Antonio Tozzi Esportes

Boletim da Copa | Portugal e Marrocos vão reviver as batalhas memoráveis entre cristãos e mouros

Admito que já estava preparado para falar sobre as duas potências ibéricas: Portugal e Espanha. Os dois países têm séculos de amizades e rivalidades. Porém, pouca gente acreditava que Marrocos fosse a única seleção a furar o bloco dos favoritos europeus e sul-americanos.

Em função disso, decidi ser a hora ideal para recontar a famosa história da Batalha de Alcácer-Quibir que colocou frente a frente Portugal e Marrocos. Como não temos expertise para reviver este fato histórico, recorremos ao blog Ensinar História, e à autora  Joelza Ester Domingues. Após os devidos créditos, mergulhem na época medieval da época em que mouros e cristãos se enfrentavam em busca de ouro, terras e poder. Mais uma vez, enfatizamos que a alusão de fatos históricos com competições esportivas serve apenas como curiosidade, e nem cabe uma coparação entre os eventos.

“Em 4 de agosto de 1578, ocorreu a Batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, entre as tropas portuguesas comandadas pelo rei D. Sebastião e o sultão do Marrocos. As tropas portuguesas foram dizimadas. O rei D. Sebastião perdeu a vida no combate e a maior parte da nobreza portuguesa foi massacrada e os sobreviventes caíram prisioneiros dos marroquinos. A guerra é considerada um divisor de águas na história de Portugal e de Marrocos: para o primeiro, provocou uma crise dinástica que levou à perda da independência sob a Coroa da Espanha; para Marrocos, a vitória de Alcácer-Quibir firmou o poder do sultanato Saadiano no lado ocidental por mais um século conseguindo resistir à expansão otomana. A batalha de Alcácer-Quibir marcou, também, o fim da Cruzada cristã contra os muçulmanos, bem como o fim do expansionismo português no norte da África iniciado no século anterior com a conquista de Ceuta.

“Os portugueses dominavam diversos pontos na costa atlântica do Marrocos e da África Ocidental. Depois de conquistar Ceuta, em 1415, eles capturaram o porto estratégico de Tânger (1471) e Agadir (1505) onde construíram a poderosa fortaleza de Santa Cruz. Este forte controlava a entrada para o Atlântico e fornecia uma base fortificada, a partir da qual podiam aterrorizar a costa marroquina. Foi o primeiro de uma série de fortes que Portugal construiria na costa da África, bem como na Índia e na Malásia. Seguiram-se as ocupações de outros pontos da costa marroquinas: o porto de Safi (1507), as cidades de Azempour (1513) e Mazagão (1515). Além disso, os portugueses intervieram na política do sul do Marrocos, colocando um emir contra outro e apressando a desintegração política já em curso. Os portugueses também exploravam o comércio escravo e a pirataria na costa marroquina. O Marrocos estava, naquele momento, em avançado estágio de desintegração social e política. A partir de 1540, Mulei Mohammed, emir do sul do Marrocos organizou a resistência contra a ocupação portuguesa. Expulsou os portugueses do forte de Santa Cruz, a sua principal base de comando e porta de entrada para o Atlântico. Nos dois anos seguintes, retomou todas as fortalezas ao longo da costa marroquina, exceto Tânger e Ceuta, causando um duro revés ao comércio português.

“A deposição de Mulei Mohammed em 1576 mudou o cenário político. O emir deposto se deslocou a Portugal onde pediu o seu auxílio para recuperar o trono perdido para seu tio. Em troca, ofereceu a D. Sebastião todo litoral mais seis léguas pela terra firme incluindo as cidades e povoações ali existentes, entre elas, Arzila, Larache e Alcácer-Quibir. Prometeu ainda que deixaria pregar a fé cristã em toda região e, finalmente, consentia que D. Sebastião fosse coroado imperador do Marrocos. A oferta era irrecusável.

“ Sebastião era muito jovem: assumira o trono em 1568, aos 14 anos de idade e tinha a obsessão de conquistar Marrocos e expandir a fé cristã nas terras muçulmanas. Sua personalidade voluntariosa, impulsiva e autoritária, aliada a uma religiosidade exacerbada e rigidez moral o tornava surdo às ponderações de seus fidalgos. Não se casara e não fizera herdeiros. Tinha grande dificuldade em se relacionar com mulheres, adiando sucessivamente os possíveis casamentos que lhe foram propostos ao longo da vida.

A única representação conhecida da batalha de Alcácer-Quibir publicada por Miguel Leitão de Andrade na obra “Miscelânea” (1629): nele está ilustrado o exército português (à esquerda), numericamente inferior, prestes a ser cercado pelas forças islâmicas. Batalha de Alcácer-Quibir (1578), Museu do Forte da Ponta da Bandeira, Lagos, Portugal (Foto: Wikipedia)
A única representação conhecida da batalha de Alcácer-Quibir publicada por Miguel Leitão de Andrade na obra “Miscelânea” (1629): nele está ilustrado o exército português (à esquerda), numericamente inferior, prestes a ser cercado pelas forças islâmicas. Batalha de Alcácer-Quibir (1578), Museu do Forte da Ponta da Bandeira, Lagos, Portugal (Foto: Wikipedia)

“A batalha de Alcácer-Quibir foi um grande evento na história mundial. Ela é considerada a última cruzada no Mediterrâneo e marcou o fim das ambições cristãs no norte da África. Só no final do século XIX, no contexto do imperialismo, os europeus voltariam a disputar essa região. Das praças marroquinas que detinha antes da batalha, Portugal recuperou apenas Tânger (até 1661, quando passou para a Inglaterra) e Mazagão (até 1769, quando foi recuperada pelo sultão marroquino). Ceuta passou para a Espanha mantendo-se assim até hoje. O Magrebe permaneceu sob domínio muçulmano. Os dois líderes islâmicos também morreram em combate. O sultão Mulei Maluco (Abu Maruane Abdal Malique) que se encontrava debilitado por um envenenamento que sofrera, morreu logo no início da batalha. Mulei Mohammed, aliado dos portugueses, morreu afogado ao atravessar o rio Mocazim quando fugia ao massacre em que a batalha se convertera. Para Portugal, as consequências da derrota de Alcácer-Quibir foram catastróficas. Perdeu a nata de sua nobreza e ficou enormemente endividado para pagar os elevados resgates exigidos pelos mouros para devolver os prisioneiros nobres. D. Sebastião não tinha herdeiros, deixando como sucessor seu tio-avô, o cardeal D. Henrique que morreu dois anos depois, também sem descendência. Assim se iniciou uma crise dinástica ameaçando a independência de Portugal face a Espanha, pois um dos candidatos à sucessão era seu tio, o rei espanhol Filipe II que, ao final, assumiu o trono português. Iniciava-se o período da União Ibérica (1580-1640). 

“A demora em retornar o corpo de D. Sebastião a Portugal deu margem a muitas dúvidas quanto à veracidade da morte do rei. A inscrição em sua tumba é dúbia: Nesta sepultura se encontra, como se acredita, Sebastião. Uma morte prematura nos campos da Líbia levou-o embora. Mas não diga que é errado quem acredita que o rei ainda está vivo – em face da ordem destruída, a morte era como se a vida fosse. O mito do sebastianismo cresceu durante a União Ibérica (1580-1640), nascido da esperança de um regresso de D. Sebastião para devolver o país aos portugueses. O mito iria perdurar e ganhar força nos tempos mais difíceis da história de Portugal, sob a crença da vinda de um salvador. O Sebastianismo traduz a nostalgia de uma idade de ouro que passara e o sentimento de humilhação nacional de um povo ocupado pelo estrangeiro (espanhóis e, mais tarde, os franceses e ingleses), bem como a espera messiânica de um rei capaz de resolver todos os problemas nacionais.” 

Aqui estão os comentários sobre as partidas de hoje.

Marrocos defende a honra dos africanos!

Tudo indicava que Marrocos daria adeus à Copa do Mundo Catar 2022. Mas, neste torneio disputado em um país árabe, a manutenção de Marrocos entre os quadrifinalistas serve de alento para os povos do Levante.

E o time africano fez história nesta terça-feira, 6 de dezembro de 2022, ao eliminar a Espanha nos pênaltis por 3 a 0 (após empate sem gols em 120 minutos) e avançar pela primeira vez a uma fase de quartas de final de Copa do Mundo. O jogo foi parelho, e Marrocos sofreu pouco em vários momentos, graças a uma marcação incansável abraçada por toda a equipe. Os marroquinos também criaram chances para vencer a partida no tempo normal e no tempo extra, mas não foram efetivos.

Marrocos abriu a série com o meia Sabiri, que converteu sua cobrança. Sarabia cobrou pela Espanha na sequência e acertou a trave (a exemplo do que fez no último lance da prorrogação). O craque Ziyech abriu 2 a 0 para os marroquinos batendo no meio do gol. Soler tentou colocar a Fúria na disputa, mas foi parado por Bono. O zagueiro Benoun teve a chance de encerrar o duelo, mas Simón defendeu seu penal.

O experiente Busquets foi para a cobrança, no último respiro espanhol, e perdeu. Bono defendeu novamente. Cabia ao ótimo Hakimi sacramentar a classificação, e ele fez bonito: uma cavadinha no meio do gol. Aí foi só correr para o abraço. Final: 3 a 0 nos pênaltis.

Marrocos terá Portugal pela frente nas quartas de final. O duelo está marcado para o próximo sábado, dia 10, às 10:00 am (horário de Miami), no estádio Al Thumama. 

Seleção portuguesa arromba o ferrolho suíço

Portugal está nas quartas de final da Copa de 2022. E para chegar lá, pela terceira vez em sua história, não precisou do seu grande astro. O técnico Fernando Santos deixou Cristiano Ronaldo no banco de reservas, e foi justamente o seu substituto, o jovem Gonçalo Ramos, quem brilhou em campo: o atacante de 21 anos marcou três gols na goleada de 6 a 1 sobre a Suíça, no Estádio Lusail – primeiro hat-trick do Mundial do Catar. Pepe, Raphaël Guerreiro e Rafael Leão fizeram os outros gols portugueses, e Akanji descontou para os suíços.

Em junho, enquanto Portugal jogava pela Liga das Nações – duas vezes contra a Suíça, por sinal -, Gonçalo Ramos ainda defendia a seleção sub-21 nas eliminatórias da Euro da categoria. Seis meses depois, o jovem atacante ganhou a missão de substituir ninguém menos que Cristiano Ronaldo em um jogo de mata-mata de Copa do Mundo. Correspondeu totalmente à altura: abriu o placar aos 16 do primeiro tempo, com um bonito chute de virada, fez o terceiro de Portugal aos cinco do segundo tempo e, antes de sair ovacionado, marcou o quinto da seleção com uma cavadinha na saída de Sommer. 

Portugal não foi só Gonçalo Ramos. Com muita mobilidade, o time não deu qualquer chance para a Suíça na partida. Aos 32 do primeiro tempo, Bruno Fernandes cobrou escanteio e Pepe marcou de cabeça o segundo gol português. Duas marcas em um só gol: Bruno Fernandes chegou a três assistências na Copa de 2022, liderando o quesito ao lado do inglês Harry Kane, e o veterano zagueiro, de 39 anos, se tornou o jogador mais velho a marcar em um mata-mata de Mundial. No segundo tempo, Raphaël Guerreiro fez o quarto gol, em contra-ataque, Akanji descontou para a Suíça, aos 12, e Rafael Leão fechou a goleada aos 46.

Os confrontos das quartas de final são os seguintes:

Dia Horário Jogos Local

Sexta (09) 10:00 am (horário de Miami) Brasil x Croácia Estádio Cidade da Educação

Sexta (09)   2:00 pm (horário de Miami) Argentina x Holanda Estádio Lusail

Sábado (10) 10:00 am (horário de Miami) Portugal x Marrocos Estádio Al Thumama

Sábado (10)   2:00 pm (horário de Miami) França x Inglaterra Estádio Al Bayt

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