A fé na comunidade (III) – Igreja Católica, a mais tradicional entre os brasileiros

Com forte atuação nas pastorais de imigrantes, os integrantes das Missões Católicas – religiosos e leigos – dão apoio espiritual e pragmático aos que chegam aos EUA

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A Igreja Católica é bastante representativa entre os imigrantes brasileiros, desenvolvendo uma série de atividades que objetivam oferecer uma ajuda para aqueles que estão num país estrangeiro e sentem-se carentes de solidariedade humana.

Nesta terceira reportagem sobre a série Fé na Comunidade, os padres Horecio Carlos Anklan e Tiziano Paolazzi (Congregação dos Escalabrianos) e a irmã Judite Clemens (Ordem Irmãs de Notre Dame) falaram ao AcheiUSA sobre como vem sendo feito o trabalho na Missão Católica Nossa Senhora Aparecida, pastoral de imigrantes de língua portuguesa vinculada à Arquidiocese de Miami, oficialmente estabelecida em 1996.

Em 1990 foram rezadas as primeiras missas em português, na cidade de Lighthouse Point. “Desde os anos 80, o fluxo migratório vem crescendo e os brasileiros começaram a se reunir. Este desejo de ter uma igreja voltada para os imigrantes de língua portuguesa chegou à Arquidiocese de Miami, que demonstrou interesse, até porque já tinha uma proposta para trabalhar com grupos étnicos”, revelou o padre Carlos.

A partir daí, em julho de 1996, começaram a ser celebradas missas em português na Igreja de Santa Elizabeth, em Pompano Beach. Atualmente, são cinco unidades que integram a Missão Católica Nossa Senhora Aparecida: Pompano Beach, Hollywood, Weston, Miami e Miami Beach. Na Diocese de Palm Beach, há mais três unidades: Delray Beach, West Palm Beach e Port St. Lucie.

Trabalho junto à comunidade – A pastoral dos brasileiros busca basicamente a formação total, onde se valoriza o leigo. O volume de trabalho é bem grande para os dois padres e a freira, além da secretária. “Por isso, os voluntários são muito importantes neste processo”, enfatiza a irmã Judite. “Celebrar as missas é a menor parte”, complementa o padre Carlos.

A participação dos leigos é fundamental para que a missão possa cumprir seus objetivos. Afinal, são eles quem fazem as pastorais atender às pessoas que as procuram. E são várias as pastorais ativas. Há desde a catequese, voltada para as crianças e os pré-adolescentes e também para adultos que querem ser crismados, até equipes de liturgia, de estudo bíblico, e encontro de casais. “No estudo da Bíblia, aprende-se o sentido da Bíblia como vivência para os dias de hoje”, destaca o padre Carlos.

Dentro deste princípio, há a pastoral social. “Oferecemos um serviço informal de procura e oferta de emprego para os interessados. Não somos agência de emprego, é bom que se diga. Atuamos como ponte entre as duas partes, aproximando os possíveis empregadores e empregados”, comenta a irmã Judite.

Além disso, a pastoral social promove palestras sobre assuntos de interesse como imigração, legislação, saúde com a presença de advogados, médicos, psicólogos e até mesmo de um policial brasileiro que trabalha no Departamento de Polícia de Broward.

Pastoral carcerária – Recentemente, foi criada a pastoral carcerária, que vem sendo coordenada pelo padre Tiziano. “O trabalho ainda está bem no início, mas é muito difícil de ser realizado porque depende de uma série de fatores. Os voluntários precisam cadastrar-se no sistema penitenciário local, e só podemos ir até o detento se ele nos chamar. Como não sabemos quem foi preso, torna-se muito difícil nossa atuação. Mesmo assim, já estamos fazendo progressos. Claro que precisamos das informações dos familiares no caso de algum parente ter sido preso. Sabemos que é uma situação delicada, mas podemos ajudar a mitigar o problema e mesmo ajudar na busca de soluções”, explica o padre Tiziano, italiano da cidade de Trento, que se criou em São Paulo.

