Retrato do imigrante ilegal

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Opinião

Por Franz Valla*

Em meio a tantas tensões e velhas feridas abertas pelo até aqui desastroso início de governo Trump, chama atenção a atitude desafiadora de uma jovem do Arizona, que postou um desabafo no seu perfil social contra a onda de perseguição aos imigrantes.

De origem argentina, a estudante é uma “Dreamer”, protegida por hora pelo DACA, do governo Obama e não sendo, portanto, totalmente uma cidadã ilegal. Na postagem, exibe seu formulário 1040, declaratório de imposto de renda, para mostrar que não vive às custas do Estado e ajudar a derrubar o mito de que imigrantes fogem do leão. Ela afirma, na postagem, estar em dia com suas obrigações tributárias, apesar de “não gozar de nenhum benefício concedido a cidadãos legítimos”, e termina por desafiar Trump a divulgar seu imposto de renda.

Por um número de razões, a postagem viralizou mas o que fez a mídia tradicional abrir espaço a este fato foi o número elevado de agressões, insultos e ameaças promovidos por comentários de “haters” na postagem. Uma rápida passada de olhos pelas respostas e fica claro que em sua maioria são bem tenebrosos, mesmo os dissimulados e seus perpetradores não se preocupam nem ao menos em ocultar a identidade. Tratam-se de pessoas que se julgam “honestas’, “do bem”, “temente à Deus” e por isso mesmo se sentem legitimadas para proferir todo tipo de ameaças, notadamente desprovidos de um mínimo de esclarecimento.

Em sua maioria são realmente pessoas de bem, que reagem por instinto a um sentimento de ameaça e medo. Suas emoções são criteriosamente manipuladas por fontes dissimuladas e incendiárias, estas sim, invisíveis.

Não, não estamos falando de teorias da conspiração mas de uma realidade. Em tempos de internet ficou ainda mais fácil fazer uso da estratégia milenar de manipular as paixões coletivas. A história é farta de exemplos e estamos sempre a repetir isso. Para se ter um exemplo, imagine que ao retornar de uma viagem de férias você não vai gastar um segundo sequer para escrever algumas linhas de boas recomendações ao hotel em que ficou hospedado, mesmo tendo a intenção de fazê-lo, mas basta uma fila prolongada para fazer o check-in ou uma cobrança indevida em seu cartão de crédito para que você passe a noite denunciando o estabelecimento pelo internet afora. Junte uma legião de insatisfeitos como você e está armado o linchamento.

Voltando à vaca fria, mas por que imigrantes se tornaram o vilão da hora no cenário político americano? O assunto nunca foi um problema, mas uma solução para a economia. Por que então Trump basicamente se elegeu no topo da plataforma de deportar uma parcela considerável da população mesmo sem nada mais consistente para oferecer?

O tema é deveras complexo e há vários fatores que apontam para a fácil vilanização do imigrante como escapismo para diversos problemas e seu uso político.  Para começar, a imigração ilegal saiu da pauta de crimes comuns para a agenda política no momento em que as estatísticas começaram a apontar para o fato que em algumas décadas a população branca se tornará uma minoria, ameaçando assim o monopólio de mercado de certas indústrias e do próprio “establishment”, alterando a identidade cultural americana. Segundo que pelo fato de serem ilegais, não votam e, portanto, aparentemente não tem voz política. Terceiro que por serem tão segmentados, não dispõem de lideranças identificáveis e daí ser fácil de atingi-los como grupo. Quarto, e não menos importante, com quem mais a galera WASP pode praticar o bullying desde que se tornou crime federal ofender afrodescendentes?

Destemida, a moça do Arizona deu o seu recado, de forma desinibida, sem necessariamente buscar os holofotes, num genuíno desabafo. Talvez irrite mais ainda aos “haters” o fato de se tratar de uma bela jovem, produtiva, inteligente e que em nada lembra o arquétipo de sofrido trabalhador braçal, atribuído ao típico imigrante ilegal. Ou ainda por ela se apoiar no sagrado formulário 1040, quase uma instituição para os americanos que o julgam tão sagrado quanto a Bíblia. Corajosamente, ela não apagou seu perfil e em resposta ainda ostenta links para a boa receptividade da mídia.

Quem sabe o imigrante ilegal passe a ter uma cara, ou pelo menos uma musa?


*Franz Valla é jornalista e produtor cultural com passagem por vários veículos, incluindo o Jornal do Brasil, aonde atuou como correspondente em Nova York. Os desdobramentos da política e seus impactos na sociedade alimentam essa coluna, além dos últimos assuntos da hora.