Na Lisboa dos Maias

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Perto do café A Brasileira, no Chiado, fica a livraria Bertrand, a mais antiga do mundo ainda em funcionamento. Quando em Lisboa, há alguns anos, passei por lá para comprar uma edição de Os Maias, já que a original da família estava no Rio e eu queria uma na estante da minha casa na Flórida. Nada mais ‘chic a valer’, como diria o pernóstico Dâmaso Salcede, que comprar um exemplar na livraria mais antiga do mundo na própria cidade que serviu de cenário para o romance mais épico do Eça.

Não só o comprei como comecei a reler o livro, e por diversão associá-lo à cidade. Caminhando pelo Rossio, olhava a fachada dos prédios e imaginava onde ficaria o consultório de Carlos, ou de que loja da Baixa teria saído Maria Eduarda com seu cãozinho quando impressionou pela primeira vez o médico e seu amigo Craft. Buscava nas ruas de Janelas Verdes alguma pista de onde ficaria o Ramalhete, o palacete onde os Maias moravam e recebiam seus amigos para noitadas de bilhar, conversas e saraus ao som do piano do Cruges e os poemas do Alencar. Na direção oposta, subindo o rio para as bandas do Parque das Nações, me perguntava onde se esconderia o Ninho, refúgio de amor de Maria Eduarda e Carlos. Ia assim tentando recriar na imaginação a Lisboa antiga dos Maias.

No meio desse jogo me dei conta de que obviamente nunca houve consultório ou Ramalhete algum e que Maria Eduarda jamais saiu de loja alguma com seu cãozinho, mesmo porque ela e Carlos da Maia nunca existiram. O Ninho, por sua vez, nunca recebeu ninguém, porque também nunca existiu, e assim por diante. Mas me dei conta também do quanto é poderosa a prosa do Eça, que é capaz de nos fazer perceber personagens de um modo tão concreto que eles acabam nos aparecendo como se fossem feitos de carne e osso.

Meu pai e eu tínhamos essa mesma percepção e por vezes falávamos de personagens, como João da Ega, por exemplo, como se fossem reais, de tanto que nos envolvíamos com eles pelos livros. Uma das nossas passagens preferidas em Os Maias era uma certa festa à fantasia, onde o Ega compareceria vestido de Mefistófeles, mas acabou não indo por causa de um problema inesperado. Volta e meia lembrávamos dessa passagem divertida e o João aparecia mais vivo para nós do que o próprio Eça.

Essa mágica da literatura me impressionou desde o meu primeiro livro, e ficou mais forte depois da primeira leitura de Os Maias, há mais de quarenta anos. Adolescente, olhava os livros na estante e podia sentir adormecidos os milhares de personagens, situações, dramas e comédias que de repente viriam à vida assim que alguém os tirasse do limbo das prateleiras. Nos Maias, essa impressão foi mais forte, e me lembro da curiosa sensação que tive ao repor o livro de volta na estante depois de terminada a leitura, como se retornasse todo aquele mundo rico ao seu limbo, até que alguém o despertasse numa nova leitura.

Relendo Os Maias, em Lisboa, pouco importa que Carlos, Maria Eduarda, João da Ega e todos mais nunca tivessem existido. Eles estão vivíssimos nas minhas lembranças.