Benito Romero, um Dom Quixote brasileiro

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Benito Romero (Foto: Facebook/Vejatv)
Benito Romero (Foto: Facebook/Vejatv)

Por Edilberto Mendes*

Relutei muito antes de escrever estas poucas sobre o que conheci de Benito Romero.

A última vez que nos vimos foi por ocasião da celebração de seus 79 anos, muito bem comemorados, que para mim soava como uma despedida gentil e carinhosa. Estava feliz e solicito. 

Na época ele fez questão de escolher as pessoas que gostaria de ter como convidados. Muitos declinaram o convite, alegando mil razões, para não se envolverem em nada e com nada. 

Tudo bem, seguimos em frente e ele me fez na época, três pedidos: queria um bolo de aniversário que lembrasse um circo, com palhaços, bolas e enfeites coloridos. Outro pedido era que ele queria tocar na sua inseparável gaita duas canções imortais, Asa Branca (Humberto Teixeira) e Saudade de Matão (Galati com letra de Raul Torres), e a presença de Sara Grossi, sua companheira de anos e amiga, mãe de seu único filho Bryan.

Estas lembranças ficarão para sempre em quem compareceu e celebrou com ele suas últimas alegrias. Mas falar de pessoas queridas como o Benito que nos deixam causa em nós um tipo de sentimento de que deveríamos ter tido mais tempo e atenção para aquele que se vai. Com ele não foi diferente. Poucas pessoas que cruzaram seu caminho entenderam Benito, seus sonhos, seus delírios, seus devaneios.

Benito era um visionário, um futurista. Alguém que antes de muitos e de todos já tinha pronto um manancial de ideias para a promoção do Brasil e dos brasileiros. Uma lista imensa de projetos, entre eles a sua querida a Casa do Brasil. Tentou até os últimos minutos de vida fazer de seu sonho uma realidade.

Poucos tiveram tempo, paciência e disposição, para pelo menos, ouvi-lo.

Benito Romero foi um Dom Quixote brasileiro que, como o fidalgo castelhano, perdeu a razão pelo excesso de oportunidades e possibilidades que via passar sua frente, e que nunca se concretizavam por falta de apoio de toda a ordem. Por anos, como Dom Quixote, Benito Romero foi um cavaleiro solitário sem a companhia de um Sancho Pança qualquer que abraçasse suas ideias e fosse fiel amigo e companheiro, com uma visão mais realista da vida. 

Mas, na mais dura e real verdade, ninguém e nada quis apoiar Benito Romero em seus sonhos. Não se importou, não desistiu e seguiu sozinho. 

Pela vida afora ele se envolveu com uma série de aventuras, fantasias foram abortadas pela dura realidade. 

Benito Romero partiu em paz, com consciência tranquila e na certeza de ter sido uma notável fonte de inspiração para tantos outros idealistas, principalmente no campo artístico. 

Benito Romero ao partir, com certeza, como Dom Quixote percebeu que foi um herói de sua gente.

Principalmente onde não há heróis.

*Jornalista