A reforma imigratória

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Antonio Tozzi

O ano de 2013 começou auspicioso para os imigrantes indocumentados que vivem nos Estados Unidos. Depois de muito tempo de penação, parece que os tempos de bonança estão chegando.

Após a cerimônia de sagração de Barack Obama como presidente reeleito do país, o mandatário elegeu a reforma imigratória dos Estados Unidos como um de seus carros chefe como uma realização de seu governo, ao lado de um controle mais rígido de armas de fogo de grosso calibre e maior assistência às pessoas com problemas mentais.

Se ele colocar o mesmo vigor posto na aprovação do sistema de saúde universal em seu primeiro mandato, batizado maliciosamente pelos adversários de “Obamacare”, não há dúvida de que finalmente o país apagará esta nódoa de ter cidadãos de segunda classe vivendo à margem da sociedade e sendo maltratados por não terem direito a reclamar de nada, sob pena de serem deportados.

Pelas demonstrações e discursos, tudo indica que o presidente da República quer saldar esta dívida com boa parte dos seus eleitores, sobretudo o eleitorado formado pelos latinos, que sempre tem lutado pela aprovação de uma reforma imigratória justa e abrangente, que também possibilite aos beneficiados obter a residência permanente, num primeiro momento, e a cidadania posteriormente.

Afinal, como o próprio presidente frisou em seu discurso realizado esta semana em Las Vegas, todos os que aqui vivem são, de alguma forma, descendentes de imigrantes, com exceção dos índios nativos, cuja população foi praticamente dizimada. Os europeus vieram para cá a fim de colonizar a nova terra, os negros foram trazidos à força da África para serem escravizados e depois integrados à sociedade americana e, agora, chegou a vez dos latino-americanos, cujo objetivo, para a maioria deles, é somente trabalhar honestamente e dar melhores condições de vida para a família. Ou seja, o sonho dels nada mais é do que o sonho dos demais que já estão incorporados ao modo de vida dos EUA.

Claro que não se pode tirar a razão dos opositores daquilo que eles chamam de “anistia”. Na verdade, as pessoas que aqui vivem ilegalmente chegaram aos Estados Unidos de maneira subreptícia via fronteira do México ou através do mar ou aqui permaneceram além do tempo determinado pelo Serviço de Imigração dos Estados Unidos, caracterizando uma infração às normas do país. Entretanto, é impossível querer deportar mais de 11 milhões de pessoas que já criaram raízes aqui.

O bom senso aponta para uma solução de exceção, regularizando a situação desses indocumentados, ao mesmo tempo que se cobra deles o cumprimento de alguns parâmetros básicos para que obtenham o almejado benefício. Eles precisam pagar uma multa por terem violado as leis do país, demonstrar que nunca foram uma ameaça à segurança pública ou nacional dos EUA, aprender a falar inglês e outras coisas do gênero a fim de demonstrar que estão prontos para serem absorvidos pela socieade americana.

Mais do que absorvidos, o que se espera é que muitos destes imigrantes e sobretudo seus filhos podem contribuir de fato para a melhoria do país. Afinal, eles já estão integrados à cultura americana e ao modo de pensar do americano. Dentre eles, podem surgir cientistas, engenheiros, médicos, empresários, enfim, todo tipo de profissional que conhece os anseios da sociedade americana e ainda traz consigo a herança de seus pais e avós que vieram de outros países.

Os opositores lembram que uma “anistia” pode repetir o ocorrido em 1986, quando o então presidente Ronald Reagan assinou uma lei de autoria dos parlamentares Simpson e Mazzolli que exatamente concedia anistia aos indocumentados e alertava que isto livraria o país dos ilegais. Agora, quase 30 anos depois, os Estados Unidos convivem com cerca de 11 milhões de pessoas fora do status legal.

É importante frisar que o mundo evoluiu muito neste período, sobretudo na tecnologia. Hoje, os controles estão mais rígidos, os acessos aos bancos de dados são instântaneos e as fronteiras estão bastante reforçadas, tanto em termos de proteção física (muros e cercas), como tecnológica, com recursos sofisticados, e de material humano. Barack Obama mais do que dobrou o efetivo dos agentes da Patrulha de Fronteiras da época de George W. Bush, que totalizava cerca de dez mil.

Além disto, o governo de Obama se notabilizou por ter sido aquele que mais duro jogou contra os ilegais pegos pelo ICE (a polícia da imigração). Em média, foram deportados cerca de 400 mil pessoas anualmente, para demonstrar que o governo não tolera a presença de imigrante ilegais indesejados nos EUA. Claro que dentre eles alguns inocentes pagaram um alto preço por terem sido pegos dirigindo sem carteiras de habilitação válidas.

Finalmente, há o aspecto político. Os parlamentares republicanos que vêm sistematicamente opondo-se a uma reforma imigratória abrangente começam a mudar de opinião ao perceberem que suas chances eleitorais vão diminuindo com esta atitude. Como qualquer político, eles vivem de votos, portanto, o horizonte se tornou mais claro para os imigrantes indocumentados.