A questão imigratória ganha as telas do cinema e chama a atenção

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Filmes sobre o assunto estão em cartaz no Brasil e nos EUA, misturando ficção e realidade

A questão imigratória nos Estados Unidos é o pano de fundo de dois filmes que estão em cartaz na América e no Brasil, incomodando uma ferida ainda aberta tanto para os cidadãos quanto para os indocumentados. Um destes longas é ‘Olhos Azuis’, do cineasta paraibano José Joffily, que foi exibido pela primeira vez aqui no Festival do Cinema Brasileiro de Miami e trata sobre o ingrato processo de triagem do serviço de imigração americano. O outro, que acaba de estrear nas salas de projeção aqui do país, tem direção do renomado Robert Rodriguez, um mexicano que há muito tempo faz sucesso em Hollywood. Em sua obra, ‘Machete’, Rodriguez aborda, com certa dose de ironia, a corrupção nos postos de entrada na fronteira.

No caso do filme brasileiro, Joffily admite que algumas das situações vividas pelos personagens são inspiradas em fatos reais, especialmente com o que aconteceu a um de seus amigos, impedido de entrar na América há alguns anos. “Para dizer a verdade, casos assim são mais comuns do que se pode imaginar, até porque o sistema de entrada de estrangeiros nos Estados Unidos é regido por um processo completamente aleatório e preconceituoso”, afirma o diretor. “Olhos Azuis” conta a história de um nordestino que, depois de uma visita ao país natal, retorna aos Estados Unidos onde mora, mas é barrado pelo serviço de imigração no aeroporto JFK, em New York, justamente no seu último dia de trabalho antes da aposentadoria.

Na tela, Irandhir Santos é o ator que interpreta o brasileiro interrogado por um oficial da imigração. Coincidência ou não, todas as pessoas na chamada ‘salinha’ do aeroporto são latinos. “Quando se chega aos Estados Unidos, você é separado por categorias: americanos, europeus, e as pessoas do resto do mundo. O preconceito já começa aí”, ressalta Joffily, acrescentando que os jovens são os que mais sofrem com essa postura, pois todos são vistos como “imigrantes ilegais em potencial”. O oficial americano é o papel de David Rasche, que inclusive visitou alguns pontos de entrada nos estados Unidos para compor o personagem. O filme ganhou o prêmio principal no Festival de Paulínia e aqui em Miami faturou duas ‘Lentes de Cristal’: A de melhor fotografia e a de melhor ator, com Irandhir Santos.

Já ‘Machete’ faz graça da paranoia americana em relação à fronteira. O protagonista é um mercenário mexicano – Danny Trejo, um ex-detento na vida real – que é uma espécie de Robin Hood dos indocumentados. No elenco, nomes de peso como Robert De Niro, Steven Seagal e Jessica Alba.

“Queria um filme que trouxesse para o grande público essa questão cada vez mais séria nos Estados Unidos que é o tratamento dado aos imigrantes. Não sei se as leis estão certas ou não, mas precisamos de debates e não de atitudes radicais”, disse o diretor. Entre as cenas de destaque está uma em que Machete ataca um político conservador no Texas porque este estava ultrajando os indocumentados mexicanos na fronteira. “Creio que as pessoas vão concordar ou discordar, conforme suas impressões do assunto”, acrescentou Rodriguez
Nesse sentido, é bom que o público entenda que o tema é colocado de forma até debochada. No melhor estilo ‘cinema é a maior diversão’, o filme fala sobre imigração, corrupção e preconceito, mas não deixa de ser um blockbuster americano, criado para levar multidões às salas de projeção com cenas de muito sangue e ação. “Temos que criar personagens como Machete para resolver os problemas que não podem ser resolvidos na vida real”, brinca o diretor de Rodríguez.

Mas o resultado do fim de semana de estreia do longa foi aquém das expectativas. O motivo pode ser o timing em que o filme chegou às telas: ‘Machete’ não deixa pedra sobre pedra em relação à violenta realidade da fronteira entre Estados Unidos e México, marcada pelo narcotráfico, guardas locais violentos e políticos corruptos, exatamente uma semana depois do massacre de 72 imigrantes por um cartel das drogas.