EUA são o maior formador de preços e o que o Brasil tem a ver com isso

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Por Rodrigo Fonseca* e Luis Panelli**

Há a disseminação sem precedentes de um “fake news” global contra o Ocidente, sobretudo em Economia. E especificamente contra os Estados Unidos da América do Norte. Nada mais equivocado: a China pode se transformar na próxima década na maior economia do Planeta. Não é de espantar, com 1,4 bilhão de habitantes, a China certamente se transformará no maior exportador do mundo.

Há, porém, um fato inescapável e vital para entender a economia mundial: os EUA continuam a ser o principal formador de preços em todas as frentes. Aliás, essa é uma das grandes metas da China: ser formadora de preços em várias commodities e bens industrializados, mas o caminho ainda está distante. E como isto impacta no Brasil?

Quem fixa o preço da soja, do milho, do trigo, do aço, do alumínio, do petróleo, do gás natural, da barriga de porco, dos chips, dos computadores, dos automóveis, dos aviões, dos remédios, dos têxteis, dos bens de alta e de baixa tecnologia? A resposta é simples: os EUA, seguidos da Europa, em escala mais reduzida.

As Bolsas de Valores de Nova York (NYSE, a maior e mais influente do mundo; NASDAQ, a bolsa de ações de empresas de alta tecnologia e a segunda maior do mundo), a Bolsa de Chicago (a maior para Commodities agrícolas) e a própria dinâmica do mercado norte-americano são responsáveis pela fixação de preço da esmagadora maioria dos bens, e até serviços, da economia mundial.

Por que isso é importante?

Porque a fixação de preços é acompanhada pelo controle dos investimentos e a formação dos grandes fundos de todos os tipos. Vimos recentemente a derrocada do gigante chinês EVERGRANDE, com dívida de 300 bilhões de dólares, do ramo imobiliário. E obteve repercussão relativamente pífia nas bolsas e mercados mundiais.

Mas, a crise das hipotecas (subprime) nos EUA provocou uma avalanche sem precedentes em todo o mundo, levando vários países à bancarrota. Até hoje, lutamos para sair dos efeitos destrutivos do colapso de grandes bancos americanos.

O dólar ainda é a moeda de referência das transações comerciais de toda a humanidade. As moedas criptográficas poderão substituir o dólar, sim, mas isso pode demorar décadas. Como diz Warren Buffett, “Never bet against America”.

Levantamos estes dados por uma razão muito simples: se o agronegócio e a indústria brasileira querem ter alguma relevância no mundo, pois hoje representamos apenas 2% do comércio mundial, é preciso construir pontes e estratégias para influenciar os mecanismos de formação de preço no gigante EUA. E o Brasil ainda tem uma presença ínfima no mundo dos negócios.

Não temos marcas globais, nossos produtos são vendidos mais por tradings estrangeiras do que por similares brasileiros. Por exemplo, tente comprar café na Rússia, no Cazaquistão, na Turquia ou em outros países: é quase certo que esse café brasileiro foi negociado por uma trading inglesa ou holandesa. Hong Kong tem mais poder em negociar produtos brasileiros na China do que as tradings brasileiras. Isso não pode continuar assim!

O Brasil precisa construir um potencial influenciador de maior porte no gigante EUA e nas principais praças econômicas mundiais: NY, Chicago, Atlanta, Miami, Shanghai, Londres.

Precisamos discutir o assunto a fundo com especialistas brasileiros, estrangeiros e empresários que fizeram suas marcas rodarem o mundo. Um exemplo extraordinário acontece com as sandálias Havaianas. Uma estratégia de exposição da marca em revistas de tendências de alcance mundial decisiva para transformar seu produto em um objeto de desejo global. Influenciamos a moda internacional. Temos muito a aprender com as Havaianas.

E existem milhares de produtos industrializados brasileiros que poderiam ser marcas ou objeto de desejo do consumidor internacional.

Para isso, precisamos de estratégias desenvolvidas por órgãos como Itamaraty, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, APEX-Brasil, a Confederação Nacional da Indústria – CNI, a Confederação Nacional da Agricultura – CNA, “think tanks”, universidades e empresas de grande reputação internacional que atuam na área de marketing, sobretudo, escritórios de “lobby” poderosos nos EUA.

Os preços são formados nos EUA, e o valor agregado dos produtos, principalmente dos produtos brasileiros, podem ser aprimorados com tendências de marketing sobre o comportamento do consumidor. É preciso fundir know-how e conhecer o mercado de consumo internacional.

Uma coisa é certa: cada centavo aplicado em redes de difusão de notícias sobre o Brasil no mundo tem retorno imediato, sobretudo para descontruir falsas verdades sobre o País, e melhor a imagem de um país competitivo e plural como o nosso. É preciso influenciar a mídia internacional com capacitação, informação e dados. 

Quantos jornalistas brasileiros sabem que o Brasil tem o maior programa de reflorestamento do mundo, com 4 milhões de árvores plantadas todos os dias, ou seja, 1,5 bilhões de árvores replantadas por ano?

Há na imprensa uma enxurrada de textos sobre a devastação da Amazônia, mas nenhuma notícia sobre o programa de reflorestamento. O Brasil precisa se vender e mostrar o bem que faz.

Somos capazes de mudar a percepção do Brasil com informação sobre inovação, sustentabilidade, além de vendermos os produtos brasileiros e influenciarmos a formação de preços nos EUA.

* Diplomata

** Ex-presidente do Inmetro