Aliás, enfatizar o sentido de família é algo que a Missão Católica valoriza bastante. Os grupos de família dão uma boa acolhida aos recém-chegados – seja os que vieram do Brasil, de outros estados ou mesmo da própria comunidade. Esta atitude é um antídoto ao individualismo, porque todos são responsáveis e interdependentes e a solidariedade deve sempre estar presente no relacionamento humano.
Um bom exemplo disto é a acolhida que a Missão Católica Nossa Senhora Aparecida deu aos Alcoólicos Anônimos, que fazem suas reuniões todas as segundas-feiras às 7h30 da noite, no salão xadrez da Igreja de Pompano Beach. A entidade ajuda os imigrantes que acabam entregando-se ao vício da bebida, por causa da solidão e da desesperança.

Imigração – A Igreja Católica americana também está engajada na luta a favor dos direitos dos imigrantes. A Conferência dos Bispos dos EUA, que possui uma área para defesa de imigrantes e refugiados, emitiu um documento mostrando a importância dos imigrantes para a sociedade. Outro documento feito em conjunto com os bispos mexicanos abordou a questão da fronteira entre EUA e México.

Segundo a irmã Judite, a Igreja Católica possui ainda um grupo de advogados católicos, batizado de Clinic, que faz um lobby muito forte no Congresso americano em defesa dos imigrantes. “Evidentemente, não temos como mudar as leis, mas fornecemos dados aos congressistas para subsidiá-los. Nosso papel é lutar pela justiça social há séculos e continuamos a desempenhá-lo hoje”, diz a religiosa, americana do estado de Ohio.

Judite, que foi muito amiga da missionária Dorothy Stang – assassinada em Anapu (PA), no dia 12 de fevereiro deste ano -, pelo menos deu uma boa notícia: “De acordo com nossas fontes, a proposta Kennedy-McCain está andando no Congresso”. Para quem não sabe, o projeto de lei dos senadores Edward Kennedy e John McCain, apoiado por parlamentares ligados a eles, prevê a legalização de imigrantes ilegais nos EUA, desde que preencham uma série de requisitos pré-estabelecidos.

Sobre o caso das carteiras de motorista, a freira admite que não tem como influir. Por ter morado muito tempo no Brasil, onde viveu nas regiões norte e nordeste, e ter trabalhado em Boston junto às comunidades de língua portuguesa, ela ainda não conseguiu descobrir o “caminho das pedras” para somar forças com os grupos hispânicos da Flórida.

Outra ação tomada pela Igreja Católica é o envio para as dioceses de todos os EUA de um material divulgando a importância dos imigrantes para a sociedade americana. É uma tentativa de neutralizar o sentimento antiimigrante que se espalhou em parte do país.

Integração – O padre Carlos também enfatiza a necessidade do imigrante integrar-se à sociedade local. “Não procuramos alimentar o espírito saudosista. Não queremos guetos, por isto incentivamos as pessoas a abraçar os valores da sociedade local”, afirma o padre Carlos, brasileiro natural do Paraná. “Sempre, é claro, enfatizando o sentimento forte de esperança”, complementa.

Essa atitude é fundamental porque muitos brasileiros não sabem se vão estabelecer-se aqui ou retornar ao Brasil. No saldo entre os que chegam e os que retornam, no entanto, os religiosos acreditam estar a balança pendendo para o grupo daqueles que estão trocando o Brasil pelos EUA. É claro, que se está enfocando basicamente os freqüentadores da Missão Católica Nossa Senhora Aparecida nos condados de Miami-Dade e Broward.

LOCAIS E HORARIOS DAS MISSAS

Miami Dade
Igreja Santa Catarina
9200 SW 107th Avenue – Miami
Domingo: 19h30

Igreja São José
8670 Byron Avenue – Miami Beach
Quarta-feira e Sábado: 19h30

Broward
Missão Nossa Senhora Aparecida
1618 Polk Street – Hollywood
Domingo: 9h00 e Quinta-feira: 19h30

Archbishop McCarthy High School Chapel
5451 S. Flamingo Road – Weston
Domingo: 11h30

Igreja Nossa Senhora Aparecida
2025 NE 49th Street – Pompano Beach
Terça-feira: 19h30
Sábado: 19h00
Domingo: 9h00; 11h00 e 19h00

Palm Beach
Missão Rainha da Paz
9600 West Atlantic Avenue – Delray Beach
Quarta-feira: 19h30 e Domingo: 19h00

Igreja Maria Imaculada
500 Spencer Drive – West Palm Beach
Quinta-feira: 20h00 e S ábado: 19h30

Igreja St. Elizabeth Seaton
Sexta-feira: 20h00