A fronteira do México: um tour sem volta (parte I)

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Por Vanuza Ramos

Diante do endurecimento nas normas imigratórias dos Estados Unidos, cada vez tem se popularizado na comunidade brasileira uma alternativa de ingresso no país: a travessia pelo México. O que antes era visto como último recurso, hoje é disponibilizado à comunidade como uma forma desburocrática, rápida e segura de chegar na terra do Tio Sam. Muitas pessoas nem tentam conseguir visto pelas vias normais; já recorrem ao “Tour pelo México”. O nicho já ganhou contornos de mercado e põe à disposição dos clientes serviços em forma de pacote turístico, que dependendo do valor pago pode garantir a satisfação ou os problemas da pessoa durante a viagem.

Os problemas são mais comuns. Desde lidar com a corrupção dos policiais mexicanos -que tentam de todas as formas extorquir os imigrantes- e dos próprios coiotes, até lidar com a tensão diária do medo do desconhecido, da insegurança, e da incerteza de estar em mãos confiáveis- os coiotes usam drogas, armas pesadas, e não oferecem segurança psicológica-, quem opta por atravessar a fronteira do México acaba vivendo uma experiência que jamais esquecerá – ou desejará repetir. Muitas são as histórias colecionadas. Assaltos, ameaça de morte, estupro, prisão de imigração e superação física e emocional estão nos relatos verídicos que o AcheiUsa estará mostrando a partir de hoje, na série de reportagens “Fronteira do México- O tour sem volta”.

Entrar nos Estados Unidos pelas portas do fundo tem um preço: a auto-superação emocional e física. E na maioria das vezes os brasileiros não estão aptos a pagar esse preço, o que só descobrem durante a viagem. Para uma parte dessas pessoas a aventura começa no Brasil, num guichê de Consulado, quando têm seu visto negado.

A partir daí começa a busca por um ‘coiote’ – pessoa que organiza e realiza a travessias, que pode viabilizar o sonho americano.

Saber escolher o coiote, aliás, é o trunfo de uma viagem bem sucedida. O custo pode ser de 1.500 a 9.000 dólares, por pessoa. O contato pode ser feito com intermediários aqui e no Brasil, por telefone – mas com restrições, falando por códigos, quando o coiote se dispõe a negociar por telefone; geralmente preferem um intermediário que fale pessoalmente. Em geral em busca de preços mais acessíveis as pessoas caem em mãos erradas.

A armadilha do ‘coiote barato’
Foi assim com C.M., 37, que deixou esposa e filho no Brasil. Proprietário de terras no norte do país, ele foi vítima da “esperteza” de outro brasileiro que, de férias no Brasil, convenceu-o a tentar viver nos EUA. “Eu ganhava 4.500 reais por mês. Mas ele falou que aqui eu poderia ganhar até 250 mil dólares em um ano”, lembra.

Vendo que C.M. tinha boas condições financeiras o amigo afirmou-lhe que, com apenas 16.000 mil reais (ou 4.500 dólares na época) ele poderia entrar pelo México. E que aqui, ganhando cerca de 14 dólares por hora, ele poderia construir patrimônio de 250 mil dólares em um ano. Uma vez aguçado o apetite financeiro, o brasileiro resolveu vir para a terra do Tio Sam e pagou pelo ‘pacote’ 4.500 dólares.

“Dentro de dez dias eu resolvi vir”, conta ele, que antes nunca havia cogitado a idéia de sair do país e a partir de então até buscou outros coiotes – onde morava, Mato Grosso, há dezenas de ‘coiotes’ no mercado-, mas todos cobravam valores maiores; até 9.000 dólares.

O que ele não sabia, e veio descobrir depois, é que o amigo não era do “mercado”. Ele tentou, na verdade, “fazer uma grana” através de C.M. intermediando a transação. Após feito o acordo, começou a contactar coiotes de verdade nos Estados Unidos, que ele não conhecia previamente, e providenciou a viagem. O brasileiro descobriria, já na saída do Brasil, que não teria qualquer assitência do ‘amigo-coiote’, quando, em São Paulo, viu ser reduzido para dois o grupo – ele viajaria com três parentes do ‘amigo-coiote’, que supostamente lhe auxiliariam na comunicação durante a travessia. Viajou então só com um amigo, do qual se perdeu no aeroporto do México e, em cenas que lembrariam uma novela mexicana, viajou sozinho para a sua cidade destino – que ele tinha o nome anotado em um papel-, tendo até descido na cidade errada, por engano, já que não contava com nenhuma assistência. E assistência é a palavra-chave para um imigrante que vai passar por dois países -México e Estados Unidos- onde ninguém fala sua língua. C.M. não sabia o que fazer ou como proceder; tinha apenas alguns endereços de saída e destinos.

