Livros!

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“Mr. Scrotenson entra em seu escritório, um ambiente sóbrio com móveis de mogno e sofá revestido de veludo azul escuro. Sua secretária, Mrs. Zambers, traz em seguida uma xícara de chá – Earl Grey, e o jornal que fora entregue há poucos minutos pelo seu fiel mordomo Zycknosky, um imigrante da Bulgária cujos pais haviam fugido da guerra. “

Quando li meu primeiro livro da Agatha Christie – O Assassinato de Roger Ackroyd–eu demorei a conseguir gravar os nomes dos personagens e compreender o tanto de descrições dos ambientes. Os detalhes eram tantos que no fim acabei me transportando àqueles locais, um dos pontos fortes da autora.

Da mesma forma que não consigo gravar na memória todos os detalhes de filmes, o mesmo acontece com livros. Posso ler mais de uma vez o mesmo livro e não sei se é o déficit de atenção ou um bloqueio automático que me impede de lembrar dos detalhes das tramas – e dos nomes dos personagens…

Quando meus olhos eram mais jovens (eu ainda não envelheci, eles sim) eu lia mais livros, e como sempre digo, parei quando os livros começaram a ser impressos em letras embaçadas.

Há muitos anos que eu não lia um livro sequer, como muitos de nós, a tecnologia nos arrastou para a preguiça e o imediatismo das informações curtas providas pelas redes sociais ou pelas infinitas mensagens enviadas por tiozinhos em grupos de WhatsApp (todas checadas e reais, afinal estavam na internet).

Como eu iria fazer uma viagem longa entre a Itália e a Califórnia, eu resolvi comprar um pocket book no aeroporto de Milão, Miss Marple e Os 13 Problemas. No fim eu dormi o voo todo e nem li o livro na viagem – mas ao voltar para a Itália me forcei a lê-lo (“lê-lo-ei”, como diria Michel Temer). Não uso óculos para ler de perto, mas preciso de muita luz, então instalei uma luminária forte sobre a cabeceira a cama.

Sempre li livros de uma vez só – no máximo em duas ou três vezes, mas nesse caso eu demorei uma semana lendo. Como estava frio à noite, eu lia deitado sob cobertas e só com uma mão de cada vez segurando o livro enquanto a outra mão ficava debaixo do meu traseiro esquentando, ai eu trocava quando precisava virar as páginas.

Se os livros da Agatha Christie com uma história só têm vários nomes de personagens, difíceis de gravar, imagine um livro com treze histórias diferentes? Meu estado normal de desatenção me faz reler a mesma página diversas vezes, e nesse livro em especial eu acho que pulei algumas páginas. Trocentos nomes diferentes, tanto de pessoas como de lugares – só memorizei o nome da Miss Marple.

A questão é que acabei pegando gosto novamente e saí para comprar um livro no shopping center aqui na Itália. Voltei com um Kindle da Amazon – já que gosto de tecnologia, por que não unir as duas coisas? E o melhor de tudo, o aparelho tem luz, tamanho e tipos de fontes variáveis, o que ajuda bem na leitura – e usando o suporte que eu tinha em casa, dá para ler com o aparelho sobre meu peito e posso esquentar as duas mãos sob meu traseiro.

Comprei outro livro da Miss Marple na Amazon – só custou US$1.90, Um Corpo na Biblioteca. Menos personagens, mas meio chatinho – eu li todos os livros do Hercule Poirot, mas poucos da Miss Marple. São ritmos diferentes, e apesar da Agatha Christie ter dito que gostava mais da Miss Marple, eu prefiro o Poirot.

O Kindle já existe há muitos anos, mas só agora que eu peguei um na mão – não é que o negócio é muito legal mesmo? Além das vantagens que disse acima, da possibilidade de aumentar a fonte e a luminosidade do fundo, há uma função fantástica: quando se toca uma palavra, um dicionário abre com a explicação da mesma! Alguns dos livros da Agatha Christie foram escritos há mais de um século, portanto ela faz o uso de expressões arcaicas e cujo significado desconheço. Comprei o livro em inglês e considero que meu vocabulário seja excelente – mas que cuernos significa “alacrity”? Toquei na palavra e o dicionário disse que vem do latim alacritas e significa mais ou menos “felicidade com êxtase”. Viu? Mais uma palavra em inglês para eu dificilmente lembrar do significado ou usar em uma conversa!

Li o livro bem mais rápido, e comecei a ler ontem O Assassinato de Roger Ackoyd – que é de graça para quem tem Prime na Amazon, outra vantagem desse sistema.

Ah, não sei se lembrarei bem do livro da Miss Marple daqui um tempo, mas se não me engano, quem matou foi o Coronel Mostarda, com o candelabro na biblioteca.