianni, cuja conduta ao serviço do Clube sempre foi pautada pelo respeito pelos adversários e pelas instituições. Lamentamos a campanha de difamação de que o jogador tem sido vítima”, diz o comunicado. O técnico do Benfica, José Mourinho, chegou a “culpar” o brasileiro por incitar estas situações com sua maneira de jogar e suas comemorações. Inacreditável.

Aos 25 anos, Vini Jr. agregou à sua condição de um dos principais talentos do futebol mundial o símbolo de uma luta maior do que o esporte. A partir de seus atos, o tema saiu das quatro linhas para alcançar autoridades no Brasil e na Espanha. E expôs ao mundo que a Europa, apesar das cifras bilionárias e do futebol de excelente qualidade, não tem capacidade de erradicar manifestações racistas de seus estádios (dentro e fora de campo). A reincidência confirma que o problema só será resolvido com firmeza, mudanças estruturais e punições exemplares.

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