Extorsões e assaltos
Com os irmãos I.S. e F.S. não foi muito diferente. Atraída por em preço melhor -2.000 dólares por cada um- a irmã deles, que já mora nos EUA, resolveu trazê-los do Brasil. Mas eles descobririam ao pisar em Cidade do México que a viagem custaria bem mais caro. “Nós havíamos sido orientados pelo coiote a pegar roupa de frio e que a travessia seria muito dura; mas a gente achava que tava pronto”, diz um deles. Não foram avisados, porém, que teriam que enfrentar uma batalha psicológica dentro do aeroporto, no México, onde seriam extorquidos; que também seriam extorquidos pelo taxista e por policiais, na estrada – com a conivência do motorista do ônibus. “A frase que a gente mais ouvia era: ‘só eu posso te ajudar. Custa tantos dólares”, dizem eles, hoje até rindo da situação.

No caso dos dois irmãos, um detalhe: só um havia tentado tirar o visto de turista no Brasil; o outro já optou direto pela travessia do deserto.

Já no México tiveram problemas. O ‘coiote’, segundo disseram para eles, havia sido preso e eles teriam que seguir com outra pessoa. O problema é que, já nos EUA, antes de liberá-los, o novo ‘coiote’ pediu mais dinheiro à família – o preço passou de 2.000 para 4.000 dólares por cada jovem. E eles ficaram três dias retidos até a irmã conseguir o dinheiro suplementar.

Quem também teve que trocar de coiote foi o paulista J.V., 34. Mas no caso dele a história teve final diferente:foram 27 dias preso, após ser pego pela polícia de imigração .

Ele também caiu na armadilha do “preço baixo”. Havia tentado um visto, mas foi rejeitado. Desisitiu então de esperar para tentar um intercâmbio estudantil, pelo qual pagaria 5.000 dólares, para pagar 1.500 a um coiote. Com um primo – que havia sido deportado dos Estados Unidos uma vez- e um amigo, resolveu tentar a ‘porta dos fundos’.

Entre desencontro com o amigo – que só reencontraria na prisão- e assalto no deserto -“os coiotes sentaram e ficaram assistindo (ao assalto)”, lembra triste-, não guarda nenhuma lembrança boa da experiência, principalmente das horas que passou correndo, sem parar, para fugir da polícia no deserto. “A gente tinha que correr quase agachado, para a polícia não ver”, relata.

Nove mil dólares garante um ‘pacote’ 5 estrelas
Quem não tem problema em conseguir dinheiro – geralmente eles tomam emprestado de agiotas, com juros altos- pode conseguir um ‘pacote’ 5 estrelas e entrar nos Estados Unidos sem problema. B.M, 35, viveu essa experiência. Em outubro de 2002 saiu do Brasil, depois de seis meses de busca por um ‘coiote’. Ele já conhecia histórias de “picaretas” que cobravam mais barato mas não “faziam o serviço”. “Tinha ouvido histórias de pessoas que são abandonadas no deserto; que pagam, mas são roubados pelos próprios coiotes”, explica.

Assim, diz ele, preferiu conhecer bem o terreno onde estava pisando e só após seis meses de busca, e com a certeza de estar trabalhando com o ‘ coiote’ certo, partiu. E não se arrependeu. Ainda no Brasil recebeu do ‘coiote’ 1.500 dólares para custear a viagem. “Esse dinheiro era para entregar a um policial, no México”, conta.

Os homens que trabalham nesse mercado mantêm um nível de organização que depende do valor pago. No caso de quem dispende 9.000 dólares, recebe, ainda no Brasil, um visto falso – colocado no passaporte- e já nos EUA um I-94 (documento que determina prazo de permanência do turista no país).

“Eu fiquei três dias, já dentro dos EUA, esperando alguém vir de Miami para carimbar meu I-94”, destaca B.M., que durante seu trajeto não teve qualquer incômodo. Não foi extorquido por mexicanos – acredita que eles já estavam pagos pelo ‘coiote’-, foi hospedado em hotel de boa qualidade, e atravessou o deserto de carro.

“Só andei uns 500 metros”. Com o visto e o I-94 falsos na mão também não teve problemas com as barreiras de imigração. “O ônibus em que eu estava foi parado duas vezes na imigração. Eles olhavam meu documento e me deixavam ir”, conta.

Ao contrário dos outros imigrantes que vêm pela fronteira, não passou fome ou sede. Não ficou mais que dois dias no México e nove dias após ter saído do Brasil já estava na Flórida. “Só demorei mesmo esperando a pessoa que vinha de Miami (para carimbar o I-94)”, lembra. E durante e tempo de espera tinha comida e bebida à disposição. “Até cerveja. O que a gente quisesse era só pedir que eles buscavam”, diz o brasileiro, que veio num grupo de três.

Já com os documentos na mão e dentro do país, só teve que tomar um avião até a Flórida, sem traumas nem confusão. Uma tranquilidade que ele ainda está pagando, com juros altos, mesmo já estando há sete meses nos Estados Unidos, já que todo o dinheiro que ganhou, até agora, ainda não foi suficiente para saldar a dívida do empréstimo.

  • A fronteira do México: um tour sem volta – Parte I
  • A fronteira do México: um tour sem volta – Parte II
  • A fronteira do México, um tour sem volta – Parte III
  • A fronteira do México, um tour sem volta – Parte final
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