O palhaço Tiririca da ditadura e a decadência da democracia no Brasil

0
4933
Opinião

Por Gilvan De Sergipe*

Que a sede pelo poder acirra os ânimos raivosos entre personagens, classes sociais e países, isso já é notório e bem sabido. Estudos de caso mostram que nessa fratricida guerra a primeira vítima é sempre a verdade. E a verdade passa a ser a versão do vitorioso, mesmo que seja uma clara e estapafúrdia mentira. Para se alcançar o poder, se derruba uma eleita democraticamente pelo povo, se prende o preferido das urnas, se arrancam direitos sociais dos menos favorecidos em prol dos privilégios de classe, se negociam divulgações de mentiras deslavadas com os grandes conglomerados de mídia e se prostitue a Justiça.

A rabugenta direita brasileira, que nunca aceitou socializar privilégios e não admite a ascensão de membros das classes menos favorecidas a melhorias sociais, tramou e fez de tudo para retomar pela força o poder que não conseguia através do voto democrático desde 2002. Conspirou para um golpe branco, corrompeu a imprensa, prostituiu a Justiça, destituiu um governo eleito pelo povo e uniu seus fantoches de ventríloquo para iludirem as massas populares numa democracia de faz-de-conta. O tiro saiu pela culatra. O monstro que criaram nesse caldeirão de falcatruas e pecados foi pior do que imaginavam.

Deputado medíocre, que em 27 anos mudou de partido nove vezes e criou apenas duas leis, Jair Bolsonaro se tornou conhecido a nível nacional muito mais por escaramuças de gueto dentro da Câmara dos Deputados do que por seu papel como político. Ora aplaudido, ora vaiado, se tornou um deputado Tiririca do Exército e fez da Casa Legislativa de Brasília seu circo, onde, com bate-boca deselegante e arrogante, destrata profissionais de quaisquer áreas e menospreza e agride verbalmente pessoas que formam as minorias sociais no Brasil.

Nas duas últimas semanas, me dei ao luxo de entrevistar em off aguerridos apoiadores do candidato Jair Bolsonaro, desde empresária à faxineira, até profissional de mídia e pintor, entre quase duas dezenas de outros membros da diáspora brasileira que chegaram recentemente à América ou que já estão enraizados em solo americano. Como um patriótico eleitor brasileiro que sempre exerci com carinho e seriedade meu dever cívico do voto, fiquei espantado com o altíssimo grau de desconhecimento que os eleitores de Bolsonaro têm de seu plano de governo e do próprio candidato. Votarão sem saber o que será da Educação, das diretrizes para a Economia, dos investimentos na Saúde ou como se darão as relações internacionais, entre outros temas importantes. Mas todos foram unânimes em afirmar que ele “vai acabar com toda a bandidagem”. Da boca de um desses apoiadores ferrenhos que querem espancar quem não concorda com eles ouvi a pérola de que “Bolsonaro é o general do Exército que vai acabar com a fome no Brasil” e que “Dilma e Lula roubaram não sei quantos bilhões do povo e têm conta secreta na Suíça”.  Meus ouvidos, espantados, parafraseando Jânio Quadros, quase disseram: “Custa-me crê-lo!”.

Mas não podemos condenar um pobre eleitor por não saber nada do que seu candidato faria se chegasse ao poder. Quando nem o próprio candidato sabe. E se acovarda em debater publicamente a nível nacional suas propostas com seu adversário, um humilde professor e ex-prefeito. Confirmando com isso que não tem a mínima competência e segurança para representar seu país em debates no palco internacional, onde também seria escalpelado por premiês, presidentes e reis. Não bastasse sua medíocre capacidade intelectual e de visão de mundo, que já seriam suficientes para seus possíveis eleitores descredenciá-lo como o mais alto representante do Brasil, seus apoiadores ainda têm que engolir cabisbaixos a figura que a imprensa mundial vê em seu candidato. “Racista, homofóbico e sexista”, descreveu o Libération, da França, “ameaça à democracia”, publicou o The Economist, da Inglaterra, “uma triste escolha”, opinou o The New York Times, dos Estados Unidos, “xenófobo”, disse o Clarín, da Argentina, “simpatizante de torturadores”, informou o Die Zeit, da Alemanha.

O mundo lá fora e as pessoas sensatas já cancelaram um possível voto de credibilidade que dariam a Jair Bolsonaro. Resta agora seus eleitores acordarem para a realidade. Antes que a bala do tiro que saiu pela culatra vitime vergonhosamente aqueles que o elegeram.

*Gilvan De Sergipe é jornalista e foi diretor-executivo da ABI Inter (Associação Brasileira de Imprensa Internacional) por oito anos.