Crônicas de Copa II – A réplica

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Jorge Moreira Nunes

Rio

Lendo a coluna do Ialdo Belo da semana passada sobre os 120 anos de Copacabana tive uma surpresa agradável ao descobrir que ele e eu tivemos vivências muito parecidas no bairro, e mais ou menos pela mesma época. De acordo com a descrição que o Ialdo faz de Copacabana no tempo em que ele era guri, o colega deve regular a idade aí pela minha, talvez com uns dois anos a mais ou a menos de diferença. Para não comprometer o amigo, abstenho-me aqui de revelar a minha idade…

Embora semelhantes, nossas trajetórias foram opostas no sentido. Enquanto Belo deixou Copacabana por Ipanema e depois foi para o mundo, eu nasci em Ipanema e mudei-me para Copacabana, antes de ir para o mundo. Não sei se o Belo nasceu no Rio, mas dificilmente um carioca diria que a cidade é um cadáver em decomposição, como ele a descreveu em sua crônica.

Minha primeira praia foi o Arpoador, ainda com aquele outdoor da Varig na esquina do Castelinho. Naquele larguinho onde acabava a Vieira Souto havia uma ruína abandonada do que tinha sido há muito tempo um posto dos correios. Hoje, no lugar, parece que fizeram um memorial em homenagem a Millôr Fernandes, o grande ipanemense do Méier. Ali foi implantado para sempre na minha memória o cheiro de maresia, que até hoje é o meu referencial para a proximidade de casa.

A Visconde de Pirajá tinha mão dupla, e por ela passavam os ônibus elétricos azuis e prateados da CTC, com os chifres volta e meia se desprendendo da fiação aérea, parando o trânsito de Simcas, DKWs, Aero-Willys, Citroëns, Romi-isettas e alguns fusquinhas prematuros, que anos mais tarde tomariam de assalto as ruas e estradas do Brasil. O bonde já tinha ido embora, levando com ele para sempre a condição do Rio como Capital Federal.

Subindo a Visconde, havia a TV Excelsior, a igreja da Nossa Senhora da Paz e o Cinema Pax, até a rua terminar no distante (pelo menos para mim) Jardim de Alah, com o canal cheio daquelas flores amarelas flutuando na água. Daí em diante, a Visconde virava Ataulfo de Paiva e era um mistério só. Àquela altura dos acontecimentos, Helô Pinheiro já havia passado a caminho do mar por Tom e Vinícius bebendo no Veloso, e Pery Ribeiro já tinha gravado a canção que a eternizou.

Mas o papo é sobre Copacabana. Lá chegamos um pouco antes do aterro que lhe ampliou a praia e criou o famoso calçadão com desenhos assinados por Burle Marx. A areia do aterro era trazida de Botafogo por uma draga portuguesa, que passava a arrebentação e chegava bem pertinho da orla para despejar sua carga.

Antes do aterro, como lembrou o colega, a pista da Avenida Atlântica era de mão dupla, e por ela passeávamos a bordo do valente Gordini de meu pai, quem sabe alguma vez cruzando com o próprio Ialdo, menino assustado sobre a faixa amarela que dividia a pista, atravessando a Atlântica em direção à praia.

No Leme, onde fomos morar, não havia areia no final da praia. O mar quebrava diretamente sobre as pedras, e nos dias de ressaca as ondas alcançavam a rua, assustando carros e passantes. Eu estudava no colégio que ficava ao lado do Forte. No alto do morro do Leme ainda não tremulava nenhuma bandeira, e o comprido prédio de um único andar do Instituto Pestalozzi era o último da Avenida Atlântica.
Naquele tempo, o Réveillon gigantesco de hoje não passava de uma celebração local para Iemanjá, com os devotos dos terreiros de umbanda montando rodas, levando ao mar suas oferendas à Rainha do Mar e oferecendo passes aos moradores mais chegados à fé, que passeavam pela praia no último dia do ano.

Em mais um sentido inverso ao do Ialdo, do Leme mudamo-nos para o Lido e mais tarde para o Bairro Peixoto, enquanto ele mudava-se do Peixoto para o Lido. Talvez tenhamos nos cruzado no meio do caminho, sem perceber. Mas acho que não.

