O ano da virada

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Opinião

Ano novo, vida nova, só o resto continua mais do mesmo. Enquanto o frio glacial açoita o norte do país em proporções bíblicas, nosso malvado favorito da Casa Branca começou o ano em aparente estado de bom humor, ao afirmar através de seu inseparável Tweeter, que seu botão nuclear é maior do que o do malvado favorito da Coréia do Norte. Gracinhas a parte, a batata de Trump continua assando a todo vapor e deve ficar pronta pra descascar assim que as investigações acerca do conluio de sua campanha com a Rússia terminem, ou qualquer outro escândalo aconteça, o que vier primeiro. O fato é que ninguém está disposto a passar pelo sacrifício de ter de assistir ao tradicional discurso sobre o estado da união, agora em janeiro. O que deveria ser uma celebração das vitórias administrativas do governo e um otimista prognóstico para este ano periga se assemelhar mais a um obituário, seguido de uma releitura do livro do Apocalípse.

A bem da verdade, tudo o que não está ligado às políticas do governo Trump avançou a passos largos no último ano. Transgêneros obtiveram mais reconhecimento, predadores sexuais do ato escalão perderam seus privilégios e eleitores rejeitaram propostas retrógradas, como na apertada eleição especial no Alabama. Em contrapartida, os Estados Unidos estão a um passo de retornar a idade média em matéria de iniciativas do governo. Agora mesmo, demonstrando que na verdade ele queria mesmo era ter o mesmo poder de seu equivalente na Coréia do Norte, Trump batalha vigorosamente para censurar um livro que fala mal de sua administração.

Mas o ano é de eleições, tanto nos EUA quanto no Brasil. O futuro e consumação do sucesso do golpe que foi instaurado no nosso país será decidido bem antes dos pleitos pois a partir do julgamento em segunda instância de Lula é que vai se definir a disputa presidencial, seja ele condenado ou não. Caso seja condenado, significa que o golpe está consolidado e o que vai acontecer depois disso é o amargo regresso do Brasil aos tempos do Estado Novo, quando tudo era belo e maravilhoso, só que não. O governo golpista atual investe rios de dinheiro em propaganda que promove um país de faz-de-conta, dando a entender que a economia está progredindo mas não é o que se vê. Estados estão falidos, sem dinheiro para quitar folhas de pagamento, segurança e saúde entregues às baratas. Viver no Rio de Janeiro é mais perigoso que na Síria ou Faixa de Gaza. A máxima de Tom Jobim, de que a saída para o Brasil seria o aeroporto, nunca foi tão precisa.

Voltando aos EUA, não é preciso ter poderes mediúnicos para prever que as eleições desse ano para o Congresso e alguns governos de estado irão enterrar de vez as perspectivas do partido Republicano em se manter na maioria do governo. Bastou um ano de governo Trump para inviabilizar qualquer proposta séria que o partido possa ter para continuar existindo. Corre o perigo do partido Democrata se tornar dois para comodar quem não quer ser associado ao lado negro da força

Fora tudo isso, não é de bom agouro começar o ano sendo pessimista. Tudo bem que 2015 não foi lá essas coisas, 2016 pior ainda e 2017 nem se fale mas as probabilidades estão a nosso favor e este promete ser o ano da virada, algo como terceiro episódio de trilogia Star Wars, quando os cavaleiros Jedi acordam pra vida. Precisamos parar de acreditar que nada possa ser tão ruim que não possa piorar mais ainda e, principalmente, precisamos parar de dar ouvidos a quem diz que no fundo desse poço tão profundo ainda possa ter um alçapão.