A despedida de Rui Martins e seu legado

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*Aloysio Vasconcellos

O afastamento voluntário de Rui Martins de suas atividades públicas por tempo indeterminado surpreendeu a todos que vivenciam e se dedicam à causa emigratória brasileira. Jornalista veterano, como emigrante brasileiro vivendo na Europa notabilizou-se pela defesa dos interesses da comunidade brasileira no Exterior. Primeiramente pela campanha bem sucedida ‘Brasileirinhos Apátridas’, que recuperou a nacionalidade brasileira nata para os filhos dos emigrantes. E depois pela obtenção da legítima representação política, em todos os níveis no Congresso Nacional, aos brasileiros emigrantes, através de deputados e senadores emigrantes, eleitos por emigrantes que os representem condignamente em Brasília, além de outras reivindicações diretas visando o melhor tratamento e assistência aos brasileiros que vivem fora de casa.

Recentemente, por ocasião do I Fórum do Emigrante realizado em Berna, na Suíça, tive o prazer de conhecer pessoalmente Rui Martins, e participamos dos três dias do evento, assim como uma nova geração de brasileiros emigrantes interessada na solução dos problemas que atingem a todos e no reconhecimento de uma realidade brasileira no Exterior. Uma realidade desconhecida pela maioria dos brasileiros que vive em nosso país, bem como pelas autoridades constituídas, impregnadas por uma visão de curto prazo, premidas que são pelos inúmeros problemas que compõem o dia-a-dia da sociedade brasileira.

Destarte, o establishment brasileiro não se sensibiliza por não ver ou não saber que os brasileiros no Exterior, com sua população entre 3 e 3.5 milhões de pessoas constitui-se na terceira maior cidade brasileira (virtual), com uma renda per capita rivalizando ou superando a maior do Brasil. Não sabem que o comércio brasileiro no Exterior é vigoroso, recebendo quase diariamente novos parceiros brasileiros, sob a forma de investimento ou atuação direta nos mercados; que em sua atuação o comércio é constante gerador de empregos nas comunidades, para brasileiros e estrangeiros; que a cada dia mais e mais profissionais de diversas áreas, notadamente na de saúde, brasileiros procuram o destino das comunidades para aqui no Exterior exercerem suas profissões; que uma segunda geração de brasileiros, filhos dos pioneiros, já se formou no Exterior, ou está chegando à maioridade. Em breve, esses filhos de brasileiros ingressarão em universidades do Primeiro Mundo, portanto, fora do Brasil. Não sabem que além de nossas fronteiras organiza-se e evolui um outro Brasil, pujante, rico e cumpridor de seus deveres, pois eivado de éticas de trabalho testadas e vitoriosas através da História; e não sabem, por fim, que os brasileiros no Exterior, apesar das desigualdades vivenciadas em seu país de origem, amam e orgulham-se de suas raízes.

Tudo isto, conciliar e compor, é o sonho que o Rui Martins nos deixa. Levantar sua bandeira (e por que não burilá-la, trazendo-a mais para o centro) é certamente uma das tarefas de seus seguidores, dentre os quais destaca-se a figura de Edmar da Rocha, jovem e brilhante acadêmico, Ph.D. em Política Social pela Universidade de Milão, atualmente professor na tradicional London School of Economics and Political Science. Ele, seguramente, saberá liderar e encaminhar de forma vigorosa, inteligente e moderna o trabalho já iniciado.

O II Fórum do Emigrante, planejado para os dias 23 e 24 de agosto próximo, em Londres, para o qual fomos gentilmente convidados a presidir uma de suas sessões, deverá ser o ambiente onde se fortalecerão os laços de apoio à causa de maior aproximação ao emigrante brasileiro e uma composição entre o Brasil e o Brazil. Como em todas atividades humanas, há pontos de interesse e visões diferenciadas. A criação da Secretaria dos Emigrantes é um deles. Desta discussão e de sua subsequente elaboração de princípios, acreditamos, deve participar o Itamaraty, entidade brasileira que, indiscutivelmente, detém experiência e conhecimento dos negócios exteriores. A união dos esforços somente beneficiará a todos, abrindo os caminhos para uma intensa e vibrante comunidade brasileira emigrante, integrada com nosso país de origem, sempre trabalhando em prol de nossa nacionalidade.

*Aloysio Vasconcellos é Chairman da
Brazil International Foundation
Boca Raton, Flórida