Imigração Manchete

Mulheres sofrem abortos em centros de detenção do ICE

Documentos governamentais indicam que a agência perdeu o controle dos registros e das estatísticas de abortos espontâneos em suas instalações desde o final de 2025

O estresse físico e psicológico induzido pelo encarceramento, somado à privação de vitaminas pré-natais e à dieta inadequada, cria um ambiente de alto risco para a gestação (Foto: Freepik)
O estresse físico e psicológico provocado pelo encarceramento, somado à privação de vitaminas pré-natais e à dieta inadequada, cria um ambiente de alto risco para a gestação (Foto: Freepik)

Denúncias apontam que falhas de monitoramento, escassez de atendimento médico e episódios de negligência fazem parte da rotina de mulheres grávidas sob custódia do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE). Documentos governamentais obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (FOIA) indicam que a agência perdeu o controle dos registros e das estatísticas de abortos espontâneos em suas instalações desde o final de 2025.

A interrupção no rastreamento coincidiu com a transferência da gestão de saúde dos centros de detenção para a empresa terceirizada Acentra Health. Antes da suspensão, registros apontavam ao menos 18 perdas gestacionais no início daquele ano. A ausência de métricas consolidadas gerou reação de entidades de defesa dos direitos humanos. A empresa não se pronunciou sobre as falhas.

“O ICE não perdeu a conta por incompetência administrativa; o apagão de dados serve para mascarar a crueldade sistemática e o impacto real dessas políticas de detenção na saúde das mães. Se você não conta os abortos, legalmente eles deixam de existir como uma crise de saúde pública”, afirmou Erika Andiola, diretora de comunicação da Rede de Serviços de Educação e Advocacia para Refugiados e Imigrantes (RAICES).

Por trás dos números ocultos estão histórias como a de Maria (nome fictício), de 24 anos, que cruzou a fronteira sul em busca de asilo e acabou detida em um complexo terceirizado no Texas. Grávida de dez semanas, ela relatou aos advogados da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) que gritou por socorro quando começou a ter fortes cólicas e sangramento, “mas as guardas diziam que era exagero e mandavam beber um pouco de água”.

“Fiquei mais de 24 horas sangrando no chão, sentindo uma dor insuportável, sem qualquer exame médico ou remédio. Quando finalmente me levaram ao hospital, o coração do meu bebê já não batia mais”, lamentou.

Relatórios da Physicians for Human Rights apontam que o uso de algemas e correntes em gestantes é frequente em unidades no Texas e em Nova Jersey. As medidas violam as próprias diretrizes internas estabelecidas pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) em 2021, que proíbem o uso de algemas em grávidas ou no pós-parto, exceto em circunstâncias extremas de segurança.

“Documentamos casos de pessoas que foram transportadas para hospitais com algemas nos pulsos e correntes nos tornozelos enquanto estavam em processo ativo de aborto espontâneo”, afirma o Dr. Donald Kerwin, especialista em saúde de populações migrantes.

As investigações ainda expõem a prática de deportação rápida de gestantes com “abortos retidos”, condição em que o feto morre no útero, mas não é expelido. A Women’s Refugee Commission identificou dezenas de mulheres enviadas de volta à América Central sem que tenham recebido medicação adequada ou passado por procedimentos cirúrgicos. Pesquisadoras do Center for American Progress (CAP) e da National Partnership for Women & Families identificaram que o endurecimento da política migratória expõe mulheres a sérios riscos, com demoras recorrentes para atendimento hospitalar externo e escassez de médicos obstetras.

Uma jovem hondurenha relatou ter sido deportada dois dias após receber o diagnóstico de óbito fetal em um centro de detenção no Arizona e desmaiou ao desembarcar devido a uma infecção generalizada.

“Fui colocada num avião de deportação sentindo calafrios e febre. Quando desembarquei em San Pedro Sula, desmaiei no aeroporto. Fui levada às pressas para o hospital com uma infecção generalizada. Quase morri porque queriam se livrar do problema antes que eu piorasse lá dentro”, reportou a imigrante.

Em nota oficial, o DHS e o ICE rebateram as acusações e afirmaram seguir rigorosamente os Padrões Nacionais de Detenção, garantindo triagem médica nas primeiras 24 horas e acompanhamento pré-natal contínuo.

Com informações de The Guardian, The 19th, RAICES e National Partnership for Women & Families.

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