A droga institucionalizada

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Por Antonio Tozzi

Oxycodin, percovet, vicodin. Estes são alguns dos medicamentos fabricados por respeitados laboratórios farmacêuticos e vendidos apenas sob prescrição médica. Entretanto, estes remédios para combater a dor vêm tendo seu uso desvirtuado na Flórida onde se criou uma verdadeira indústria de comercialização de drogas legais para usos ilegais.

Para se ter uma ideia, os médicos da Flórida são responsáveis por prescrições de receitas de roldão. Como efeito de comparação, o Estado é o que mais emite prescrições destes medicamentos na Costa Leste dos Estados Unidos e, de acordo com dados do Departamento de Saúde dos EUA, as receitas destes potentes medicamentos na Flórida são tão volumosas que o Estado sozinho é responsável por dez vezes mais receitas do que todos os outros estados americanos juntos.

Evidentemente, esse disparate chamou a atenção das autoridades, que têm procurado vigiar mais de perto as atividades dos médicos e das chamadas painkillers clinics, nas quais é possível obter os medicamentos com pouco esforço. O atual governador da Flórida, Rick Scott, elegeu o combate a estas clínicas como uma das prioridades de seu governo e em seu primeiro ano de mandato a polícia intensificou as ações para inibir este tipo de comércio.

Recentemente, a polícia prendeu dois irmãos com menos de 30 anos e a mãe em West Palm Beach após ter descoberto que eles operavam uma clínica para aliviar a dor e forneciam até mesmo medicamentos aos pacientes. Nenhum deles tinha formação médica, mas exibiam sinais ostensivos de riqueza.

Mesmo médicos diplomados resolveram aderir ao esquema do dinheiro fácil distribuindo receitas destes medicamentos como se fossem pães quentes. Resultado: foram presos, processados e perderam suas licenças profissionais.

O esquema é tão sedutor que inclusive alguns policiais decidiram se arriscar. Esta semana foi preso o policial Kevin Pisano, de 50 anos de idade, que trabalhava em Fort Lauderdale, no sul da Flórida, por ter sido autuado com uma grande quantidade de comprimidos de percovet e vicodin, com o objetivo de comercializá-los.

Em julho deste ano, foi preso o policial David Britto, de 28 anos, que integrava o Departamento de Polícia de Boynton Beach, também no sul da Flórida. O rapaz, que nasceu no Brasil e possui dupla cidadania, pagou a fiança para responder ao processo em liberdade, mas decidiu arrebentar a tornozeleira eletrônica de monitoramento e fugir para o Brasil a fim de não ser julgado pelo tribunal por tráfico de drogas.
O plano, entretanto, não funcionou muito bem, porque sua mãe, que também tem dupla cidadania, comprou a passagem de volta para o filho, que embarcou para Brasília em agosto. Ela, porém, foi pega no Aeroporto Internacional de Nova York quando tentava embarcar para São Paulo, no início de setembro, por agentes do DEA – a polícia federal dos EUA responsável pelo combate ao narcotráfico. Julgada no mês passado, foi condenada a um ano na prisão por ter sido cúmplice da fuga do filho e por ter mentido aos agentes federais, além de três anos de liberdade condicional.

Como se vê, isto se tornou uma epidemia no Estado, ganhando proporções enormes. Tanto que a CVS, uma das maiores redes de farmácias do país, decidiu por conta própria comunicar a todos os médicos do Estado que a partir de 5 de dezembro não está mais aviando receitas destes medicamentos na Flórida. É uma tentativa de frear o uso indiscriminado de medicamentos potentes que vêm sendo utilizados para dar barato.

Isso prova que o problema não é o produto, mas, sim, a maneira como ele é usado. A mente humana é uma incógnita e certos indivíduos apenas acreditam que podem funcionar com algum tipo de aditivo químico. A consequência deste abuso todos sabem qual é para o usuário: hospital, prisão ou cemitério.