Desde então, salvo um rápido ano de exílio involuntário em Botafogo, não saí mais de Copa. Fiquei no bairro por mais de trinta anos, até me mudar para os Estados Unidos. De certa forma, ainda continuo lá, porque quando vou ao Rio ora fico no apartamento da minha mãe, ora no da minha irmã, ambos no Bairro Peixoto.

Todas as referências que o Belo pôs na sua ótima crônica apareceram vivas na minha memória, das esfihas e quibes do Baalbeck na Galeria Menescal ao guaraná caçula da Antarctica, passando por uma infinidade de outras recordações, muitas para caberem no espaço de uma só crônica.

Tenho uma lembrança guardada em cada esquina de Copa, numa extensão que vai do colégio em que estudei no final do Leme até o Forte de Copacabana, onde me apresentei ao Exército, do qual aliás escapei por excesso de contigente, como se dizia na época. Entre esses dois polos, vivi cada experiência que Copacabana tinha a oferecer e cresci junto com o bairro, testemunhando todas suas mudanças ao logo do tempo, para melhor ou para pior.

Copacabana sempre teve tantas coisas diferentes para oferecer que viver lá tantos anos me trouxe uma certa experiência de quem correu o mundo, coisa que me ajudou bastante quando saí do país para morar fora. Copa sempre foi um bairro cosmopolita, e quem já morou lá se sente confortável em qualquer lugar.

Essa efervescência cosmopolita trouxe coisas como a Bossa Nova, que nasceu em Copa, nas jam sessions do Beco das Garrafas, para depois florescer em Ipanema e se espalhar pelo mundo. De Copacabana é que vem a energia que fez Caetano descobrir por lá o superamendoim, o espinafre e o biotônico. Copacabana é ao mesmo tempo o purgatório da beleza e do caos de Fausto Fawcett e a princesinha do mar de Dick Farney. Se a garota é de Ipanema, Copacabana é que é a praia mais famosa do mundo, onde os Rolling Stones são apenas mais uma banda a se apresentar.

Também não é por acaso que há décadas músicos, artistas, escritores e boêmios em geral se reúnem na madrugada em torno dos chopes e sanduíches do Cervantes, ou entre as colunas e paredes históricas da Fiorentina. Eles vão para lá sorver essa geleia geral que é o produto mais característico do bairro, o caldo criativo que sai de Copacabana, e que depois de processado tempera o resto do país.
Copacabana já deixou de ser bairro e virou uma personagem, cheia de seus amantes e desafetos, mas que fascina a ambos igualmente. Esse fascínio é uma das razões que atraem centenas de milhares de pessoas de todos os lugares do mundo, para buscar a bênção no nosso mar todo final de ano, no maior Réveillon do planeta. É o que faz com que nossa praia seja a mais lembrada entre todas do mundo e considerada o maior referencial turístico do país.

Ao contrário do colega Belo, não acho que o bairro esteja decadente. Copa está em eterna transformação e em permanente reinvenção de si mesma. Oscila entre altos e baixos, mas segue inexoravelmente para cima, como o preço das quitinetes das cabeças-de-porco, que hoje valem quase tanto quanto um estúdio em Manhattan. É difícil imaginar que uma região assim tão valorizada esteja em decadência, mas cada um faz a própria lógica de acordo com a sua conveniência.

Não conheço a história das descargas simultâneas que o Belo citou na sua crônica, mas imagino que as consequências de todas as descargas sendo acionadas ao mesmo tempo em Copacabana seriam muito menos catastróficas do que em bairros ou cidades onde o mar não alcança, por exemplo. Porque no mar de Copacabana tudo se dissolve, incluindo a urina dos turistas que a invadem todos os anos, e de cujo cheiro o nariz refinado do querido Ialdo se queixa quando ele passa por Copa. No mar de Copacabana se dissolvem todas as mágoas e ressentimentos, mesmo daqueles que o traíram um dia.

Para terminar, enquanto o colega Ialdo acha que, assim como a lua, o Rio só é lindo de longe, eu vejo a cidade cada vez mais maravilhosa à medida que a conheço mais. E minha alma, assim como a de Jobim, sempre canta quando vejo o Rio de Janeiro. De longe ou de perto.