Conexão UF | ‘De onde você é?’, O dilema da múltipla cidadania em termos de identidade

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Caroline Werner, quando criança, na companhia do irmão caçula em NY
Caroline Werner, quando criança, na companhia do irmão caçula em NY

Por Caroline Werner

O que é uma nacionalidade? No sentido didático, a nacionalidade é simplesmente um termo jurídico que pressupõe certos direitos que um país fornece à pessoa. Há duas maneiras de adquirir uma nacionalidade: a nacionalidade originária e a derivada. A derivada requer um processo de naturalização, a originária é adquirida por jus solo (direito de solo), quando a pessoa nasce no país; ou por jus sanguinis (direito de sangue), quando os pais são do país, e por filiação o descendente tem direito àquela nacionalidade.

Muitas vezes uma pessoa tem mais de uma nacionalidade. Essa denotação se chama polipatria, e define alguém com duas ou mais nacionalidades, seja jus solo ou jus sanguinis. 

Ter múltipla cidadania é uma vantagem, pois oferece oportunidades que muitas pessoas não têm. Há opções de moradia e viagem que vêm com esse segundo passaporte, e dependendo do lugar, o cidadão pode pelo menos entrar na fila mais curta de imigração no aeroporto e ter uma experiência menos estressante na hora de entrar no país.

Mesmo com todas essas vantagens, a pessoa com cidadania múltipla sofre um problema mais pessoal, um que se faz conhecido nas conversas mais normais: De onde você é, mesmo? Eis o dilema da identidade; dilema comum e especialmente frustrante para os que não podem denominar-se de um só lugar.

Eu tenho 20 anos, e minha identidade sempre variou dependendo da ocasião. Um dia sou americana, nascida no Texas, e incapaz de cantar o hino nacional. Outro dia posso ser brasileira, pois a lojinha da esquina está vendendo pão de queijo, e quem sou eu para não usar o meu português para pedir um lanchinho? Com certeza, essas circunstâncias mostram uma vantagem de ter uma identidade tão diversa. No passado, eu não soube reconhecer o potencial desta habilidade, e passei grande parte da minha vida ignorando minhas raízes brasileiras. Aprendi inglês de supetão, com intensidade e negligência. Logo, veio a língua espanhola. Quanto mais focava em outras línguas, mais fui abandonando aquela que me deu minhas raízes. Depois de o espanhol ser aperfeiçoado, encarei a minha primeira experiência em uma escola no Brasil. Até então, eu não tinha me dado conta de quanto tempo eu perdi ignorando essa parte da minha identidade. 

Com tempo, e com a paciência de ótimos pais, amigos, e professores, fui aprendendo. Hoje, se alguém me pergunta “de onde sou”, não penso duas vezes antes de gastar meia hora contando a história da minha vida. Tenho orgulho, porque sei que sem essas experiências, eu não seria quem sou.

E ora, se ter uma identidade diversa é algo tão bom assim, por que todo mundo que pode não usa isso para sua vantagem? Se eu posso me tornar mais cosmopolita, viajada, e engenhosa apenas abraçando minhas muitas identidades, por que todos que têm múltipla cidadania não usam essa cartada? Infelizmente, nem todo mundo tem os recursos financeiros, o apoio que eu tive da minha família e a positividade do ambiente ao meu redor. Muitas vezes nos vemos forçados a esconder de onde somos devido a onde moramos, às regras da sociedade, ou a pura discriminação. Vivemos em um mundo onde você pode ser aceito em um canto, e rejeitado em outro. Esse desprezo pelo imigrante faz com que as pessoas vivam com medo de dizer de onde são, e esse medo vira uma profunda rejeição de suas origens nos olhos dos próprios filhos e netos.

Por isso às vezes não escondemos nossas identidades por completo. Muitas crianças americanas filhas de pais estrangeiros vivem se “americanizando”, um termo que abrange as várias escolhas que fazem para se adaptar, incluido rejeitar a cultura dos pais. A falta de aprendizado da língua talvez seja o aspecto mais prejudicial desta rejeição. Quantos adultos já conheci que falam do seu arrependimento de não ter aprendido português na infância, e que se esforçam agora para acompanhar um simples espanhol? Onde a falta de cultura limita sua percepção do mundo, a falta de conhecimento do idioma não permite uma conexão maior com outros falantes da língua. Acrescentando um idioma ao seu repertório se torna mais um modo de pensar, e até de sonhar. 

E essas crianças que só estão expostas ao português em casa? Elas aprendem, mas estão limitadas ao que a família pode ensinar. Alguns pais podem ser ótimos professores, mas também estão na jornada para aprender outra língua. Por isso, as crianças ficam frustradas, e às vezes até com raiva dos pais, por não conseguirem se adaptar à sociedade onde elas vivem, neste mundo onde seus pais viram “estrangeiros” com sotaques e costumes “esquisitos”. Para os amigos viram motivo de piada, um jeito discreto de desvalorizar a cultura de alguém. Chega a um ponto onde a criança se torna alguém diferente dos pais. Essa cultura em comum, entre pais e filhos, podia criar uma relação mais profunda, porém se torna um vão entre as gerações.

Tem gente que consegue aprender a língua e a usa em todo pensamento. Divulgam suas origens sem constrangimento, colando bandeirinhas nas mochilas, cantando suas músicas em alto e bom tom, e montando seu grupinho de amigos de forma coordenada. Às vezes, vale a pena se aproximar de alguém assim, que traz consigo um mundo diferente do seu. E às vezes, não importa o quão abertos estejam, essas pessoas nunca vão entender as suas circunstâncias. Viramos, então, duas pessoas: o obediente filho de estrangeiros que fala a língua materna com os pais e segue seus costumes; e a outra pessoa, aquela criada em frente aos amigos, que aprende outros costumes. Há muito que vivem assim, separando a vida social e a de casa.

Portanto, sendo honesta, a melhor vantagem de ser alguém diferente em outro lugar é aquele momento na hora que achamos pessoas iguais a nós. Quando achamos uma padaria brasileira em terra estrangeira, ou quando alguém solta um “eu te amo” em português à mãe no telefone, no outro lado do escritório. Se isso não for motivo o suficiente para pegar um dicionário e começar a aprender, não sei o que é. Para as pessoas que mudam de país e sentem saudade, esse é o único refúgio da realidade de estar em outro lugar.

O ser humano depende dessa conexão. Por que o mundo começou com os continentes conectados, se não foi para mostrar que a vida só começa quando estamos juntos? Ter uma identidade não é simplesmente um rótulo. É uma forma de definir quem somos. Através da identidade definimos quem fomos e quem seremos.

A identidade é algo complexo e frágil, que varia de pessoa a pessoa. Não tem uma simples equação, nem um roteiro que garanta seu sucesso. É uma coisa só sua. O passaporte pode confirmar sua naturalização brasileira, mas só você define o que isso realmente significa para você.

Texto produzido por Caroline Werner (University of Florida) –, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação.