Conexão UF | A jornada para aprender outro idioma: as aventuras de uma americana no Brasil

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Caroline Zapert em suas andanças pelo Brasil
Caroline Zapert em suas andanças pelo Brasil

Por Caroline Zapert

Cresci nos Estados Unidos e por isso tenho um roteiro fixo para iniciar conversas em inglês. Ele varia pouco, e com essa falta de diversidade eu já estava acostumada a não precisar prestar atenção quando respondo à pergunta ‘How are you?’ Imagina meu medo com tantas opções para conversa fiada no Brasil.

O cérebro do falante nativo de inglês não entende o uso de ‘Tudo jóia’ – de onde veio esse assunto de brincos e colares? Cortar a segunda parte da frase original para dizer apenas ‘Tudo!’ também não faz sentido, porque ninguém responderia a ‘Everything alright?’ somente com ‘Everything’. 

Essa pessoa hipotética e confusa sou eu, e acontece que cheguei em um lugar onde estar certa sobre tudo não era uma opção, especialmente nas horas de responder o famoso ‘Tudo bem?’ Foi uma decisão impulsiva me matricular em um programa de intercâmbio, e foi a fé no universo que me deixou tranquila mesmo na correria deste processo. Jogaram um dardo no mapa e caí no interior de São Paulo, onde o ‘r’ é puxado e o ar é tão seco que faz o nariz sangrar.

Antigamente Ribeirão Preto não tinha significado algum para mim, e muito menos para minha família que até hoje não sabe pronunciar o nome da cidade. Aos poucos o pontinho no mapa onde o dardo ficou foi se tornando um lugar muito especial para mim. Em Ribeirão Preto eu me sinto em casa. Em Ribeirão Preto eu sou a minha melhor versão.

A minha aprendizagem da língua portuguesa veio com dias mais quietos do que eu queria, com muitas páginas cheias de gramática que eu treinava sozinha, e com muita ajuda das pessoas – pessoas não, anjos – que conviveram comigo. 

Virei muitas noites no Brasil e não da forma que a maioria da juventude gostaria. As minhas madrugadas se tornaram um bom horário para conjugar verbos irregulares e treinar os sons de português que não existem em outras línguas. Agora que eu faço faculdade de linguística, eu entendo melhor a importância de estudar os fonemas como outro alfabeto, e hoje em dia me orgulho de ter aprendido dessa forma. Aquelas noites valeram ouro. Praticas, praticar e praticar ajudava na hora de fazer um pedido na padaria, para garantir que eu ia voltar para casa com pão e não com outra coisa. Ao invés de tomar uma caipirinha com limão, estava eu lá na escuridão do quarto com caneta na mão. Preenchi múltiplos cadernos com palavras aleatórias, palavras relevantes, palavras engraçadas, letras de músicas, e até o significado das letras mais polêmicas que eu tenho vergonha de ter pesquisado. Pelo menos assim eu descobri a melhor forma de aprender as gírias. Confesso que eu me pegava cantando algumas músicas sozinha, e quanto mais eu cantava, mais eu perdia o sotaque.

Entrar em uma escola particular já no último ano do colegial gerou dois tipos de experiência – a primeira, ser a atração turística em sala que passou semanas apenas sorrindo e rindo cegamente; e a segunda, ser a dedicada aluna dos amigos que assumiram o papel de me ensinar. O negócio de ser uma atração turística às vezes me fez sentir vergonha, mas acima de tudo serviu como motivação para melhorar o português. Cheguei a um ponto no qual eu tive frases defensivas, preparadas, e decoradas que eu falei para as pessoas que ousaram me zoar. Quem quis fazer piadinha com a gringa que tinha acabado de chegar em um país estrangeiro certamente se arrependeu quando ouviu, ‘Quer falar comigo em inglês, então?’ Brincar de forma leve não magoa, mas duvidar da inteligência de alguém que está aprendendo a segunda língua é simplesmente inaceitável. Nem todo mundo agiu desse jeito, só achei engraçado que os alunos da escola que realmente eram fluentes em inglês sempre me trataram de igual para igual. 

A fluência verdadeira era respeitada; no entanto, o que chamava a atenção dos outros alunos era a tendência de falar pouco inglês, mas falar sem parar. Palavras e frases básicas se repetiam de acordo com o nível de zoeira que a minha professora de química queria dar, e geralmente era alto. Por causa disso, eu ganhei certa popularidade e os colegas de turma gostavam de mim porque a gente costumava passar metade da aula deixando a professora usar a sala como teatro para performance. Certo dia, ela fez campanha para achar um pretendente que me ajudaria a conseguir cidadania brasileira. A professora ficou muito decepcionada quando não aceitei.  

A outra matéria na qual eu ganhei ainda mais atenção, embora tenha sido indesejada, foi geografia. O professor que eu tinha sempre expressava bastante interesse na política internacional, inclusive a dos Estados Unidos. Como eu cheguei no Brasil em 2016, nós, americanos, estávamos no período eleitoral que acontece a cada quatro anos. Essa fase foi muito formativa porque toda hora eu estava ou defendendo minha própria opinião política ou explicando o que é o ‘colégio eleitoral’. Tenho que agradecer esta mudança no clima político por me ensinar diversas palavras, e tenho que agradecer o professor por não me interrogar sobre a eleição presidencial depois que saiu o resultado. 

Aprender o português me levou além das fronteiras do estado de São Paulo. Durante o ano que eu morei no Brasil, com o visto de estudante e tudo mais, eu tive a chance de conhecer vários lugares do país que são repletos de beleza natural. Cada experiência me trouxe novo conhecimento, e no final, novas saudades também. No Nordeste, eu aprendi o que é um paralelepípedo, e eu fiquei bem orgulhosa ao pronunciar a palavra de forma correta na primeira tentativa. Na Amazônia, eu aprendi ambos os termos e alguns fatos sobre as plantas na floresta. Por exemplo, uma vitória régia pode sustentar até 50 quilos de peso, e o meu estômago pode lidar com três porções de açaí por vez. 

Nos primeiros meses que eu passei no Brasil, eu não tinha a confiança de brincar com o idioma da mesma forma que eu brincava com o inglês. O humor de cada língua e de cada cultura é único. Então, por mais que alguém estude a gramática, a convivência é mais importante para se comunicar como um falante nativo. Para evitar que eu cometesse algum erro fatal, eu simplesmente falava de forma direta. Assim eu me senti mais autêntica, e mesmo depois que perdi o medo de errar, eu continuava sendo desse jeito, sem vergonha de falar.

O rumo à fluência se diferencia de outra coisa qualquer porque não tem linha de chegada, nem meta, e muito menos uma galera batendo palmas para te dar parabéns no final. A fluência é arbitrária e depende do falante e do seu propósito de falar. Um médico pode não saber da terminologia vinculada à cultura popular e se considerar fluente o suficiente. Enquanto isso, um jovem que só lê revista de fofoca pode defender a sua fluência sem saber o que é uma dissecção aórtica. Cada um com seus interesses, cada um com sua definição do que é ser fluente. 

No meu caso, eu levei meses para falar com confiança. Para mim, eu só passei a falar português de verdade quando já era capaz de mostrar a minha personalidade. Da perspectiva linguística, todo mundo inventa um ‘outro eu’ quando fala outra língua. Ainda bem que meu outro eu foi criado na língua mais linda e cheia de graça. 

Texto produzido por Caroline Zapert (University of Florida) –, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação.