Ahã…

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Sou um legítimo representante dos deficitários de atenção. Pessoas como eu tendem a simplesmente desligar no meio de uma conversa, aula, discurso, ou qualquer outra coisa que não necessite atenção constante como pilotar um helicóptero ou fazer uma neurocirurgia (digamos que são duas profissões que não devem dar muito certo para quem tem déficit de atenção).

A minha falta de atenção na época da escola deve ter sido compensada por uma osmose fenomenal, já que nem lembro de nunca ter estudado e assim mesmo não repeti de ano. Ou isso, ou meu anjo da guarda era o Einstein, que fazia as provas no meu lugar.

Me identifico muito com o personagem dos quadrinhos, o Calvin. Ele se transforma no astronauta Spiff quando a professora começa a dar aula, e mentalmente se transporta para outros planetas para lutar com monstros imaginários. Eu sou assim. Basta alguém falar muito no pé na minha orelha que eu ligo o piloto automático, responsável por ajustar o balançar da minha cabeça, sincronizado com algumas frases padrões tipo “sim, claro”, “concordo”, “é bom mesmo”, e o “ahã” que me entrega de vez em quando. 

Numa dessas eu me dei mal na casa de um amigo em Salvador. Sua mãe era muito simpática, mas falava extremamente baixo. Uma manhã ela tomava café comigo e conversávamos (bom, ela conversava e eu no piloto automático, modo matinal turbo). Não costumo comer quase nada pela manhã, e de repente vejo a empregada me colocar um prato com vários ovos fritos na minha frente. Eu disse “obrigado, mas já estou satisfeito”. E a mãe de meu amigo “mas, você acabou de me dizer que seria bom comer uns ovos….”. Claro que comi para não parecer antipático, e nos dias seguintes eu prestei bastante atenção ao que ela falava, eu hein?

Meu avô usava a mesma técnica, mas era pela surdez. Eu percebia quando ele estava balançando a cabeça sorrindo no meio da conversa. Aí eu perguntava mais alto “vô, o senhor não ouviu nada, né?” aí ele abria um sorriso e dizia “não…”

A convivência constante das pessoas acaba dedurando minhas técnicas. Todo mundo que está à minha volta já sabe que quando começo a murmurar “ahã…” significa que já estou off-line. 

Nem preciso dizer o que acontece nos meus relacionamentos, quando elas querem discutir algum assunto importante. Eu juro que tento prestar atenção, mas as palavras começam a se embaralhar em meu cérebro, qualquer coisa em volta me distrai, eu lembro que tem algum doce na geladeira… e aí já era, perdi metade do que ela disse. Só rezo sempre para não me perguntarem nada relativo à conversa. Aprendi em todos estes anos, que por algum motivo que desconheço, elas ficam extremamente bravas e agressivas quando eu não presto atenção. Vai entender, uai.

Vou dar outro exemplo, muito comum na vida dos deficitários de atenção. Imagine que você tem que guardar no armário da sua cozinha um copo que estava no escorredor de louças. Uma pessoa normal pega o copo, e guarda no armário. Eu vou pegar o copo, e percebo que o suporte do escorredor preso na parede está meio solto. Então vou ao meu armário de ferramentas pegar uma chave de fenda para arrumar. No caminho, olho a tampa da máquina de lavar aberta e lembro que o parafuso dela também está solto, aí eu aperto aquele parafuso. Aproveitando que a tampa da máquina está aberta, vou até meu banheiro para pegar a roupa suja para colocar na máquina. Pego a roupa e ao passar na frente da tv do quarto vejo que está passando um seriado que adoro. Assisto o seriado inteiro – com a roupa suja e a chave de fenda em cima da cama. Como o seriado demora, fico com sono e preguiça, ponho a roupa suja de volta no banheiro, tomo uma ducha e antes de deitar fico imaginando o que aquela chave de fenda faz em cima da cama. 

A chave de fenda fica uma semana no meu quarto, até a faxineira vir. E o copo continua lá no escorredor até o dia seguinte quando vou usá-lo para beber algo, claro.

Só não cito mais exemplos, porque esqueci sobre o que estava escrevendo.