Aventuras em terras jamaicanas

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Fique à esquerda, Fique à esquerda… Tive que alugar um carro para poder rodar pela Jamaica para mergulhar e procurar conchas terrestres, e eles usam mão inglesa–pelo menos o micro Suzuky Swift tinha a direção do lado direito o que me fazia lembrar de ficar à esquerda. Até que me acostumei rápido desta vez, tirando o fato de tentar procurar o cinto de segurança do lado errado todas as vezes que entrava no carro, e de ligar o limpador de vidros ao invés do pisca-pisca.

Depois de um café da manhã rápido saí com o carro. Entrei em uma pequena estrada estreita e escura – assim que vi um local apropriado eu parei o carro perto de um barranco para procurar por conchas. Depois de uns minutos, apareceu um ciclista rastafári e se apresentou como Thomas. Então ele tirou uma sacola das costas dizendo que teria algo para me mostrar – pronto, pensei – lá vem um delivery do Baseado-Express! Mas, não – ele tinha artesanato para vender. Para desconversar eu fui logo dizendo que não havia trazido muito dinheiro e que naquele momento não poderia comprar nada. Aí ele me perguntou o que eu estava fazendo ao que respondi que estava pegando conchas de terra. E ele “ah, para usar como iscas?” – eu expliquei que estudava as conchas, e aproveitei para perguntar se ele sabia onde encontrar mais. Ele parecia interessado e me disse que sempre via conchas em folhas de bananeira – um sinal de que ele sabia do que estava falando. Eu sorri e voltei a fazer o que estava fazendo – depois de uns minutos ele voltou com as mãos cheias de conchas! Eu disse que se ele juntasse outras eu poderia comprar no dia seguinte. Anotei seu celular (sim, ele tinha um) e disse que voltaria no dia seguinte.

De lá dirigi até Sherwood Content (Content com o quê eu não vi) e perguntei como chegar a Windsor Cave, um grupo de cavernas muito famoso. Me apontaram uma estradinha estreita, de terra e toda esburacada. Naquela hora me arrependi de não ter alugado um 4×4! Um amigo disse que em suas expedições para a Jamaica teve vários pneus rasgados nessas estradas, mesmo usando carros apropriados para esse tipo de terreno. E lá eu estava, com um carrinho da Matchbox com pneus de bicicleta, entrando em uma estrada abandonada, dirigindo sozinho. (É bom poder escrever sobre estas aventuras tendo sobrevivido e estando no conforto de meu escritório…).

Fui dirigindo devagar para não despencar com o carro em algum barranco, e tentei diversas vezes checar com o GPS onde estava, mas o aparelho não parava de repetir “Não sei onde estamos – por favor, leve-me para casa”. Finalmente cheguei à entrada de Windsor Cave – onde outro rastafári cuidava dos ingressos. Pela altura do mato no meio da estrada deduzi que eu devia ser o primeiro turista do semestre. O rasta cobrava 20 dólares para entrar no primeiro salão da caverna – o pior é que tive que colocar combustível e fiquei só com 15 dólares no bolso! Eu perguntei se ele poderia me levar por 10 dólares só até a entrada e ele concordou. Eu nem poderia me aprofundar muito na caverna sem o equipamento necessário. Eu estava de chinelos e bermuda, digamos que não é o adequado… Tirei umas fotos da entrada e preferi começar a voltar antes que o céu despencasse e eu ficasse preso naquele fim de mundo.

Após enfrentar aquela estrada miserável novamente (só volto com um Land Rover) cheguei ao asfalto e segui as instruções do GPS para voltar ao hotel (ao chegar suas palavras exatas foram “entre à esquerda no lobby, sente no bar e peça uma cerveja”). À noite liguei para o Thomas – como ele parecia confiável e seria bom ter um habitante local comigo dependendo de onde fosse, decidi convidá-lo para ir comigo coletar no dia seguinte.

Na manhã seguinte encontrei com ele no ponto onde havíamos nos conhecido. Ficamos conversando no caminho–ele era totalmente Zen, ou queimou algumas células cinzentas com tanta maconha, não sei – mas me explicou um pouco o que era “rastafári”. Me disse que é mais um estilo de vida, e não uma religião como muitos pensam. São pessoas que decidem viver mais na natureza, sem se apegar a bens materiais em excesso.

Um pouco antes de Brown’s Town achamos uma pequena estrada – pavimentada, mas abandonada. O Thomas adentrou a mata e eu fiquei procurando perto do asfalto (entendeu agora o porquê de eu convidá-lo?). Estava tão quente que eu poderia jurar ter visto um lagarto se abanando com uma folha.

Encontramos várias conchas e o Thomas trouxe para o carro um maço de plantas – não “aquela” planta, mas algo que ele disse que era bom para as costas. Só não sei se ele iria esfregar a planta nas costas, ferver e beber, ou enrolar e fumar. Obviamente eu o avisei que não poderia levar nada no carro que fosse ilegal – a última coisa que eu queria era passar férias em uma cadeia na Jamaica…. ele me garantiu que não era nada proibido. Logo em seguida na estrada vi um comando da polícia (Lei de Murphy) – eu já havia passado por outros antes, mas não me pararam. Só que desta vez eu estava com um potencial “fornecedor” local comigo! Nos pararam e logo duas coisas me vieram à cabeça: será que aquela planta do porta-malas era inofensiva; e será que o Thomas não tinha nenhuma outra planta “medicinal” na sua mochila? Eles estavam procurando por armas e drogas–nos revistaram e pediram para abrir o porta-malas.

Assim que ele viu o maço de plantas virou para mim e eu dei de ombros – expliquei que meu guia disse que era algo supostamente medicinal (e eu pensando: como seriam as celas dos presídios?). Ele se voltou para o Thomas que lhe respondeu em patuá (a língua local) alguma coisa e os dois deram risadas olhando para mim – eu também sorri amareladamente…. Nos deixaram ir e continuamos nosso caminho, mas antes eu parei no hotel para trocar de cuecas.